Ao João


jjc
Sabes, ia escrever umas coisas sobre ti. Mas ao começar, li o post do Nabais e, com o meu velho complexo de inferioridade, decidi não escrever nada. Perante aquele poema, simplesmente não valia a pena.
Nunca te disse, mas era como me sentia sempre à tua beira: inferior. Falávamos todos os dias, várias vezes por dia, por SMS e por mail. A correspondência que trocámos era capaz de dar para publicar um livro.
Mas nas 2 ou 3 vezes por ano em que nos víamos ao vivo, calava-me. Não sabia o que te dizer. Se calhar nunca reparaste, éramos sempre muitos e nunca faltava com quem falar. Mas tu eras tu, eras o João José Cardoso, eu era apenas eu. Podia nascer 10 vezes que não chegaria ao teu nível, como é que havia de sentir-me ao teu lado?
E afinal, passado um ano, cá estou eu. Sobrevivi-te. É natural, mais 12 anos de boémia em cima fazem uma certa diferença.
Tenho pensado muito em ti neste último ano. No dia em que te conheci no 007 – Licença para Comer. No abraço que me deste, já bem bebido que estavas, na primeira vez que fomos almoçar ao Casino da Urca. Na noite em que me puseste a dormir no chão, mais a Noémia e a pequena Leonor, porque te esqueceste de ir buscar um colchão ao sótão e porque a cama da tua mãe, apesar de vazia, era sagrada. No dia em que alteraste os planos e mais uma vez propuseste o Casino da Urca, sabendo que eu queria ir ao Portugal dos Pequenitos com as miúdas. Na última vez em que nos encontrámos, na Estação de S. Bento onde tomámos café e na Serrana que nunca te mostrei.
Costumo dizer que não me arrependo de nada. Engraçado, há uns dias um amigo comum recordou-me um post terrível que em tempos escrevi e do qual me arrependo profundamente. Quanto a ti, também me arrependo. De nunca ter realmente conversado contigo. De nunca te ter olhado nos olhos para dizer que gostava de ti. Que te admirava. Que gostaria, um dia, de ser brilhante como tu eras. Chamei-te amigo, quase no fim, mas já estavas demasiado doente para responder.
Não faz mal. A tua ausência, no último ano, serviu-me de resposta. E a falta que me fazes também.

Comments

  1. António Fernando Nabais says:

    Quando comecei a ler isto, pensei “Parece que é parvo ou o caralho!” Ainda bem que não foste.

  2. José Peralta says:

    Ricardo Ferreira Pinto – António Fernando Nabais

    Não conheci João José Cardoso, (fiz alguns comentários aos seus posts aqui no Aventar) como não vos conheço aos dois.

    Escrevo-vos comovido ! O que escreveram sobre João José Cardoso, é muito bonito ! Um verdadeiro Hino à Amizade !

  3. Patolas says:

    Conheci um João José (Cardoso) em Coimbra nos anos 80, do século passado, na Faculdade de Letras, durante a “luta” pela integração do estágio nas licenciaturas em letras. Seria este JJC? Obrigado.

    • António Fernando Nabais says:

      Caro Patolas, não tenho a certeza, mas é certo que o JJ andou na Faculdade de Letras nos anos oitenta. Se havia lutas, costumava lá estar.

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