Assalto ao Castelo – Reportagem SIC sobre o colapso do BES e o papel do BdP


A SIC teve acesso a documentos vindos do “Castelo”, metáfora visual para o Banco de Portugal (BdP). Todos com o selo de confidencial, vindos directamente do departamento mais sensível do BdP, a Supervisão Micro-Prudencial.

Ao longo da reportagem, é explicado, brevemente, o passado do BES, bem como a constante promiscuidade entre o poder político e o banco. Define-se o que é a idoneidade dos banqueiros e os poderes que o BdP tem para a remover, assim implicando a demissão dos cargos.

BES - ligação política (clicar para ampliar)

BES – (alguma da) ligação política

Num desses documentos confidenciais, os técnicos do BdP afirmavam que uma “actuação tempestiva” poderia vir a ser necessária. Vários factos são apresentados para consubstanciar uma coisa simples: O Governador do BdP, Carlos Costa, soube dos riscos inerentes ao GES pelo menos nove meses antes da resolução do BES mas optou por não agir.

A explicação de Carlos Costa, dada na  Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES (CPI BES), é que nada poderia ter feito:

No final de 2013, o BdP não dispunha de factos demonstrados que dentro do quadro jurídico então aplicável permitissem abrir um processo formal de reavaliação dos membros do órgão de administração do BES, em especial do presidente da sua comissão executiva. [Carlos Costa, CPI BES]

Justifica-se com base em pareceres de dois juristas conimbricenses. Acontece que um deles, Pedro Maia, acabou em confronto com Carlos Costa, afirmando que o seu parecer apontava diametralmente noutro sentido. Segundo ele, o Governador do BdP tem todos os poderes para remover a idoneidade a um banqueiro. Esta mesma posição é a defendida pelos técnicos do BdP.

Na reportagem afirma-se, categoricamente, que os técnicos do BdP tinham toda a informação sobre o estado do BES pelo menos 9 meses antes do colapso. E que nada fizeram porque não tiveram coragem para isso. A nota informativa que a SIC revelou tinha sido entregue ao vice-governador com o pelouro da supervisão, Pedro Duarte Neves, em Novembro de 2013, a 9 meses da derrocada.

Sem o dizer, o documentário diz que Carlos Costa mentiu na CPI BES:

Na Comissão Parlamentar de Inquérito ao BES, Carlos Costa omite, pura e simplesmente, as conclusões da nota informativa a que tivemos acesso. [Reportagem SIC]

Pedro Coelho, jornalista da SIC, afirma que Carlos Costa foi à CPI BES omitir documentos aos deputados (vídeo, ao minuto 8:30).

Por fim, a reportagem da SIC revela um terceiro documento. Uma síntese concluída em Janeiro de 2013, da autoria do BPI, afirmando que o GES estava falido desde 2011, com uma dívida de 6 mil milhões de euros. Se ainda não o sabia, Carlos Costa ficou a saber.

Episódio 1

Episódio 2

  • A questão do BdP ter ignorado os relatórios sobre o BES
  • Os lesados do BES
  • A ligação BES / Montepio / BANIF
  • A Herdade da Comporta e a aposta do Governo num grupo que já se sabia que estava falido
    2017-03-02-grande-reportagem-sic_-assalto-ao-castelo-episodio-2
Episódio 3

  • A filial do BES no Dubai.
  • O escândalo que Carlos Costa conhecia ao pormenor.
Sinopse dos episódios:

Reportagem de Pedro Coelho, com imagem de José Silva com Luís Pinto e 4KFly. Edição de Imagem de Rui Berton, produção editorial de Diana Matias, grafismo de César Ribeiro, Luís Bispo e Sérgio Maduro.

