A morte por asfixia do Serviço Nacional de Saúde; a droga, a indústria do álcool – um breve relato.


Ontem, conforme a marcação previamente acordada com o Hospital de São Teotónio em Viseu, dirigi-me ao serviço de cirurgia para executar uma operação cirúrgica de pequena escala. Preparado que estava por antecipação, cheguei ao hospital 1 hora antes da hora acordada. Do ponto em que me encontrava pude espreitar durante horas a fio o lufa-lufa das urgências através das vidraças. O que previsivelmente me iria demorar umas 3 horas entre espera, intervenção (a um quisto na zona do cóccix) e alta clínica acabou por demorar 6 devido a um conjunto de circunstâncias extraordinárias ocorridas durante o dia de ontem no referido hospital.

As urgências estavam como sempre abarrotadas de pessoas, principalmente idosos. Durante as 4 horas em que pude observar o serviço apercebi-me do ambiente em que diariamente trabalham dezenas de profissionais de mão cheia, diga-se a bom da verdade: existe uma falta notória de pessoal (apesar do hospital já contar com 4 médicos estrangeiros; contudo existem especialidades em que o médico de serviço não tem mãos a medir para a afluência que se regista), de espaço para colocar os doentes (os corredores principais das urgências estavam abarrotados de macas e pessoas literalmente empilhadas em cadeiras de rodas; havia filas de macas até a sala de TACs; apesar de já existir um projecto, as urgências do Hospital de Viseu precisam muito de ser ampliadas porque o hospital, central a praticamente 3 distritos, já não tem capacidade de resposta para a enorme afluência) e de meios para intervir nos casos mais complicados.


Episódio 1: Entra uma maca conduzida pelos bombeiros de Seia. Na maca um senhor no seu estado terminal vem dos cuidados paliativos do Hospital de Seia (Guarda). Os bombeiros trazem a instrução do hospital: é um caso crítico de falência renal. O médico da especialidade não se encontra no local. É visto rapidamente e enviado para Coimbra. Se o especialista estava muito ocupado com vários casos, porque é que o hospital de Seia dá a ordem de transporte para Viseu em vez de ir directamente para os HUC? Eis uma explicação válida que me foi fornecida por um bombeiro: até Viseu paga o hospital de Seia. De Viseu para Coimbra, o custo pertence ao Centro Hospital de Viseu-Tondela. Poupar nas viagens? Chutar responsabilidades? Assim o parece.

Episódio 2: Dizem-me que a minha cirurgia e a cirurgia do senhor que se encontra ao meu lado (com o mesmo problema) terá que ser adiada. Acabara de chegar uma senhora com a bacia partida em virtude de um atropelamento (um dos clássicos atropelamentos na zona da Quinta do Galo\Palácio do Gelo; responsabilidade integral da Câmara Municipal de Viseu para quem conhece a zona pela inexistência de um sistema toponímico eficaz para por cobro a um flagelo que faz vítimas todas as semanas) e o caso parece grave porque a dita, segundo a explicação que foi dada à minha frente por um dos elementos da equipa de cirurgia, entrou em descompensação cardíaca. O responsável? Um tipo visivelmente embriagado que entra algemado na urgência a barafustar com toda a gente com quem se cruza. Como o indivíduo se negou a prestar o teste de alcoolemia às autoridades no local, veio de arrasto para a urgência. A única equipa de cirurgia foi obrigada a entrar em acção, adiado portanto o meu caso. Nada a obstar, tratando-se de um caso que poderia ser de vida ou morte.

Episódio 3: A senhora atropelada tem o seu caso resolvido. Está estável e consciente. Positivo. A polícia arranca com o sujeito embriagado. Entra outro na zona onde estava também embriagado, obrigado a levar pontos por ter caído de motorizada. E mais uma vez, somos obrigados a esperar para que outro inconsciente seja prioritariamente atendido.

Pelo meio vejo o Dr. Óscar (experiente médico de medicina geral e familiar) a ajudar os seus colegas de especialidade a uma velocidade medonha. Atende com rapidez (a despachar), ajuda na sala de reanimação, distribui frutas pelos acamados pelo corredor, atende o telefone da urgência. Outra médica, de nacionalidade cubana também se desdobra em cuidados pelo corredor. Aproveitei a sua presença para lhe desejar boa sorte e dar uma palavrinha sobre o seu país se tivesse tempo. Amiúde, durante 2 minutos, fala-me da sua experiência em Portugal e diz que em Cuba, nenhum médico é sujeito à brutalidade de ter que permanecer num serviço de urgência durante 24 horas seguidas, chegando mesmo a afirmar que tem medo de poder vir a ser destruído o seu sonho europeu se um dia, com o cansaço, cometer um dos chamados “erros fatais”. Gosta de Portugal e diz-se pronta para abraçar o público apesar de já ter tido propostas para ir para serviços privados. Quantos jovens licenciados portugueses partilham da mesma ideia?

