Paz, pão e facadas no Negrão

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Fotografia: Miguel Baltazar@Record

O ambiente está pesado, para os lados da São Caeteno à Lapa. Das vaias a Elina Fraga aos tiros de metralhadora de Luís Montenegro, passando pelo indignados Hugo Soares, que acusou a actual direcção do partido de “desrespeito institucional grave”, após ter sido excluído da Comissão Política Nacional do PSD, e Paula Teixeira da Cruz, que acusou Rui Rio de traição pela escolha da antiga bastonária para vice-presidente do partido, o PSD é hoje um gigantesco saco de gatos, trancado numa casa a arder.

Ontem assistimos a um novo episódio, que contado parece ficção. Só que não. Fernando Negrão foi a votos, para ocupar o lugar de líder parlamentar do PSD, mas apesar de não ter oposição, conseguiu perder o plebiscito, não indo além dos 39%, o que equivale a dizer que, dos 88 deputados que participaram na votação, apenas 35 deram o seu aval ao candidato único à vaga deixada aberta por Hugo Soares, corrido por Rui Rio dias antes.

A primeira facada em Fernando Negrão acontece logo na votação: apesar de ter recolhido apenas 35 votos, a lista que encabeçou, com a equipa que escolheu e que aceitou trabalhar com ele, contava com 37 elementos, entre direcção de bancada e coordenadores, Desses, pelo menos dois traíram o homem com quem aceitaram trabalhar. Pelo menos dois.

Perante a mediocridade do resultado, Negrão procurou colocar água na fervura, afirmando que encara os 32 votos em branco como “benefício da dúvida” dos deputados para com a sua candidatura. Porém, Paula Teixeira da Cruz não hesitou em sacar da sua navalha para contestar a posição do colega de partido, bem como a legitimidade da  sua eleição, concluindo que “o tempo, esse grande amigo do Homem”, se encarregará de resolver a situação.

A terceira facada, e por esta me fico, foi desferida por Sérgio Azevedo, que para quem não conhece é aquele deputado que partilha informação privilegiada, à qual tem acesso em função de cargos para os quais foi eleito, com comentadores do Benfica, como Pedro Guerra. No Facebook, Sérgio Azevedo não poupou Fernando Negrão:

Não querendo pessoalizar, pq vai muito além disso, teremos que remontar ao plebiscito para a aprovação da C1933, num Estado autoritário e fascizante, para se admitir o “voto branco” como um voto favorável ou, se quisermos, de não rejeição. Para mais, teremos igualmente de contradizer séculos de teoria política, ou no limite pôr em causa, uma certa doutrina, maioritária de resto, que considera o mesmo voto como uma “rejeição ativa”. Mas pior do que isso, aqui sim pessoalizando, são as suspeições de razão ética sobre colegas que supostamente teriam não votado mesmo integrando a lista que se apresentou a sufrágio. Por uma razão simples, sendo o voto secreto isso é impossível de aferir.

Quem gostou da intervenção de Sérgio Azevedo foram Miguel Relvas e André Ventura, dois passistas dos 7 costados, que subscreveram a publicação com um “gosto” Facebookiano. O que não deixa de ser e uma refinada ironia, pelo menos no caso de André Ventura, ícone maior da ala mais à direita do PSD, onde pululam alguns saudosistas do velho e bafiento regime.

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Fernando Negrão afirma não estar à espera de uma rebelião na bancada do PSD mas a rebelião já começou, no momento em que Luís Montenegro subiu ao púlpito do congresso para disparar chumbo grosso sobre Rui Rio. E apesar de ter afirmado que se demitia, caso a tal rebelião se consumasse, é pouco provável que tal aconteça, ou não contasse ele com a bênção do novo líder do partido.

