Honra ao João José Cardoso!

Por João Carlos no Bitri.

Um abraço, camarada

Por Francisco Louçã na sua página do FB

Até sempre João José

Por Américo Sarmento Mascarenhas no Tornado

João José Cardoso na Rádio Universidade de Coimbra

Perda

Por Anabela Magalhães

O caminho que temos

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No dia que alguém acima do que compreendemos decidiu que não continuarias mais connosco na forma visível, fiz esta fotografia do vale do Mondego e do seu caminho de ferro. Sendo certo que só ele (Deus e o caminho de ferro) sabe de onde vem e para onde vai (e nós nada sabemos), tem sido para mim o símbolo da maior certeza humana – a incerteza.
Quando te vi há algumas semanas, estava longe de querer pensar que o bicho mau te haveria de prostrar, a ti, homem de lutas. Não fazia sentido isso acontecer.
Nós, os desta casa onde – quis Deus! – nos houvéramos de cruzar faz tempo, ficámos mais pobres sem ti (temos nas pessoas dos nossos maiores tesouros). Talvez quando eu regressar a Portugal me aperceba o que realmente aconteceu, e realmente aconteceu. O João José Cardoso, o Cardoso de Coimbra, o gajo da luta, o Cardoso morreu. Vais-me desculpar, gajo, mas não vou apagar o teu número da minha agenda: temos muita conversa para pôr em dia. Por acaso, agora está a chover.

João José Cardoso

Por António Agostinho no Outra Margem

João

Estava a tomar um café e uma água das pedras com o João, no Santa, há uns anos, quando apareceu o Luís Fernandes, o homem que conta as pequenas e grandes histórias da vida em Coimbra. Sentou-se à mesa connosco e o João começou a contar-lhe que tinha andado no Google Earth a investigar uns telhados e assim tinha chegado à conclusão de que havia um edifício que tinha uma parte oculta, que não se via da rua mas que se percebia, claramente, vista do céu. O Luís duvidava e o João insistia, explicava, detalhava. Tinha estado horas a seguir o rasto de um telhado, de um espaço que não batia bem com o que ele conhecia de calcorrear as ruas. Embrenharam-se os dois numa discussão que se foi tornando mais minuciosa. Era o telhado, era a fachada, era a esquina da rua, era uma pedra cuja história estava mal contada. E o João insistia: “Vai lá ver, vai lá, verás como é assim”. Eu, de outras paragens, não percebi nada a não ser o que tinha de perceber, que os amantes da sua cidade são assim, apaixonados e meticulosos, e o João era um estudioso daquelas paredes, das ruas, das casas, da gente, do que já não se via, do que tinha de ser resgatado para que a sua história não ficasse esquecida. O João amava tanto a cidade e amava tanto o rio. E devia ter tido tempo de escrever aquele livro sobre Coimbra, aquele.

Quem o conhece destas páginas e guarda a imagem de um homem tumultuoso e de língua afiada, não saberá do homem doce e generoso, do homem que cuidava os amigos e os sabia o seu grande legado. Não saberá do homem que amava as pessoas, as coisas e os bichos, os gatos, os peixes, as pedras, os livros, os filmes, o assobio da Lauren, que ia todos os anos fotografar os jacarandás em flor, que chamava às máquinas fotográficas “a minha namorada”, que cultivava jardins aquáticos, espaços de silêncio e liberdade, porque “quando o que anda no líquido nada, flutua e toma ar, ainda mais gosto”. [Read more…]

Como é que foi possível teres ido assim?

JJCPor Marisa Matias*

Por seres assim tão teimoso, por seres assim tão mau feitio, por teres sempre alguma coisa para mandar à cara, por nunca sabermos o que seria essa coisa, por estares sempre, por nos fazeres engolir em seco, por seres tão obstinado, por teres esse sorriso inconfundível e nos arrancares os nossos só quando te apetecia, por usares mais onomatopeias que qualquer pessoa pode admitir numa conversa normal, por teres feito birra a desoras, por teres feito pontes dos estilhaços, por teres feito a prova de que tudo isso era compatível com um coração gigante, uma amizade sentida, uns braços abertos, um mundo por fazer.
Como é que foi possível teres ido assim sem um manifesto, um berro, uma afronta? Não te deixamos ir assim, João José. Não te deixamos ir sem fazer muito barulho, sem amuar, sem embirrar. Por seres assim tão tudo isso, fazes tanta falta a tudo isto. Ia-mo-nos ver agora porra! Há desencontros que se pagam caro. Os últimos dos nossos talvez um dia eu me perdoe. Agora preciso de assumir que foste assim tão discretamente. Sabes bem que isto não tem graça nenhuma. Sabes tão bem. Sabe-nos tão mal não poder estar mais contigo.

* Na sua página do FB

Que nunca descanses em paz, João José Cardoso

Por Rui Rocha no Delito de Opinião.

A um deus desconhecido

Por José Manuel Diogo.

Morte

Por Paulo Guinote.

Um destes dias

“Um destes dias”, foi a data marcada para voltarmos a tomar café.

