Faz hoje um ano…


Rui Naldinho


Que muitos de nós, já estávamos a contar as horas para vermos sair pela “porta dos fundos” do palácio de Belém, o mais polémico Presidente da República da democracia portuguesa. E não digo o pior, porque esse julgamento será sempre feito pela História e não por um qualquer escriba armado em dono da verdade, que se queira substituir a ela. O enfadado Aníbal Cavaco Silva acabava assim o seu estágio remunerado de político não profissional, depois de vinte e dois anos a bulir em prol do Regime.

O ar que respiramos desde esse dia, parece ter ficado mais Aventar(ado), despoluído, fruto da (des)crispação introduzida na atmosfera politica pelos dons afectuosos do professor Marcelo Rebelo de Sousa.

Como não votei no actual Presidente, sou daqueles que jamais poderá dizer, “eu estou arrependido”. Para mim, Marcelo ainda é o homem da intriga, “que inventava factos políticos como quem constrói castelos de cartas”. O Homem que eu vi nas televisões e ouvi na rádio, por exemplo, na TSF, em meados dos anos 90, a defender a Regionalização, acabando refém do seu partido a fazer campanha contra ela, levando-a em definitivo para as gavetas empoeiradas da Assembleia da República. Marcelo teve a soberana hipótese de andar mais uma década a fazer valer as suas ideias e opiniões nos diversos órgãos de comunicação social, que, sendo simpáticas, brejeiras, e com notável elevação, nem sempre foram coerentes, e nem sempre foram consistentes. Umas vezes dava notas aos governantes, outras explorava-lhes algumas leviandades, e noutras criava cenários políticos. Marcelo era o “argumentista, o realizador e produtor dos seus próprios filmes”. Mas eu, como nunca gostei de jogos viciados à partida, jamais votaria nele, nas circunstâncias em que foi candidato.

Portugal assim o quis, e hoje ele é o nosso Presidente. Basta olharmos para os factos ocorridos após a sua tomada de posse, em especial, a excitação e o bulício que é gerado aquando das suas aparições em público, para se constatar que o país está rendido à sua magistratura de influência. As taxas de popularidade assim o confirmam, se bem que na política, tal como no futebol, e ambas têm muita coisa em comum, passa-se de bestial a besta sem nos darmos conta do tempo.

Marcelo Rebelo de Sousa, ao que se ouve e escreve por aí, terá sido um bom professor. Pelo menos os alunos gostavam dele. Já não é mau! Não sendo um grande criador na área do pensamento jurídico, nem com uma obra vasta em matérias do Direito, como outros, em especial os da Escola Coimbra, é no entanto um exemplo “chapado”, de que para ensinar e ser amado pela classe, para além do Saber, era o seu caso, acima de tudo é necessário ter-se o dom da palavra. Essa simbiose costuma dar bons frutos.

Apesar de ter uma cultura geral vastíssima, por vezes quer demonstrar dominar todos os assuntos, mesmo os que não conhece a fundo, até pela sua trivialidade, entrando por aquilo a que costumamos designar de lugares comuns. Está-lhe no sangue. É um orador que cativa plateias. Só que, aquilo que eu mais valorizo neste homem, é a sua disponibilidade para ouvir e conversar com todos, sem excepção. E isso, no lugar que ele hoje ocupa, faz toda a diferença.

Concordo com a crítica de alguns analistas, no que concerne aos dons de ubiquidade do professor Marcelo. “Per non parlare di tutto”. Só terá a ganhar se for mais recatado e comedido nas palavras. “Nem tanto Acabado Silva, nem tanto Professor Martelo”.

A maioria dos portugueses acha que o Presidente tem estado à altura do cargo que exerce, e tem sido um elemento de estabilidade para o país, não criando conflitos institucionais desnecessários com a governação e outros órgãos de soberania, apesar de muito boa gente achar que não deveria ser assim. Nós até sabemos quem eles são. Os descontentes pela forma como ele tem conduzido o seu mandato, insinuam uma excessiva colagem entre a função presidencial e o governo. Por acaso, muitos desses, são os mesmos que relativamente a Cavaco Silva não se pouparam a elogiá-lo, mesmo quando confrontados com os desvios à Constituição da República do anterior Presidente. Coitados, contradições da vida!