Em todo o caso, e enquanto a rebelião se resumir aos restos do passismo, Negrão pode estar descansado. Não só tem a folha mais limpa que a esmagadora maioria dos críticos, como conta com o apoio de Rui Rio, que não tendo ganho nenhum prémio de popularidade no congresso da passada semana, conta com os votos da maioria dos militantes do partido. Claro que isso não vai chegar para pacificar a ala mais radical do PSD, que não perderá uma oportunidade de arrastar ainda mais o partido para a lama, na esperança de dinamitar a liderança de Rio para regressar ao poder. Talvez seja uma boa oportunidade para se juntarem aos amigos do Observador e fundarem o seu próprio partido, e deixarem de uma vez por todas de se fazerem passar por social-democratas, que não são.

Comments

  1. ZE LOPES says:

    Bem dizia a vidente consultada por Rio antes de se candidatar: “vejo um futuro montenegro, haverá choro e rangel de dentes. Sant’ana t’acuda ó Rio”. Afinal, mais que negro, o futuro era…negrão!

    • Alexandre Barreira says:

      ……como a vidente….vai lavar a “bola de cristal”……ao Rio………..veio um “peixe”….e disse-lhe…….olha “filha”…..não esfregues muito a “bola”….tem cuidado…….porque pode nascer-lhe…..uma Crista…….!!!!!

  2. ZE LOPES says:

    Lá pela S. Caetano vive-se intensamente a Quaresma: depois de um batismo no rio, Negrão terá de carregar a cruz!

    As facadas são parte da Via-Sacra laranja:.

    1ª estação: Negrão tropeça na fraga;
    2ª estação: Negrão sofre a primeira facada;
    3ª estação: Negrãosofre a segunda facada;
    4ª estação: Negrão sofre a terceira facada

    .(to be continued)

  3. Antonio Martinho MarquesAntónio Martinho Marques says:

    Um “negão” contestado por “brancos”… xi, patrão, é racismo, não?…


  4. Um “negão” contestado por “brancos”… xi, patrão, é racismo, não?…

  5. Caco says:

    E assim se vê que com um partido que não se consegue governar a si mesmo como é que alguma vez consegue governar Portugal! Ora se até dentro do próprio partido os actores principais não são de confiança como seria este País ao ser governado pelos mesmos? Infelizmente já temos a experiência.

  6. Rui Naldinho says:

    Quem pensa que o PSD se move dentro das suas estruturas orgânicas e mesmo fora delas, de forma similar à dos outros partidos, engana-se. Aquilo é uma máquina de trucidar militantes e lideranças, caso não obedeçam a alguns dogmas do neo liberalismo. E assim vai continuar até alcançarem o Poder. E aqui o Poder significa dominá-lo a seu belo prazer. O PSD jamais aceitará estar em subalternidade no Poder, mesmo partilhando dele.
    O facto do PSD ter sido sujeito a uma humilhação tremenda nas últimas eleições autárquicas, depois dos incêndios de Junho, alcançando o seu pior resultado eleitoral da curta História da nossa democracia, mostra como tudo aquilo está sob “stress pós traumático”.
    Acresce que o PSD é e sempre foi um partido de interesses económicos, na verdadeira acepção da palavra, onde a ideologia se limita à coreografia. Se é verdade que essa legitimidade não pode ser contestada, o facto é que sempre tentou passar uma imagem falsa da sua génese doutrinária.
    Aquilo não passa de um partido das confederações patronais, onde os seus caciques locais tentam replicar no seu espaço de intervenção, os desígnios do patronato.
    Negrão apesar de tudo é um institucionalista. Um homem que respeita as regras e acha que a lei deve ser cumprida. Nessa medida não serve aos derrotados de Passos. Mas, também por isso mesmo, não deveria aceitar o lugar.

  7. Orlando Sousa says:

    “Negrão apesar de tudo é um institucionalista. Um homem que respeita as regras e acha que a lei deve ser cumprida”
    Foi despedido da PJ por fuga ao segredo de justiça!

  8. Orlando Sousa says:

Trackbacks


  1. […] partidárias e casas a arder à parte, é interessante verificar que alguns membros da direcção deposta estão a fazer com Fernando Negrão algo de muito semelhante àquilo que acusaram Rui Rio de fazer com a escolha de Elina Fraga. A […]

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