Pelo meio, o senhor que se encontra ao meu lado para ser sujeito ao mesmo procedimento, fala-me da droga. A droga diz ele é o maior dos males da sociedade. Respondo-lhe que tem parcialmente razão e acrescento que o maior mal na minha opinião é o álcool – para se “andar na droga é preciso ter dinheiro” – já o álcool não: está disponível em qualquer estabelecimento ao lado do pão e pode chegar a ser mais barato que o pão. Destrói as vidas de quem não sabe beber, as vidas de famílias inteiras e de inocentes em acidentes rodoviários. Destrói dez vezes mais do que a droga. E ninguém faz nada para deter este mal porque a Indústria do álcool como é uma das principais exportadoras deste país, é devidamente protegida pelo aparelho de estado ao invés de outras indústrias. Não sou contra e aliás até sou convictamente a favor da cobrança progressiva de impostos sobre o tabaco como forma de desincentivo aos que fumam e como forma do Estado poder com o aumento de taxas suplantar os gastos que o SNS é obrigado a fazer com os doentes cujas patologias são derivadas do tabaco. Mas interrogo-me em relação ao álcool: sendo o vício que mais vidas humanas custa e que tem obviamente os seus custos de milhões ao nível da saúde no tratamento de problemas derivados do consumo sem moderação de bebidas alcoólicas, porque é que ninguém neste país é capaz de enfrentar o problema de frente e taxar as bebidas alcoólicas com a progressividade que tem taxado o tabaco e o jogo?

Com isto, o que estava inicialmente previsto para as 18:30 acabou por se suceder a um quarto para as 23 horas. Sorte a minha acabei por ser tratado por um simpático médico formado na Universidade de Coimbra. Durante meia hora, sabe-se-lá com que vontade, com que motivação depois de um turno cansativo que já ia longo (estava a perfazer 11 horas de serviço naquele preciso momento) explicou-me todos os passos, foi cuidadoso numa situação muito incómoda e ainda deu para relaxar com uma piadita sobre futebol:

Eu: “Se o Sr. Doutor não magoar muito, prometo que festejo os próximos 30 títulos do Benfica”
(uma colega, num PC ri-se desalmadamente)
Dr. “Bem eu sou da Académica… e isto está grave este ano não está”
(segue-se uma conversa taco a taco sobre a situação financeira herdada por Paulo Almeida, responsabilidade do engenheiro simões)
Dr: “Pronto, o Mitroglou já se foi”
Eu: “Ainda bem Dr. estava a ver que tinha de ir festejar os próximos títulos do Benfica e isso seria um sinal da minha decadência mental”

 

Comments

  1. Paulo Marques says:

    ” Não sou contra e aliás até sou convictamente a favor da cobrança progressiva de impostos sobre o tabaco como forma de desincentivo aos que fumam e como forma do Estado poder com o aumento de taxas suplantar os gastos que o SNS é obrigado a fazer com os doentes cujas patologias são derivadas do tabaco. ”

    O problema é que depois é um alvo fácil para o aumento de impostos – não foi com este aumento nem com o anterior que se passou a pagar mais em impostos do que o acréscimo de custos ao SNS. E a seguir vem o imposto ao sal e à gordura em geral, que dizem os estudos médicos têm pouca ou nenhuma influência na saúde.

    • Paulo, em relação a outros países da Europa somos curiosamente os que menos carregamos nos impostos sobre o tabaco e somos curiosamente os que menos (de todo o espaço europeu) carregamos nos impostos sobre o álcool e sobre o fast food. Se fores a França ou a Inglaterra verás que anualmente o tabaco sobe sempre mais 30 a 50 cêntimos. O alvo é fácil mas é necessário e eu continuo convicto que o aumento da receita nestes produtos deve sempre suplantar os gastos do Estado no tratamento dos casos derivados destes vícios.

      • Paulo Marques says:

        Esses países também têm maiores custos porque os ordenados são maiores.
        Eu não discordo que o estado taxe pesadamente, mas é preciso haver limites relativos aos custos de recursos públicos porque o estado não deve fazer juízos de moral e porque são incrivelmente regressivos.

  2. Já agora says:

    O alcoolismo não é um problema de quem não sabe beber. É uma doença, segundo a Organização Mundial de Saúde.

    Taxar progressivamente o álcool seria injusto para os 99 % dos que não abusam do seu consumo.

    O preço da droga droga e da droga álcool só faz variar a idade da pessoa quando o excesso de consumos entra em colapso. Mais ou menos 30 para as drogas, mais ou menos 50 para o álcool.

    Já agora, nem todos acabam da mesma maneira

    • Paulo Marques says:

      E das pessoas que morrem atropeladas. E das que sofrem violência doméstica com a ajuda do álcool. E quando vão trabalhar bêbados. E…
      Se é razão para taxar, não sei, até porque é uma taxa regressiva (tal como a do tabaco), mas devia ser mais controlado.

