Crónica do Rochedo IX – De Maria Leal a Umberto Eco


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Um dos humoristas que mais aprecio é o Rui Unas. O seu último projecto chama-se “Maluco Beleza”. Sempre que posso passo pelo seu canal na net ou pelo facebook para assistir às entrevistas (gostei especialmente da entrevista ao Luís Franco Basto). Ontem, tropecei na da Maria Leal.

Obviamente, vi no facebook a sua famosa actuação no programa do Goucha e da Cristina. Como muitos outros, fui invadido pelo mais puro espanto, seguida da mais franca sessão de gargalhadas e terminando num genuíno sentimento de vergonha alheia. E por aqui me fiquei. Fui assistindo, já sem grande espanto e com a possível saudável distância ao histerismo das redes sobre o tema. Até ontem.

O ódio destilado sem qualquer freio por boa parte dos internautas que participavam em directo nas redes ao programa é inenarrável. Desde insultos, passando por desejos que a senhora morra e terminando em tentativas de enxovalho pelo facto da senhora dar calinadas de português ao mesmo tempo que esses mesmos escreviam num português de fugir. Porquê? A sério, porquê?

A senhora canta mal? Certamente que chamar “cantar” é simpatia. A sua dança é de ir às lágrimas? Certo. Foi à televisão? Pois foi e quantos como ela, entre programas de entretenimento e até, alguns casos, de informação andam pelas televisões a cantar/dançar e discursar de forma, vou procurar ser o mais simpático possível, sofrível? Do Zé Cabra ao Tino de Rans sem esquecer aquela senhora que era espírita, temos visto de tudo. Maria Leal é mais um caso. E, a exemplo dos outros, com bastante audiência. Muitos que criticam ferozmente são os mesmos que não perdem uma actuação de todos estes…exemplos. Porém, insultar de forma violenta, desejar a sua morte e outros dislates do género é que não lembra a ninguém. A ninguém com mínimos. Mínimos, não peço mais. Ora, isto é o pão nosso de cada dia das redes sociais. E está cada vez pior.

Perante tal cenário que invadiu as redes sociais, já Umberto Eco, num discurso na Universidade de Turim em 2015 afirmou que “as redes sociais dão o direito à palavra a uma legião de imbecis”. Para ele a televisão já tinha dado ao “idiota da aldeia” um patamar superior e que as redes sociais vieram “promover o idiota da aldeia a detentor da verdade”. Foi de Umberto Eco que me lembrei ontem à noite quando vi o “Maluco Beleza” com a Maria Leal. Dele e da forma como as pessoas se guiam pelo ódio mais primário por tudo e por nada.

Sublinhe-se a elevação de Rui Unas na condução desta entrevista. Tinha sido mais fácil e popular seguir a turba ululante. Preferiu o caminho mais difícil. Um senhor.

Comments

  1. Nightwish says:

    Não deixa de ser de rir…
    Mas há muito que cante igual e venda bem só porque soa melhor por causa do auto-tune e tecnologia semelhante junto a muito marketing em cima.

    • Nascimento says:

      a gaija até é toda boa… sempre é melhor ver esta boazona que ler aqui os comentários do grunho nihtgwisch

      • Nightwish says:

        São gostos, e ainda ninguém se lembrou de resolver a dívida pela taxa ao mau gosto, pelo que está no seu direito.

  2. o Unas tem um público muito juvenil, quando leio esses comentários tento lembrar-me que pode ser um miudo de 12 anos

Trackbacks

  1. […] deve ser publicado num blogue ou o que não deve ser. E Maria Leal, que descobri ontem graças ao post do Fernando Moreira de Sá, é tão séria como toda essa tropa-fandanga que comanda os destinos do país há décadas. […]

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