Bilhete do Canadá – Um debate desgostante


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Uma superpotência como os Estados Unidos, responsável por muito do que bom e mau vai pelo mundo, não devia ter candidatos à chefia do estado ao nível da extrema baixeza.  Tinha, isso sim, de manter uma fasquia alta quanto à qualidade dos concorrentes por simples respeito ao estado. O Partido Republicano mostrou não entender essa escala de grandeza ao não cortar cerce o passo a um candidato tão ordinário como Trump. A mediocridade do Partido Republicano ficou escancarada ao só reagir, na pessoa de vários senadores, ao video de há uns anos atrás em que Trump, julgando-se muito viril, usou um palavreado de habitué de casas de passe para relatar as suas (não sabemos se inventadas) aventuras sexuais. A fraqueza actual do Partido Republicano fica demonstrada pela sua incapacidade de evitar que este energúmeno chegue à boca das urnas e, vergonha das vergonhas, tenha ainda um número razoável de pessoas a votar nele.  Roberto De Niro chamou-lhe aquilo que, de facto, ele é e ficou largamente demonstrado neste debate: um rufia.

Não se põe um rufia a discutir política frente a milhões de pessoas com uma senhora, ainda por cima sabendo-se que iria levar, como levou, um grupinho de mulheres que se dizem abusadas por Bill Clintom. Qualquer mulher normal se sente desconfortável ao ser confrontada publicamente com as doidivanices do marido.  Apesar disso, Hillary teve nervos de aço e não perdeu a linha.  Tentou, por todos os meios, manter o debate dentro das baias da política, nacional e internacional, mas em vão. Ignorante, inculto, indiferente aos valores cívicos (como, por exemplo, o não ter pago impostos durante 20 anos e achar-se um génio por isso), Trump fugiu ao debate e às perguntas dos moderadores, e público em geral, atirando porcaria para a ventoinha, sem parar.  Não foi de homem.

Dir-me-ão que Hillary não é a candidata ideal para este momento dos Estados Unidos e do mundo. Concordo.  Era preciso uma ou um candidato com uma envergadura imbatível. Mas, apresar de não ser o máximo, Hillary está a anos luz do traste que lhe impuseram para debate.  Por isso, apesar de todos os pesares,  venceu. Novamente. E fechou a sujeira com chave de ouro quando, ao ser solicitada a indicar algo de positivo no seu adversário, apontou elegantemente os filhos do dito.

Mas tudo isto é muito poucochinho para uma superpotência que tem feito o mau e o bom tempo no mundo. O futuro não se afigura risonho. Wait and see.

Comments

  1. Thief says:

    Espero sinceramente que depois da palhaçada que está a ser estas eleições, os americanos façam uma reflexão profunda sobre a parvoeira que vai por aquele país.

  2. Nightwish says:

    O homem que não passou por essas conversas de gajos que atire a primeira pedra. Também não gosto nada, mas o “gajo”, seja latino ou americano, é o que é. Mau foi a insinuação de assédio, mas uma pessoa nunca sabe se o que sai da boca dele é para levar a sério ou não.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Caro Nightwish:
      Sabe o que é postura de Estado?
      Pois bem, é exactamente isso que falta nas eleições americanas.
      E sabe porquê?
      Porque essa gente se julga acima de tudo e de todos e tem o preconceito de tudo poder fazer porque no limite … são americanos.
      Falta de bom senso, falta de humildade. Arrogância, ganância e decadência. Mas sempre de nariz arrebitado. Nada mais.

      • Nightwish says:

        Por favor, isso é o que mais há. Onde está a postura de estado do Cavaco, do Coelho, do Sócrates, do Blair, do Lula, do Chávez, da Merkel, do Sarkozy e por aí adiante? Ninguém é exigente em lado nenhum.
        De resto, depois de todas as declarações deste ano é preciso ir buscar uma conversa de tasca com 11 anos? A sério?

  3. A.Silva says:

    Curioso, a ordinarice do trup causa mais comichão em certas meninges que as declarações belicistas e assassinas de killary clinton.

    Curioso tempos…

  4. A.Silva says:

    O que estas eleições demonstram é que o império já só produz trumpa, seja no feminino seja no masculino.

  5. fleitao says:

    Ernesto Ribeiro: é como sugere. Há uma minoria de americanos de grande qualidade, e por isso inadaptados. Ou vivem fora do país (como a célebre “geração perdida” representada por Hemingway e Fitzgerald) ou vivem isolados na sua terra. Depois, há a multidão intoxicada pela propaganda oficial, mal informada, inculta que os “trampas” lá do sítio manipulam em favor dos seus interesses. São a carne para canhão e julgam-se o máximo. Pais começado aos tiros´, num corpo a corpo permanente de sobrevivência, receio bem que acabe por caír no mesmo actualmente. Porque tem dentro de si todas as sementes da viol^dencia, a começar pelo racismo. Mas, ao mesmo tempo, são generosos.
    Vou-lhe contar uma cena cómica que vivi a prmieira vez que fui a Washingon. Fui à estação central dos caminhos de ferro e dirigi-me ao guichet de informações, onde estava uma senhora de ar pacato. Perguntei-lhe onde era a informação turística, respondeu-me que não havia. Certamente intrigada pelo meu ar ar surpreendido, quis saber para que servia isso. Expliquei. Retorquiu que fosse a uma livraria e comprasse esse material. Eu não queria acreditar no que ouvia. A senhora quis saber donde eu vinha. Adiantei que vinha do Canadá. E agora, o diálogo:
    – E vocês lá têm isso?
    – Temos. Nas cidades pequenas, ao menos um posto e nas cidades grandes, vários.
    – Pode lá ser!
    Era o grito de alma de mais uma americana convencida que o Canadá é uma floresta lá para o norte, onde as pessoas vivem com os ursos e, naturalmente, administrada pelos Estados Unidos… È a mentalidadee dos “donos disto tudo”…

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Agradeço-lhe o contributo.
      Viajo bastante, em regime profissional, pelos Estados Unidos e tenho muita família e amigos no País.
      Tenho um conhecimento penso que concreto do País, pois lido com todo o tipo de pessoas. E reconheço nelas a generosidade. Diria mesmo que no povo há um enorme ar de simplicidade, às vezes de criança…
      Mas não é este povo que trata dos assuntos de política interna e externa e que participa nestes debates de “lavar roupa suja”. Não é este povo que pode ter acesso aos poços de petróleo ou aos interesses geo-estratégicos. Quem o faz, é um conjunto constituído por uma classe política e uma outra classe claramente feudal (quando não também política) que funciona em oligarquias que hoje dominam o que chamam o “bastião da Liberdade”, mas que para mim, é uma treta de todo o tamanho. São estas associações, uma verdadeira Mafia que tomaram conta do País.
      São estes representantes dos Estados Unidos, que andam de bandeira na lapela (também temos por aqui uns figurões do mesmo tipo) que vão transformando aquele país muito negativamente.
      E o que diz é a verdade. Para aquela gente que tem acesso a tudo, mas que é inculta porque é mal educada e desinformada, o Canadá não passa uma imensa floresta com uns alces e uns ursos e os mexicanos, uns bandidos traficantes de droga.
      E entre o inferno e a imensidão, fica o paraíso…
      O que é preocupante é que a grande maioria das pessoas desconhece a realidade do “American way of life”.
      A história falará disso daqui a umas décadas.

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