Assim nos despedimos em Coimbra, à mesa do “Santa Cruz”.

Mas, não aconteceu.

São as acções que não tomamos, que deixam os maiores vazios.

O preço de se tomar as pessoas, as coisas, o tempo, como garantidos.

Restam os dias que ficaram, entre os dias que passaram, registados na memória onde se arquiva e se consulta as boas partilhas.

De tudo quanto poderia escrever, hoje só sou capaz disto.

O resto é memória e vazio, que prefiro guardar para mim.

Um abraço, JJC.

adeus, João. dorme, meu menino.

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o ‘nosso’ Tózé, levou duas flores, João​. a branca era dele, a amarela era minha. não havia girassóis, mas esta gerbera amarela que o António​ levou por mim, porque eras ‘nosso’ é muito melhor que todos os campos de girassóis do mundo. não digo mais nada. obrigada só. e a certeza destas redes de ternura.

(a foto é do Paulo Abrantes​. as mãos do ‘nosso Tózé’. o amor, de todos)

deixa-me ser lamechas mais um bocadinho…. tem paciência…. a luz apagou-se nas janelas e eu ‘meto-me para dentro e fecho-as e dou-te as boas noites. para sempre. dorme, meu menino.

Uma inquietude permanente

Breve biografia do João José Cardoso no Esquerda.net

À tua, JJC!

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JJC, o magnânimo

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Com a partida do JJC, há algo que vos garanto: sempre que escrever no Aventar sobre o Acordo Ortográfico de 1990, não esquecerei o “o povo não come ortografia” com que ele me brindou há dois anos e tal, num daqueles acessos de fúria que só lhe acentuavam o charme — e ao qual retorqui da forma que ele merecia: com carinho e elevação (“O teu mau feitio, JJC, é proverbial. Ainda bem: para todos nós”). No dia em que o Manzarek morreu, o magnânimo JJC decidiu que umas linhas dele tinham sido feitas comigo a 4 mãos. Quando o conheci pessoalmente, em Dezembro do ano passado, durante um dos encontros mais divertidos de que me lembro, gostei tanto dele que prometi uma passagem por Coimbra, durante este ano, para repetir a almoçarada. Lá estaremos, JJC. Lá estaremos.

“Correndo atrás da utopia”

Luís Fernandes, autor do blogue de Coimbra “Questões Nacionais”, despede-se do João José Cardoso.

Devia morrer-se de outra maneira

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(foto do FB do próprio datada de 2 de Outubro de 1978)

Para o José João Cardoso, um poema do José Gomes Ferreira.

Devia morrer-se de outra maneira 

“Devia morrer-se de outra maneira.
Transformarmo-nos em fumo, por exemplo.
Ou em nuvens.

Quando nos sentíssemos cansados,
fartos do mesmo sol, a fingir de novo todas as manhãs,
convocaríamos os amigos mais íntimos com um cartão de convite
para o ritual do Grande Desfazer:
“Fulano de tal comunica a V. Exa. que vai transformar-se
em nuvem hoje às 9horas. Traje de passeio”.

E então, solenemente, com passos de reter tempo,
fatos escuros, olhos de lua de cerimónia,
viríamos todos assistir à despedida.
Apertos de mãos quentes.
Ternura de calafrio.

“Adeus! Adeus!”

E, pouco a pouco, devagarinho, sem sofrimento,
numa lassidão de arrancar raízes…
primeiro, os olhos… em seguida, os lábios…
depois os cabelos… a carne, em vez de apodrecer,
começaria a transfigurar-se em fumo…
tão leve… tão subtil… tão pólen…
como aquela nuvem além vêem?

Nesta tarde de Outono ainda tocada por um vento de lábios azuis…”

 

Que merda, João

Esta merda não se faz, João. Um gajo chega aqui e leva com uma notícia destas. A notícia. Esta. O João é um gajo terrível. Com um feitiozinho de mula, teimoso como eu e mais alguns poucos, e acho que foi por isso que nos demos bem. Eu, pelo menos, gostava dele bem antes de conhecê-lo. Lia o Aventar regularmente, comentava furiosamente muitos posts, muitos dele, e ele respondia, normalmente bruto, deliciosamente bruto, com quem dava prazer discordar.

E as vezes que discordámos. Um dia, juntamente com o Nabais, convidou-me para escrever lá. A mim, que escrevia num bloguezinho de segunda liga com umas 50 visitas por dia. Do que ele se foi lembrar. E disse-lhe, clara e abertamente, como disse ao Nabais, que não sabia se era capaz de escrever num dos blogues mais lidos. Um projecto enorme, com uns bastidores de trabalho que vão muito além do que é publicado. O que é que ele me respondeu? Vai-te foder e escreve.

E eu escrevi. E o João farta-se de reclamar, e eu com ele, seu esquerdista ranhoso, com esse braço de aço, incapaz de torcer, com a mania da perseguição estalinista. Portista, ainda por cima. Que merda, João.

