Lettres de Paris #75


«There is never any end to Paris»

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assim chamou Hemingway a uma parte de ‘Paris é uma Festa’ (A Moveable Feast, no original). Hoje que é a última noite que passarei em Paris após 3 meses, mas sei que também para mim Paris não acaba aqui. Que hei-de voltar, embora por menos tempo. Porque se volta sempre a Paris, porque é impossível não querer voltar a Paris. Estou um bocado triste, é verdade, ou não será bem tristeza, mas uma certa melancolia, que não é a mesma coisa, de deixar a cidade onde vivi nos últimos tempos. Foi por pouco tempo, bem sei, mas ainda assim, constroem-se rotinas, criam-se laços, frequentam-se sítios, reconhecem-se cantos e lugares e de repente tudo isso deixará de existir e será substituído por outros sítios, outros cantos, outros laços, outros lugares, outras rotinas, que me são muito familiares. Penso que as retomarei sem esforço. Voltar a casa também tem os seus encantos. Mas, como já escrevi numa das cartas anteriores, nos primeiros dias será difícil não estar aqui, sei-o bem.

 

Tenho andado nos últimos dois ou três dias a fazer as despedidas de Paris. Mas é um bocado estranho fazer despedidas num sítio onde se sabe que, muito provavelmente, se voltará. Estar fora da nossa vida normal durante um período mais ou menos prolongado, implica passar por várias fases. Ao princípio ficamos deslumbrados, queremos ver tudo, ir a toda a parte, experimentar tudo. Depois, a meio, estamos cansados, queremos voltar para casa, mas à medida que o fim da estadia se aproxima, começamos a ter saudades antes do tempo. Saudades ainda antes de se sair do lugar. Como se fazem despedidas e se matam saudades ao mesmo tempo? Parece-me um exercício estranho e, portanto, nãos ei bem o que fazer, se me despeço ou se mato já saudades. Andei ao longo das margens do Sena, hoje, como ontem, a ver as (outras) pontes. Não fiz nada de especial, a não ser as malas onde tive dificuldade em colocar tudo o que ainda aqui tenho. De certeza que vou pagar excesso de peso. De certeza que não me vou safar com os 3 ou 4 quilos a mais (ou mais) que a mala maior parece ter, como me safei quando fui de Lisboa para Amsterdam, dia 18 de outubro e vim de Amsterdam para Paris no dia 22. Tives sorte dessas vezes, ou um natal antecipado, já que apesar de a mala ter alguns quilos a mais, me deixaram passar, por simpatia e sorte. Palpita-me que amanhã as coisas vãos er diferentes. Mas bom, 3 meses numa mala, é o que dá e, ao contrário de Paris, a minha mala tem fim e tem principalmente fundo e vai ser preciso bastante força para a conseguir fechar.
 
Mas adiante. Passeei então pelas margens do Sena, primeiro daqui até ao Quai Voltaire e à Pont du Carroussel, que atravessei para o Quai des Tuileries, sempre de olhos atentos ao Musée d’Orsay, cujo edifício, uma antiga gare, é magnífico. Desta vez não visitei este museu. Já o tinha visitado de outras vezes e não tinha, agora, nenhuma exposição que me despertasse muito o interesse. Fica para outra vez a revisita. Andei ao longo do Quai das Tuileries, passei a Pont Royal e cheguei à Passarelle Léopold-Sédar-Senghor, antiga Passarelle Solférino, cheia de cadeados. Outro dia na Passerelle Debilly estava um cartaz da Mairie de Paris que dizia ‘As nossas pontes não resistirão ao vosso amor’, exatamente por causa desta moda dos cadeados. Encontramo-los por toda a parte, aqui. Até em Aveiro, em algumas pontes já há cadeados. Como se escrever dois nomes num cadeado, juntar-lhes um coração, fechar o cadeado e guardar a chave (ou deitá-la fora, honestamente não sei o que lhe fazem) fosse garantia da durabilidade de uma relação ou, mais importante (e por vezes diferente) da durabilidade do amor! Andei pela ponte a ver os cadeados, apesar de tudo. Há um de que gosto particularmente. Mischa e Ania, está escrito, em russo (leio um bocadinho de russo, poucochinho) de um dos lados. Do outro, uma cara de um porco. Obviamente que o sentido daquilo apenas o Mischa e a Ania o saberão. Mas fiquei a pensar que raio de sentido teria aquela cara de um porco num cadeado supostamente romântico pendurado por dois russos (ou pelo menos dois falantes de russo) numa ponte, em Paris.
 
