Em pouco tempo, vendo os telejornais de hoje ouvi – contei-as! – 14 (catorze) vezes a sibilina referência ao custo do novo tratamento que permite a cura (cura, não alívio, não remissão, cura!) da perigosa hepatite C, no tom de “está bem cura, mas enfim,que diabo, tanto dinheiro…”. São 48.000 euros por uma cura completa, qualquer que seja o estádio da doença. Quase tanto como o preço de cada um dos carros que os ministros, secretários de estado, directores gerais, administradores de EPs, provedores da Santa Casa e outros que tais gostam de trocar com pornográfica frequência.
O Medina Carreira, num dos seus oftálmicos programas, no caso dedicado aos “gastos” – como ele gosta de dizer – com a saúde, abordou a questão com aquela sensibilidade e empatia que lhe são habituais – a ele e às alforrecas. Ao ouvir o convidado declarar o preço da dita cura, todo se abespinhou e, com o seu ar de pitonisa descabelada a quem nasce o sol pelo olho do cu, murmurava: “quarenta e oito mil? tsssch, pode lá ser”, desatando, com o nervozinho do costume, a destilar a habitual peçonha sobre o estado social e quem o inventou.
Esta corja não consegue ter uma atitude decente sem ficar com uma espécie de hesitação, entalada entre a inevitabilidade de fazer o que deve ser feito e a má vontade de levar as coisas até ao fim. Vamos, cambada de invertebrados morais, avancem nem que tenham, para acalmar a raiva que vos dói, de colar na testa dos beneficiários um letreiro que os deixe com má consciência para o resto da vida “eu estou vivo porque gastei 48000 euros do estado”. Ou então recuem, não adquiram o medicamento e tenham a coragem de vir dizer-nos isso na cara. De preferência em directo e ao vivo.

Um grupo de 





Recent Comments