  • Episódio 1:
    Que papel teve afinal o Banco de Portugal no caso BES? O regulador sabia e não agiu a tempo? O poder de Ricardo Salgado terá ofuscado a actuação da supervisão? O Banco de Portugal omitiu informações aos deputados da Comissão de Inquérito ao BES? Quatro perguntas a que os três episódios da Grande Reportagem da SIC tentarão dar resposta. Aqui revelamos dois documentos que começam a levantar o véu sobre os segredos do Banco de Portugal.
  • Episódio 2:
    No segundo episódio da Grande Reportagem “”Assalto ao Castelo”, revelamos um relatório do BPI que esteve, até hoje, na penumbra. Carlos Costa recebeu-o em 2013 e despachou-o para o seu vice a 1 de Agosto de 2013 que, por sua vez, o despachou para o departamento de supervisão nesse mesmo dia. Nesse relatório, o BPI reúne documentação sobre o estado das finanças do GES. De acordo com esses dados, o grupo de Ricardo Salgado estava falido desde 2011. O que fez o Banco de Portugal? É a pergunta que se impõe.
  • Episódio 3:
    No terceiro e último episódio da Grande Reportagem “Assalto ao Castelo”, viajamos até ao Dubai e mergulhamos numa geografia que ainda não integrava o mapa do maior escândalo financeiro que assolou Portugal. O centro da história é a filial do BES no Dubai. Um escândalo dentro do escândalo que Carlos Costa conhecia ao pormenor. A história começa com um famoso treinador de futebol.
 Leituras e vídeos:

Comments

  1. Paulo Marques says:

    A única novidade são os documentos internos do BP, tudo o resto já tinha sido percebido na comissão de inquérito. O PSD continua a dizer que Carlos Costa está bem onde está, porque foi o único que agiu contra o BES…

    • Sim, o resto já se sabia. Mas estes novos documentos são muito significativos. Demonstram que houve inacção intencional. E que o governador omitiu factos na CPI. Há muitas ilações políticas que daqui resultam.

  2. Ana Moreno says:

    Muito obrigada por este informativo post, Jorge!

  3. Ana Moreno says:

    “Mas sabe o que é que é grave? (…) É nós cidadãos aceitarmos que um indivíduo naquela posição diga que não sabia e continuar lá. O que é grave é o nosso silêncio de cumplicidade.”
    Sábias palavras, independentemente de quem as diz (não conheço). Porque nós cidadãos andamos a dormir na forma, desculpando-nos com toda a sorte de afazeres e impedimentos, produzindo comentários inúteis, incapazes de algo fazermos para quebrar o “nosso silêncio de cumplicidade”.

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Cara Ana Moreno.
      A situação de completo comprometimento entre políticos e a dita “Alta Finança”, com o apoio da dita Justiça, só nos permite chorar entre duas eleições. Longe vai o tempo do PREC, mas o que me parece é que isto está a precisar de uma fortíssima vassourada e em vez de pormos os tantos milhares de milhões nos Paraísos Fiscais, melhor seria arrebanhar essa cambada de figurões, corruptos e criminosos e mandá-los, a eles, para os referidos paraísos e limpar Portugal de vez.

      O problema, insisto, está num povo que há quarenta anos escolhe entre a sertã e o frigorífico para ser governado. São mais de 40 anos de desmandos a que a maioria deste povo responde ou com voto nuns ou com voto noutros, optando sempre pelo mal menor, que é também o que dá mais jeito.
      O povo gosta destes “espertalhaços”. Desde D. Manuel I que Portugal tem vindo a ser gerido por pessoas que, na sua maioria esmagadora servem-se e nunca servem.
      A situação actual, a da existência de uma corrente mais à esquerda que, algum modo, vai pondo água na fervura e só pode ajudar.
      Contudo, o que estamos presentemente a viver é o resultado de quarenta anos onde o direito ao contraditório foi alijado e em que os fascistas, depois de uma breve passagem pelo silêncio, apareceram como patriotas e salvadores da Pátria e do outro lado, lembrando ao povinho os malefícios dos maquiavélicos esquerdistas comedores de criancinhas vivas ao pequeno almoço.

