Pânico na redacção


smr

via Dentons Creative

O mundo gira hoje à velocidade das redes sociais. Podemos perder horas com os mais variados argumentos, da abolição consentida da privacidade ao perigo da propagação de factos alternativos, mas centremo-nos naquilo que é absolutamente factual: o poder das redes sociais é gigantesco e tende claramente a aumentar. As empresas precisam delas, os serviços públicos precisam delas, o desporto precisa delas, a comunicação política precisa delas e o entretenimento vive delas. E a procissão, parece-me, ainda vai no adro.

As estruturas tradicionais de poder, como em qualquer revolução, demoram a perceber o que se passa. Ou pelo menos a dar-lhe a devida importância. E quando acordam, não estão preparadas. E isso verifica-se com casos como os de vários jornalistas com nome na praça, que entraram em choque com a página d’Os truques da imprensa portuguesa e acabaram por “levar uma coça”. Ainda que em alguns casos auto-infligida.

Ontem foi a vez de Ricardo Costa, do Expresso. A coisa até começou com uma brincadeira do director de informação do grupo Impresa, que “mandou uma boca” aos Truques. Em resposta, os Truques devolveram a gentileza, mas tocaram onde dói mais: no caso dos jornalistas avençados do GES, que os Panama Papers iriam revelar, pela mão do Expresso, um dos OCS envolvidos na mega-investigação. Infelizmente, a coisa não correu como esperado e a lista perdeu-se algures entre os milhares de documentos daquele que quase foi o escândalo do século. Mais um.

Foi – continua a ser – uma enorme machadada na credibilidade do Expresso. A tal coça auto-infligida. Senão vejamos: o Expresso podia não ter dito absolutamente nada sobre o caso dos avençados do GES, se é que ele existe. Entre tantos dados recolhidos pela investigação, não faltaria o que noticiar, e nem se noticiou grande coisa. Mas fez questão de fazer manchete com o grande achado. Um grupo de jornalistas, a receber uns trocos valentes, do saco azul do GES. Quem seriam? Quem serviam? De onde vinha o dinheiro? Qual o papel de José Sócrates em tudo isto?

Claro que o povo queria saber. Sim, entra na categoria de tema chato, mas é o BES for God’s sake! O Salgado, o primo do Salgado, o tio do Salgado que punha “o Moedas a funcionar”, o amigo do Salgado, que tanto pode ser o presidente da República como o Sócrates, os offshores do Salgado, os financiamentos do Salgado, o Monte Branco do Salgado e agora ainda íamos ter os jornalistas do Salgado, que quando um tipo destes cai em desgraça, todas as culpas lhe são automaticamente atribuídas. Os outros nunca sabem de nada, coitados. O Salgado é o Sócrates dos banqueiros.

E como o povo queria saber, e o Expresso, culpado, lhes ia alimentando a novela, o tempo foi passando e as perguntas permaneciam. E os Truques não largavam o osso. Até puseram um relógio a contar. E insistiram num assunto que, de bomba da década, foi desvanecendo pelos corredores da redacção do semanário. E uma das melhores provas dos danos causados pelo flop é ver Ricardo Costa provocar e reagir à provocação que recebeu em troca com referências ao KKK e a Steve Bannon. Ver um jornalista credível descer a este nível diz tudo.

Aceito, obviamente, a discussão em torno das motivações da página. A questão do anonimato é sensível mas dificilmente poderiam fazer o trabalho que fazem às claras. Porque às claras seria fácil esmagá-los sem dó nem piedade. Mas não deixa de ser interessante, perceber que os jornalistas que têm surgido a exigir explicações aos Truques insistam sempre na questão do anonimato e tão poucos tentem rebater as acusações de que são alvo. E por ter acompanhado esta discussão e algumas réplicas, fui dar comigo a descobrir que os autores da The Economist não assinam com mais do que duas iniciais, que podem não significar absolutamente nada. Podia pegar no argumento dos Truques, segundo o qual nenhum destes jornalistas recusaria trabalhar para a conceituada revista, mas para quê? Se eles a citam inúmeras vezes. Um bom exemplo é este, de 2014, em que o Expresso cita o The Economist, que afirmava que Portugal poderia ter uma saída limpa. O parecer foi de tal forma valorizado pelo grupo Impresa que ainda teve direito a uma análise mais detalhada da coordenadora geral da Exame e de Economia do Expresso na SIC Notícias. A saída limpa foi o que se viu mas o exemplo fala por si.