Além dos cadeados, perdi muito tempo a ver tudo à minha volta, de todos os lados da ponte. A Tour Eiffel, sempre presente, a espreitar por cima dos prédios do Quai d’Orsay. As pequeníssimas chaminés cilíndricas a deitarem fumo muito branco contra o céu azul-alaranjado. Os barcos de um lado para o outro, a cruzarem a Pont du Carroussel, a Pont Royal, a Pont de la Concorde e a Passerelle Soférino, onde me encontro, e todas as outras pontes de Paris, nesta tarde fria, mas com sol e céu muito azul. Tinha ponderado antes andar de barco no Sena, mas mudei de ideias ao sentir o ar muito frio. Andei duas vezes de barco, nestes 3 meses. Não precisava de andar mais nenhuma. No entanto, acho, agora que estou em casa, pela última noite, que talvez devesse ter andado de barco. É uma das melhores maneiras de ver a cidade. E, seguramente, teria sido uma das melhores maneiras de dela me ter despedido. A seguir ao passeio, apanhei ali mesmo no Quai des Tuileries o autocarro 72 para o Hôtel de Ville. Andar de autocarro em Paris é também uma bela maneira de ver a cidade. Tenho andado bastante nestes últimos dias. Tenho reparado também como a maior parte dos passageiros não são turistas. E não reparam na paisagem. Vão entretidos com os telefones, ou a ler. Raramente levantam a cabeça para admirar a paisagem, geralmente soberba do outro lado da janela. Não terão saudades. Nem andarão a fazer as despedidas. Ou tomarão Paris, as vistas de Paris, como garantidas ou acharão que ‘there is never any end to Paris’ para eles. E que, em qualquer altura poderão levantar a cabeça e ver a Tour Eiffel a iluminar-se, ou a Conciergerie, ou a Pont Neuf, ou o Sena.
 
Passar-se-á o mesmo em toda a parte. Não reparamos naquilo que faz parte do nosso quotidiano. Tomarmos como garantido que as coisas de que gostamos nas cidades onde vivemos estarão sempre lá para quando quiseremos vê-las, para quando quisermos levantar a cabeça e olhar para elas. É por isso que, de vez em quando, me obrigo a ser turista na cidade onde nasci e na cidade onde vivo. Andar com a máquina fotográfica, a reparar nas coisas em que não reparo habitualmente. Não sei se é um bom exercício. É um exercício apenas, que gosto de fazer. O Parvis do Hôtel de Ville estava quase deserto. Andei por ali, o edíficio merece umas horas de atenção e eu gosto de olhar para ele. Reparo pela primeira vez na pequena formiga de um dos lados do globo à saída (de quem vai em direção à Pont de L’Arcole). Aí está porque se deve levantar a cabeça de vez em quando. A seguir fui pela Pont de l’Arcole, depois pela rua com o mesmo nome, até chegar á Notre Dame. Bebi um chocolat chaud no Aux Tours de Notre Dame, na esquina com a Rue du Cloître Notre Dame e depois passei a Catedral, segui pela Petit Pont, passei pela Shakespeare and Company onde o banco tinha escrita uma frase nova, de Samuel Beckett, ‘we spend our life, it’s ours, trying to bring together in the same instant a ray of sunshine and a free bench’. É isto. Um raio de sol e um banco livre, no mesmo instante. Não havia raios de sol, mas o banco estava livre, e, apesar do frio, sentei-me um bocadinho, na companha das palavras de Beckett. Depois atravessei, a Rue Saint-Jacques, entrei na Rue de la Huchette, passei pela minúscula Rue du Chat qui Pêche e cheguei à Place Saint-Michel. Quando entrei em casa comecei a fazer as malas, A tentar, como já disse, meter 3 meses de coisas lá dentro, para constatar rapidamente que terei excesso de bagagem amanhã. Acabei o dia a despedir-me do Franco, no meu café-brasserie do costume, o Le Saint-André. O Franco perguntou-me quando volto, assim que lhe disse que amanhã me ia embora. Eu disse que já não voltava. Ele perguntou de olhos muito abertos, como se não fosse possível: ‘nunca mais?’. Ri-me. Acho que ele não leu Hemingway. Disse-lhe que voltaria, sim. Um dia destes.
(Já estou em Lisboa. As cartas de Paris, estas, desta vez, acabam aqui. Aos leitores do Aventar que as seguiram, agradeço a simpatia. Em breve escreverei cartas de outros locais. Ou postais. Ah, e não paguei excesso de bagagem!)