      Este é, em suma, o resultado dos fascistas se terem metamorfoseado, sem contudo perderem os chavões e métodos de trabalho dos salazaristas.

      • Ana Moreno says:

        Caro Ernesto, obrigada pela informativa retrospectiva, mas eu falo precisamente do que está entre as duas eleições: a falta de participação cidadã.
        “O problema, insisto, está num povo que há quarenta anos escolhe entre a sertã e o frigorífico para ser governado.” Não, não é (só) esse o problema. O problema é a falta de empenhamento em causas de cidadania, é o trabalho de FAZER algo em prol dos nossos direitos. Há muitas formas de o fazer, mas a maioria não faz nenhuma delas. Em Portugal, já pela irracional e profunda aversão à organização e à decorrente incapacidade de a praticar. Já que não se aprende nas famílias que só conjuntamente podemos defender os nossos direitos e os dos nossos filhos, era colocar essa disciplina nas escolas.

        • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

          O problema é o Sistema, sem dúvida, mas quem o elege, somos todos nós. Uma das vantagens que hoje temos, é o acesso à informação, dado os inúmeros meios de que dispomos. E, como sabe, essa atitude de aproximação a uma informação multifacetada, não é executada de um modo racional por todas pessoas.
          Quando os meios de comunicação mais lidos em Portugal são os três jornais desportivos e os canais mais vistos são a TVI e o CM, ficamos conversados.
          Não basta haver os meios. Tem que haver vontade e o problema, quanto a mim está nisso mesmo. As pessoas acomodaram-se de um modo estupidamente burguês e deixam “correr o marfim”. É mais importante o fora de jogo que dá origem a múltiplas formas de protesto que a vergonha dos fundos desviados para Paraísos fiscais. No caso da bola, põem-se representantes de todos os clubes e entretém-se o pessoal. No caso do desvio de fundos, põe-se a gente do costume a falar e a repetirem o chocalho que vimos ouvindo há quarenta anos. O contraditório, não existe e tenho a certeza que isso “lhes” não interessa.
          A motivação para a participação do cidadão, que muito bem refere, deveria ser uma tarefa dos Governos.Governar é exactamente isso: é fazer participar. Não me parece que quem nos governa esteja interessado nisso, embora uma disciplina na Escola, sem dúvida que teria todo o interesse.
          Mas porque se não aprende nas Famílias?
          E não são os membros destas Famílias que votam?
          Não há alternativa? Há que obrigá-los a criá-la. No dia em que 90% dos votos forem brancos ou nulos, a cegueira deles passará. Há alternativa que, no mínimo é democraticamente dizer que a classe política na sua quase totalidade, não nos serve.

  4. Jose Oliveira says:

    Caro Ernesto
    Compreendo o seu comentário, mas culpar o povo não me parece sensato, até porque nunca houve grandes hipóteses de escolha. O sistema dito democrático está completamente armadilhado, independentemente das supostas escolhas. Claro que tb defendo a captura das corjas de bandidos, mas isso pouco adianta, pois logo outros mais refinados os irão substituir.
    A questão está, penso eu, no espartilho institucional onde estamos agrilhoados. Dentro dele, não há muito por onde esticar. Ou nós lhe damos a volta ou ele nos esmaga. O capitalismo selvagem está a atingir os seus próprios limites e há que trabalhar por alternativas sérias. O sistema tal como está só pode precipitar-nos no abismo, mas continua a passar nos media apenas a situação mainstream, como se não houvesse mais nada. Andam a ludibriar-nos. Vamos deixar????
    Não esbanjámos….Não pagamos!!!!!!!!!