Marcelo Rebelo de Sousa afirmou por diversas vezes ainda durante a campanha eleitoral que, caso fosse eleito pelos portugueses, ele contribuiria para aliviar tensões criando pontes entre os partidos, e entre estes e a sociedade civil. Acredito nas suas palavras, mas sempre achei essa promessa a mais difícil de ele alcançar, por razões óbvias.

A conjuntura económica e social não lhe permitirá por agora esse tipo de veleidades. Perante a crise do euro e das dívidas soberanas, e as incertezas políticas eleitorais no centro da Europa, tudo se pode esboroar em semanas. Mas a razão maior para que tudo se torne ainda mais difícil e penoso para o Presidente, é a enorme raiva que a direita tem demonstrado, ao não perceber que o seu jogo ardilosamente montado para as eleições de 2015, acabou por sair derrotado. E que a sua actual estratégia como Oposição é a demonstração cabal desse azedume doentio, que tarda em curar-se. Os partidos da direita têm falhado sistematicamente na sua acção, com a exploração de casos menores, que em nada abonam a favor da sua credibilidade, em vez de propor algo de concreto que nos faça crer de novo, que não levaremos com a mesma dose do passado.

A tarefa mais importante de Marcelo no presente é fazer com que a Oposição perceba, que sem uma alternativa credível, ele jamais correrá o risco de dissolver a Assembleia da República e convocar novas eleições, para ficar tudo na mesma. Até porque, caso isso aconteça, nas actuais circunstâncias, desfeito o papão da “ingovernabilidade à esquerda”, um acordo pré-eleitoral alargado dos actuais partidos que sustentam a Geringonça, daria a possibilidade de colocar os partidos da direita em pior situação do que estão no presente. E ele próprio, como Presidente ficaria condicionado daí para a frente.

Vamos ver o que o futuro nos reserva, de Marcelo. Eu estarei na expectativa, e pronto a penitenciar-me pelas minhas escolhas erradas. Não tenho as qualidades de infalibilidade do Dr. Cavaco Silva. Engano-me muitas vezes, até a escrever, e levarei muitas dúvidas comigo para a cova.

Comments

  1. Atento/Sempre says:

    Não vou cometar o seu artigo, até me parece um artigo democrático e bem analisado, mas gostava de dizer alguma coisa se me fosse permitido. O Professora (Presidente) Marcelo, como sabe, foi levado ao colo pela comunicação social. Se porventura tiver dúvidas, eu não me importa de enviar, até porque tenho bastante consideração por si. Todos os jornais e revistas, e também debates em televisão (aqui ser-me á, um pouco mais complicado porque não tenho espaço em casa para tanta cassetes!)
    Mas antes disso, queria que fica-se bem claro. Que nunca votaria no Marcelo, apesar de o conhecer pessoalmente, mas isso não vem para o caso.
    Mas recordo, que ele já cometeu algumas gafes, e nesta altura, esta a meter-se numa embrulhada, que não sei, se ele vai ficar chamuscado (espero que sim)! Esta última, e de bradar aos céus, quando pede explicações a Universidade, onde estava para ser realizado uma conferência de um outro professor, como é do conhecimento geral, tem alguns tiques a roçar o fascismo. E sabendo, quem organizou a conferência (provavelmente descoche) foi um pequeno grupo de estudantes da extrema-direita (que ainda hoje os seus papás choram pelo ditador salazar),já não vou falar nas flores colocadas em Santa Comba Dão, no mesmo dia que se estava a preparar para realizar a dita conferência). E mais não digo, porque posso ser multado ou preso, e não tenho amigos no governo, aliás nunca tive. Por isso serei sempre um homem Feliz….

  2. A parte do “com uma obra vasta em matérias do Direito, como outros, em especial os da Escola Coimbra” acaba por ser positivo para Marcelo, conhecido o papel da Escola de Coimbra de Direito no estado actual da justiça em Portugal.

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