    • Aceito o argumento. Taxar progressivamente afectará os rendimentos daqueles que consomem sem moderação, desincentivando-os a consumir tanto. A verdade é que no caso do tabaco, o aumento progressivo de impostos (aliado a outras medidas como o aumento da oferta dos tratamentos anti-tabágicos; o SNS português oferece-os em boa hora quase gratuitamente) resultou e a procura do produto tem sido menor nos últimos anos. Se resultará com o álcool? Penso que sim. Mas em relação ao meu argumento principal tenho que dar o braço a torcer: taxar per se não chega. É preciso também apostar cada vez mais na consciencialização e na recuperação a todos os níveis, desde a educação cívica à recuperação de casos patológicos. Não é que estejamos mal nessa área porque não estamos. O Estado e múltiplas ONG´s\IPSS´s tem apostado forte na consciencialização e na prevenção. Mas é preciso um estímulo maior para combater o flagelo.

  3. Konigvs says:

    Também tu?
    Eu fui operado ontem no Santo António, depois de na consulta da especialidade, 3a feira da semana passada, o médico me ter dito que desta vez já não se poderia adiar mais. E uma semana depois já estava no bloco operatório. – Onde é que estão as tão faladas listas de espera então? Um gaijo quer empurrar para a frente e não pode! (obviamente que dependerá do tipo de coisa que é e certamente também do hospital).

    Mas reparei algumas coisas curiosas.
    Desde logo, não havia toalhas! Deram-me um lençol para me embrulhar. Ao menos tinham-me avisado que tinha trazido de casa. Talvez estejam a adotar o sistema dos Hostels, eu nunca fiquei em nenhum mas ouço dizer que é tudo pago à parte. Ao pequeno-almoço tomei chá de cidreira. É bom para acalmar, mas só chá, mais nada. Também poderiam ter avisado que eu ao menos tinha levado umas bolachas.
    Depois não pude deixar de reparar que, mesmo no bloco operatório andava tudo de telemóvel na mão,para aqui e para acolá. Depois do dinheiro, e das batas que andam para aqui e para acolá, talvez sejam os telemóveis, as coisas que mais bactérias carregam. O pessoal vai mijar, limpar o cu e depois pega no telemóvel, ou está de telemóvel na mão enquanto está a cagar. E depois dizem que um hospital é o melhor sítio para se apanhar uma infeção. Olha, o Jonas do Benfica ficou não sei quantos meses parado, e não foi da lesão, foi duma bactéria que apanhou. Eu parece-me básico que, depois de lavar bem as mãos, os telemóveis deveriam estar bem longe dali, mas deve ser para, em vez de trabalharem, estarem nas redes sociais.
    – “vocês já estão preparadas?” perguntou a anestesista que já deveria ter uns 60 anos. Perante um “sim”:
    – “é que não parece nada”. (toma e embrulha uma pissada)

    Por último, já no quarto aparece-me uma médica qualquer, que nunca tinha visto mais gorda, e vem-me falar da alta e das recomendações do pós-operatório, e eu indago sobre a “baixa médica”.
    – “Ai você vai precisar de baixa-médica?”
    Como não posso conduzir durante 3 semanas nem fazer esforços durante um mês, não achei que ela pensasse que eu estivesse em condições de ir trabalhar hoje de tarde, mas se não foi isso, então que seria? É que… Há já uns 15 anos, no São João, outra médica perguntou-me:
    – “você droga-se”?
    Talvez esta médica de hoje tenha pensado que eu ganharia a vida a arrumar carros para não precisar de baixa médica.

    Tantos anos a estudar e tão pouca sensibilidade.

    • Paulo Marques says:

      Não lhes pagam para isso, pagam-lhes para despachar, a humanidade vai desaparecendo – o resto da classe, a começar pela ordem, dá uma ajuda ao processo.

    • Não me admira nada o que me contas porque aqui em Viseu reparei que o pessoal da reanimação tinha os mesmos comportamentos. Mal saíam da dita sala, era vê-los a dispersar de telemóvel na mão enquanto o último a sair ficava a dar as indispensáveis informações aos acompanhantes das vítimas.
      Por acaso neste caso, exceptuando os episódios relatados, o tratamento foi atencioso e delicado. Tive sorte desta vez. Na primeira vez em que tive de fazer este procedimento fui tratado como um autêntico animal por uma médica. Ela não me poupou nadinha. Apertou a nádega com tal voracidade à procura de pus que acabou por me pisar a zona tão irremediavelmente que acabei 3 dias sem me poder sentar ou deitar de barriga para cima. Este médico foi excepcional nessa parte e foi eficaz porque tratou da coisa e ainda me marcou a consulta externa para este mês para começarmos a estudar a remoção do quisto. Já ando nisto há sensivelmente dois anos, o que me leva a crer que as listas de espera existem efectivamente e só são torneadas por casos de excepcional gravidade ou por comportamento discricionário dos médicos que observam.

  4. Está bonita a festa pá !!!

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