Comments

  1. miguel says:

    Finalmente a autora regressou a casa (“sem pagar excesso de bagagem”)! Até que enfim que se acabam as cartas cheias de banalidades sobre a sua estadia em Paris e a ocupação de tanto espaço no Aventar!

    • Ricardo Ferreira Pinto says:

      Belas banalidades, as da Elisa. Sorvo cada palavra das suas crónicas como se fosse a última.
      Quem dera que todos os banais comentadores estivessem à altura das crónicas que comentam.

    • Pedro says:

      Obrigado, Elisabete, foi um prazer. Mas não chegou a dizer se o “Aux Assassins” ainda existe por lá. ;). Agora é desfazer as malas, apanhar um bocado e sol e seguir outra vez viagem. A gente organiza um crowdfunding para a próxima viagem para onde quiser.

      • pesquisei, na altura que me falou nisso e não encontrei senão referências antigas :(. Isso do crowdfunding era boa ideia :). Mas talvez consiga ir a alguns sítios sem essa ajuda. Para já, Riga em Fevereiro e Leuven em Março, mas por poucos dias. A ver se tenho entusiasmo para escrever postais e ‘ocupar espaço’. Obrigada por ler.

    • Não deixemos um masoquista à fome. Venha a dose seguinte das lettres.

  2. Paulo Só says:

    Que tristeza, a agressividade gratuita. Belo exemplo daquilo que o anonimato proporciona, e do que afasta as pessoas decentes da internet.

  3. miguel says:

    Pelos vistos, o meu comentário é tomado pelos outros comentadores como um ataque pessoal à autora das Lettres e como um acto de agressividade gratuita. Pois não é nada disso, nunca fiz tal coisa. Acontece que espero de um Blog público e alternativo como o Aventar, que, na variedade dos seus autores e temas, tenha um certo grau de relevância para a coisa pública e, de certo modo, proporcione uma contra-informação em relação aos media mainstream.
    Ora as descrições extremamente auto-centradas e repletas de pormenores repetitivos das Lettres teriam, na minha opinião, mais cabimento num blog pessoal ou numa página de Facebook. Considero que as experiências pessoais da autora durante a sua presença em Paris seriam muito mais interessantes se fossem mais ligadas a aspectos sociais e políticos enquadrados.
    Como leitor, apenas posso dizer que posts excelentes como o de Bruno Santos sobre Trump ou o de João Mendes sobre a Economia da Pobreza correspondem àquilo que espero ler no Aventar, o que não acontece às Lettres de Paris. Fossem elas um acontecimento pontual, não me teria dado ao trabalho de escrever comentário algum; a variedade no Aventar é até simpática. Mas, lamento, com a assiduidade e comprimento dos últimos meses, as Lettres acabaram, de facto, por ultrapassar a minha paciência de leitor frequente do Aventar.

    Nos tempos que correm, em que os órgãos de informação cada vez mais seguem apenas o mainstream e ocultam até informação importante, é fundamental que haja formas de transmitir informação de qualidade e esclarecedora. Por isso, agradeço a Blogs como o Aventar, o facto de facultarem o acesso a esse tipo de informação. Mas considero que também tem que haver espaço para se expressar crítica que nada tem de pessoal contra a autora, mas reflecte uma perspectiva própria.

  4. Elisabete Figueiredo says:

    Neste blog há espaço para tudo, até para a sya opinião e perspetiva. Acontece que também há espaço para os postais (e como como sou eu que os escrevo, são sobre aquilo que me apetece escrever). Creio que é livre de os não ler e eu sou livre de os escrever. Há muitas opiniões e perspetivas diferentes, felizmente. Também há muitas maneiras de escrever. A sua, talvez não intencionalmente, embora pareça, foi um bocadinho
    agressiva. Basicamente, ao próximo postal que eu escrever de qualquer sítio ( e aqui no Aventar já os escrevo há quatro anos) passe-lhe ao lado. Não é assim tão complicado. E claro que respeito o facto de não apreciar, mas poderia talvez reconhecer que pode haver quem aprecie. É essa a beleza do mundo

    • miguel says:

      É pena que, como autora do Aventar, não responda aos meus argumentos e, em vez disso, apenas constate que é livre de escrever o que quiser; isso é óbvio, não passando pois de outra banalidade.
      Tal como diz, é fácil só ler os conteúdos do Aventar que considero uma verdadeira mais-valia por terem informação diferente daquela que se encontra nos media mainstream ou que tem um carácter extremamente pessoal.
      Para mim, a verdadeira beleza do mundo encontra-se muito mais num olhar crítico e consciente sobre o mesmo.

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