Computemos


Fartos de estar no fim da cadeia de culpados, decidiram inventar uma máquina a que pudessem atribuir, também eles, culpa. Estava inventado o computador-máquina.

Hoje, pelas notícias e pelos debates, ouviu-se uma expressão de que já tínhamos uma ternurenta saudade: “erro de computador”. Ora, o caso merece aprofundamento sério.

Noutros tempos, havia algum sentido nesta noção. Acontece que a palavra computador está dicionarizada muito antes de existirem as máquinas a que damos hoje esse nome. Computador era a pessoa que computava, não o aparelho. Ora, e o que faz uma pessoa que computa? Diferentemente do que alguns espíritos mais sórdidos e malévolos estão já a congeminar, computar significa calcular. O verbo existe e, sem surpresa, tem origem no latim computare, fazer cálculos. Eu computo, tu computas, ele computa…Honi soit qui mal y pense.

Além de qualquer acepção menos própria, retiremos daqui, também, a abordagem futebolística ao modo daquele rapaz que foi jogador e é agora treinador e, nessa condição, caracteriza a sua profissão como a de treina-a-dor. Esse tipo de bizarrias levavam-nos para terrenos pouco edificantes. Assim, podemos admitir que o nosso antigo computador humano podia, ocasionalmente, enganar-se, já que, bem o sabemos, errare humanum est. Os humanos, pois, erram – excepto o prof. Cavaco Silva, claro, mas esse também não é garantido que seja humano.

A dada altura os homens-computadores, quiçá fartos de serem acusados de tudo o que corre mal, de todos os disparates alheios – terá nascido, nesses tempos antigos, a expressão “erro de computador” – fartos de estar no fim da cadeia de culpados, decidiram inventar uma máquina a que pudessem atribuir, também eles, culpa. E assim foi. Estava inventado o computador-máquina. O problema é que, habituados a fazer cálculos e a percorrer os complicados labirintos da matemática, os criadores excederam-se nos seus esforços, obtendo tal sucesso, atingindo tais perfeições, que acabaram por ser fintados pela criatura – o que não é novo, a Jeová aconteceu o mesmo. É que o objecto não errava, logo, não podia ser acusado. Sendo absolutamente rigoroso nos resultados, o objecto era, assim, absolutamente estúpido. É que errar – errare – não é só, como pensa o senso comum, cometer lapsos, fazer o que não se deve, pecar, fazer mal. Errar é, sobretudo, ensaiar, percorrer caminhos, corrigir trajectos, aventurar-se. Avança-se por ensaios e erros. Na ciência como na vida. Errare humanum est é o maior louvor já feito à condição humana.

Ora, os computadores do nosso tempo, quanto mais perfeitos são, menos erram. Não são, pois, adequados à bíblica condição de bode expiatório. Há muito que não há essa velharia de “erro de computador”. Nem um secretário de estado, nem um ministro, nem mesmo uma divindade pode safar-se com tal desculpa. Claro que inventaram sucedâneos – “desadequação de software”, “lapso de sistema”, “falha informática” – mas estão longe de convencer, como acontece com todos os sucedâneos e, além do mais, desloca a culpa para o escorregadio “factor humano”.

Como deve comportar-se, pois, uma pessoa decente ao protagonizar situações que desafiam explicação, convocam apuramento de causas, de culpas? É simples e está descoberto há milénios: assumem-se responsabilidades e enfrentam-se consequências.

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