expresso

Já agora, não sei se repararam, mas ainda não passou um ano desde que rebentou o escândalo que não ia deixar pedra sobre pedra. Hoje, perto de assinalar um ano desde a descoberta, que começou a ser revelada a 3 de Abril, já quase ninguém fala nos Panama Papers, não há registo de grandes consequências para os visados e o raio da lista dos avençados do GES ainda não deu à costa. E do Expresso nem um pio. Eles que continuem a servir clickbaits e depois queixem-se da selvageria das redes sociais.

Comments

  1. Notas ao lado:Obviamente as duas iniciais do The Economist são do nome do jornalista. Cá também se usa. Por exemplo, em páginas onde o jornalista já assinou uma peça por extenso. As outras peças do mesmo autor nessa página são muitas vezes assinadas com as iniciais do nome. O The Economist omite nomes completos, do mesmo modo que as notícias dos jornais portugueses durante muito tempo também ficavam por assinar. Ainda hoje muita pequena coisa fica por assinar se nós sermos ao trabalho de folhear. Veja-se no i a quantidade de notícias online que ficam por assinar. Ou as assinadas pela Lusa.

  2. O jornalismo livre começa a ser uma utopia. Hoje a grande maioria dos jornalistas não passam de câmaras de eco dos interesses cada vez mais putrefactos, instalados.

  3. ferpin says:

    O advento da internet lixou a vida aos jornais.

    Um jornal tem que ser mesmo, mesmo de referência e beneficiar dum respeito enorme do povo para ganhar dinheiro e fazer jornalismo sério.
    Reconheço que o expresso e o público fizeram algum esforço, mesmo tendo uma larga maioria de opinadores de direita.

    A larga maioria dos jornais, para existirem e darem de comer aos seus “jornalistas”, tornaram-se caixa de ressonância de interesses particulares.
    Ou jornais de escândalos e sensacionalismo.
    Ou as duas coisas (CM, sol, etc)

    Infelizmente, o público já praticamente se rendeu (o belmiro deve ter-se fartado de meter lá dinheiro) e o expresso já vai a meio da estrada (só como exemplo, os panama papers e esta cena dos off-shores, envolvem de certeza amigos do balsemão e donos dos media e investidores de publicidade nos mesmos).

    O CM, Sol, Observador, etc, para mim nem são jornais, não dou crédito a nada do que digam, são como um relógio parado, se disserem alguma coisa verdade, é por acaso ou porque essa verdade serve os interesses do dono.

    Voltemos ao Expresso e Público.
    Conseguem imaginar um destes jornais a publicar uma notícia contra o BES antes do estoiro? Perdiam se calhar metade da facturação em publicidade.

    Estes jornais e seus donos querem lá o PSD e CDS, para continuarem os negócios de venda do estado a preços baratos. Esta cena do Núncio…

Trackbacks

  1. […] A imprensa portuguesa vive dias conturbados. A sucessão de factos alternativos, o clickbait primário, as ligações suspeitas ao poder político e económico, a perda de leitores e credibilidade. Mas aqueles que mais perdem com tudo isto, não tenhamos dúvidas, somos nós, the people. Porque num momento em que figuras sinistras emergem e tomam o poder, figuras que desprezam a imprensa livre e a liberdade de expressão, precisamos de uma imprensa mais forte do que nunca. Uma imprensa do lado da democracia. […]

  2. […] Mas já que estamos nisto, importaria perceber se alguma vez nos será revelada a dita lista ou se se tratou apenas de uma manobra mediática com vista a um aumento da procura dos conteúdos do Expresso. Um facto alternativo, digamos. Porque da forma como a redacção do Expresso perdeu o pio sobre o tema, ou era facto alternativo ou gerou uma investigação de tal forma complexa que entrou em segredo de justiça. Ou será que apanharam algum amigo do senhor Balsemão? Um patrocinador envolvido, perhaps? Não sabemos. Sabemos apenas que nos prometeram a revelação do século e que, desde então, nada. Rigorosamente nada. Não admira o pânico que se vive na redacção. […]

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