Ninguém comparece ao meu rendez-vous


Assim de repente, lembro-me de quatro ou cinco malucos que desapareceram da cidade. Demoramos tempo a dar pela falta deles, só os vemos quando calha, mas sabemos quem são, que tipo de maluqueira é a sua, qual a melhor forma de tratá-los. Por exemplo, há dois que andam sempre a correr. Um com aspecto de corredor (perdão: runner) profissional, roupa desportiva, todo apetrechado, mas quando se olha mais de perto vê-se que a roupa está gasta de tanto vento e chuva que apanha, a faixa fluorescente à volta da cabeça é claramente excessiva, e a expressão dos seus olhos é de quem está para lá de Marraquexe. O outro, um velhote que suspeito sofrer de Tourette, sempre muito inquieto, o rosto convulso, sempre a correr como quem vai salvar os bens de uma casa em chamas, dá aflição vê-lo. Não sei que será feito deles.

Isto para não falar do barbas doido, que me contou, um dia, uma história atestada de detalhes extraordinários da sua falsa vida no Alentejo, da herdade, da irmã, do tio, dos cães, e era tudo tão encantatoriamente inventado que eu quis acreditar. A esse, não o vejo há anos.

Não é invulgar que sobre eles se especulem histórias de vida muito romanceadas. Eram génios da matemática e enlouqueceram de tanto estudar. Eram filhas de boas famílias e perderam a cabeça por um delinquente. Eram riquíssimos, mas o vício da jogatina fê-los perder tudo. As histórias são sempre de glória e queda, porque nos malucos, lá está, procuramos o que falta de poético nas vidas dos normais, gostamos de atribuir-lhes vidas com enredos literários. Como se fossem isso, tal qual, personagens que saltaram dos livros e andam por aí aos tropeções, ou não fosse árduo para quem saiu de um livro ajustar-se a um mundo de cimento e tijolo.

Mas andam a desaparecer os malucos da minha cidade, ou então sou eu que ando a faltar aos encontros.

 

Sobre Carla Romualdo

aviadorirlandes(at)gmail.com
aventar.eu / aportaestreita.com

Comments

  1. Maravilhoso sô dona Romualdo🙂

  2. António Fernando Nabais says:

    Espectacular, menina Carla. Os malucos fazem-nos falta, porque temos medo de sermos obrigados a substituí-los.

  3. Fernando Lopes says:

    Carla, como todos os outros habitantes da cidade, uns desaparecem outros permanecem firmes no seu posto. O «empresta-me 1 euro» ainda por aí anda. E não é bom viver numa cidade que preserva a dimensão humana e onde ainda conhecemos os «nossos malucos»?

    • Sem dúvida. A propósito do “empresta-me 1 euro”, lembrei-me que há muito tempo não ouço aquele refrão de Santa Catarina “Osenhorporfavordeixeficaralgumacoisinha”. Que será feito desse homem?

      • Fernando Lopes says:

        O velhinho que andava com o pau como muleta? Ouvi dizer que morreu. 250.000 habitantes não deixam de ser uma aldeia, grande, mas aldeia. Com o bom e mau que isso tem.

  4. Emilio says:

    No, le vi la semana pasada en el sitio de costumbre, o sea junto al Majestic. Pero ya no acaba su plegaria.

  5. raul marques says:

    Presente, Passado, Imaginacao, Fantasia…….Cada Momento

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