Pão e Rosas


Um texto de João José Cardoso, publicado, no Endrominus, no dia 8 de Março de 2007.

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(imagem daqui)

O Dia Internacional da Mulher foi estabelecido a partir da data de uma greve de operárias nova iorquinas, em 8 de Março de 1857. Ou talvez não. Rezam algumas crónicas que patrões e polícias trancaram as mulheres dentro da fábrica, lançaram-lhe fogo, e 129 morreram carbonizadas.

Embora factos como este tenham sucedido mais de uma vez num século XIX liberal, quando os patrões faziam mesmo o que queriam, existe um misto de lenda e história na escolha da data.

Prefiro outra lenda, a do Pão e das Rosas, por vezes misturada com as do 8 de Março, que tem origem num poema com o mesmo nome da autoria de James Oppenheim, publicado em Dezembro de 1911, e oferecido às “mulheres do Oeste”. Está geralmente associado a uma greve do sector têxtil em Lawrence, Massachusetts, em Janeiro-Março de 1912, e que ficou conhecida pela Greve das Rosas e do Pão. A greve de Lawrence, que uniu dezenas de comunidades imigrantes foi, em grande parte, conduzida por mulheres. Muitos afirmam que, durante a greve, algumas das mulheres transportavam um cartaz que dizia Queremos pão mas também queremos rosas! Não existem provas fiáveis que o confirmem, e esta afirmação foi rejeitada por alguns veteranos da greve de Lawrence, provavelmente homens, está-se mesmo a ver.

E gosto particularmente deste provável mito por via do poema, fabulosamente cantado por Judy Collins, num álbum de 1976 com o mesmo nome. Existem outras versões, claramente inferiores.

Misturei 20 minutos com algumas das vozes femininas que mais gosto, porque além de pão e de rosas, hoje é uma bom dia para lhes dar, a elas, música e versos.

É mesmo o único dia do ano em que podemos oferecer seja o que for a todas as mulheres e nenhuma fica ciumenta.

Pão e Rosas

Enquanto marchamos, marchamos, na beleza do dia,
Um milhão de cozinhas negras, um milhar de moinhos cinzentos,
São tocados por toda a luz revelada por um sol repentino
Porque as pessoas nos ouvem cantar: Pão e Rosas! Pão e Rosas!

Enquanto marchamos, marchamos, lutamos também pelos homens,
Porque eles são as mulheres e são as crianças e são os nossos filhos outra vez
As nossas vidas não devem ser suadas desde o nascimento até ao fim
Os corações morrem de fome como os corpos; dai-nos pão, mas dai-nos rosas

Enquanto marchamos, marchamos, inúmeras mulheres morrem
Gritam através das nossas canções, o seu antigo chamamento pelo pão
É a pequena arte e amor e beleza que os seus espíritos macerados conhecem
Sim, é pelo pão que lutamos, mas lutamos igualmente pelas rosas

Enquanto marchamos, marchamos, trazemos os grandes dias,
O erguer das mulheres significa o erguer da raça.
Não mais o moinho e o tensor, os dez que labutam por um que repousa
Mas uma partilha das glórias da vida: pão e rosas, pão e rosas.

As nossas vidas não devem ser suadas desde o nascimento até ao fim
Os corações morrem de fome como os corpos; dai-nos pão, mas dai-nos rosas

James Oppenheim, versão da Elisa

Comments

  1. A.Silva says:

    O dia 8 de Março comemora a data de uma grande manifestação de trabalhadoras têxteis de S. Petersburgo, em 1917, manifestação que reclamava melhores salários e o fim da participação russa na 1ª guerra mundial. Manifestação que foi duramente reprimida pela policia do czar, originando uma tal onda de revoltas por toda a Rússia que passado uma semana o czar era obrigado a abdicar, dando-se inicio a um processo revolucionário que só viria a culminar na grande revolução de Outubro.
    A partir desse ano, o dia 8 de março passou a ser comemorado na União Soviética e pelos comunistas como dia Internacional da mulher. Só muitos anos mais tarde o dia foi adoptado mundialmente, o que levou a uma série de exercícios anticomunistas de invenção de um outro acontecimento para a justificar a origem da data.
    A primeira vez que surgiu a proposta da criação de um Dia Internacional da Mulher, foi em 1910 na 2ª conferência Internacional das mulheres socialistas em Copenhaga, proposta feita por Clara Zetkin e Alexandra Kollontai, revolucionárias ligadas ao movimento comunista.

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