    • Ernesto Martins Vaz Ribeiro says:

      Não há hipóteses de escolha?
      Haver há, mas não me parece que as pessoas sejam suficientemente corajosas. Elas querem um Chefe, querem quem mande, mais não seja para poder depois dizer mal, uma característica do nosso povo.
      Como atrás disse, quando 90% dos votos forem brancos ou nulos, verá a classe política a fazer marcha-atrás.
      O Sistema actual está armadilhado, tem toda a razão. Mas quem o armadilha são pessoas que directamente ou indirectamente os votos lá vão colocando e mantendo há quase meio século.
      Já tivemos um irresponsável presidente que veio para a TV dizer que o português vivia há muitos anos acima das suas possibilidades e uns tempos depois dizia, com aquela cara de pau característica, que os mais de 10.000 euros que ganhava por mês lhe não chegavam para levar a vida.
      E este irresponsável ser, teve quatro maiorias absolutas, duas como PM e duas como presidente. Quem lhas deu?

      Quanto ao não pagamos, eu bem queria (diria, todos bem queríamos), mas eles já vêm directamente aos nossos bolsos, enquanto fecham os olhos para outras vigarices. Isto, meu caro José Oliveira, já lá não vai com palavras. A corda está muito esticada e não é só um fenómeno português. O capitalismo selvagem tem os dias contados, passando agora pela fase de se agarrar à tábua … até um dia. E estes movimentos só precisam de um detonador, porque o resto da máquina explosiva já está montada.
      Cumprimentos

  5. “A decisão do governo foi já com conhecimento do relatório da Comissão de Inquérito” – António Leitão Amaro, deputado do PSD, SIC, 3 de Março de 2017

    “Os documentos” referidos na pergunta da jornalista são os que foram revelados pela reportagem SIC “Assalto ao Castelo”.

    Apesar do deputado não responder à questão da jornalista, esta posição do PSD tem o seu interesse e recoloca a questão. Sabendo o que já se sabia depois da CPI BES, porque é que Carlos Costa foi reconduzido?

  6. Os culpados pelo descalabro do BES são dos seus gestores, unica e exclusivamente. Temos os ajudantes : 1-os eleitores que banca rota atras de banca rota votaram assim como vimos;2 os escribas, tudologos, economistas, peixotos, abrantes, camoes e porcos semelhantes que pintam e escondem a verdade porque há interesse por tras (mas claro a culpa é só de quem se deixa convencer) 3 os governates que prestaram homenagem o canalha DTT nomeando trinta ministros por pedido do DDT., governo atras de governo. Onde estaráo os acusadores que defendiam tanto tempo que o P.Coelho foi um malandro e que a culpa do colapso do BES era dele ? deviam ter vergonha na cara e mostrarem agora porquê e como ele devia ter apoiado o DDT.
    Os cidadãos , mais os sujeitos passivos( os que pagam o regabofe) devem tirar a lição de passarem a dar mais importancia em perceberos facto, reais,concretos, ouvirem as opiniões dos que escrevem o que não gostam na maioria das vezes, em vez de afagarem os egos com partidarismos tolos e deixarem de escutarem quem ataca pessoas, caracteres em vez de contestarem os factos e as ideias em si. Revejam os coentarios que fizeram e apoiaram no passado contra quem vos alertou para muitas das maningancias que nos levaram as tres banca rotas e ao que vammos ter que pagar na CGD, BES, PPPś e reformas dos cargos politicos.

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  1. […] de  despercebido, ao fazer de conta que não percebeu que os documentos da reportagem “Assalto ao Castelo” trazem para a ordem do dia uma questão que tinha ficado por responder: Porque é que o […]

  2. […] Carlos Costa deu uma entrevista sobre o que podia ter, ou não ter, feito quanto ao BES. Enfim, é o rescaldo da reportagem da SIC  “Assalto ao Castelo“. […]

  3. […] governador do Banco de Portugal (BdP) que se ouvem à esquerda, agravadas pela reportagem da SIC, Assalto ao Castelo, que veio comprovar factualmente que Carlos Costa foi negligente e irresponsável no que à […]

  4. […] mais violento contra o Constitucional durante a anterior governação. Como se o Banco de Portugal, que acumula decisões danosas e negligentes, estivesse imune à contestação. Como se o CFP, por ser independente, não pudesse ser alvo de […]

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