Depois saí mas continuei a reclamar com o João e ele comigo. Continuámos a falar, sempre furiosamente, menos pessoalmente. Mas eu acho que é quando escrevemos que somos mais sinceros. E ele e eu somos uns furiosos por natureza. Era a beleza do João. Fodia tudo directamente, insultava como deve ser. Umas vezes subtilmente e as pessoas não percebiam, depois, outras, directamente. “Filho de 50 putas”. É o preço que paga por ser um gajo inteligente.

O João deu-me a Carla, a Noémia, o Dario, o João e soubesse ele o quanto me deu mais.

Eu acho que nunca lhe disse, mas eu adoro o João. E hei-de lê-lo no Aventar sempre que me apetecer rir e pensar e ficar chateado e discordar furiosamente dele. Deve ser por isso que este texto está escrito meio no passado e meio no presente.

Ele há-de estar a rir-se e a insultar-me também nalgum lugar. De uma forma tão pura como fazemos aqui no norte. E não vieste a Leça, pá. Que merda, João.

uma vez escreveste-me um poema e o que é um deserto?

uma vez escreveste-me um poema. não foi só uma vez. mas dessa vez. escreveste-me um poema. éramos, dizias, entre outras coisas, um desencontro de horários. o que era, ainda é, hoje mais que nunca, absolutamente verdade. mas nesse desencontro de horários que nós fomos, encontrámos sempre o tempo para nos encontrarmos. naquilo que importa. entendeste-me como, acho, até hoje e depois de uma certa morte, mais do que qualquer outra pessoa. sabias quem eu era. sabias. e eu sabia quem tu eras. nunca andámos longe, apesar dos horários. estive muitas vezes contigo, ao longo desta década e meia, desde que nos encontrámos, num horário coincidente, às vezes acontecia, tinha acabado de me acontecer uma coisa que só voltou a acontecer-me agora, contigo. ainda guardo o papelinho onde desenhaste o desencontro, num livrinho que anda sempre comigo. entre outros papeis e desenhos e pétalas e um monte de coisas, joão, com que me fui sempre agarrando à vida. andávamos sempre a dever jantares um ao outro. que pagámos sempre. acho que era a tua vez agora. disseste-me isso, a última vez que falámos ao telefone. mas eu deixo que não me pagues esse jantar. contrariada. mas deixo. será apenas mais um desencontro de horários. a última vez que estivemos juntos, fisicamente, foi dentro de um comboio. menos de uma hora, eu saí em aveiro e tu continuaste até coimbra. menos de uma hora e tu contaste-me coisas que me contavas só a mim e que eu, hoje e antes, guardei sempre. às vezes zangavas-te comigo, porque eu dizia coisas sem pensar. há uns tempos escreveste a ralhar-me. mas eu não me importei. importei e andei a chatear-te para que me desculpasses. sei que tinhas razão. e sei que foi um segundo até dizeres que sou tua amiga. um segundo a sério até dizeres que sou a tua amiga. a quem contavas as coisas. leio por aí que tinhas mau feitio. sei que é verdade. embora comigo, mesmo quando nos zangávamos, tenhas sido sempre ternura. uma vez escreveste-me um poema. não foi só dessa vez. mas dessa vez escreveste-me um poema. éramos, dizias, um desencontro de horários. mas as horas foram sempre certas, menos esta. os copos, os risos, as conversas, os jantares que nos devíamos sempre mutuamente, os ralhetes, as escadas da tua casa, as escadas do quebra costas, a minha varanda, os abraços, as confidências, o sermos – e sabermos isso um do outro – profundamente parvos. as horas foram sempre certas. somos um desencontro de horários. e desta vez é a sério. merda. e não há poesia bastante que apague este desencontro. nem a que (me) escrevias. nem aquele poema que não escreveste para mim, mas que eu adorava. o que é um deserto?

‘O mar ainda acredita nas ondas as areias
desdenham-nas. Amo-te: não diz o homem à
mulher. Acredito, não responde a mulher ao
homem. O mar fica rodeado de maçãs e pergunta:
o que é um deserto?

(João José Cardoso, ‘o que é um deserto?’)

A palavra morte, João, é só uma palavra…

…e foste tu que me disseste há um tempo largo. e havia música. e a palavra morte, João, nunca existiu. é só ir embora por um bocado maior do que o costume.

Recebi a mensagem

Era de manhã e eu ainda não sabia. Dei de caras com aquela parede, nem era suposto eu passar ali. Raios me partam se não é tão teu deixar um recado escrito numa parede.

A gente vê-se por aí…

Fui o responsável pela vinda do João José Cardoso para o Aventar. Deambulava em busca de novos autores quando parei no blogue dele, Vi um homem que viu outro que viu o mar. Não hesitei um minuto, ele demorou pouco a aceitar, a partir daí foi o que toda a gente sabe.
O Aventar já era um blogue conhecido antes dele, por causa da brincadeira com o anúncio a pedir apoiantes de José Sócrates no Público, mas com ele nunca mais foi o mesmo – as audiências dispararam, as iniciativas multiplicaram-se, os links e referências externas tornaram-se recorrentes.
Passámos os primeiros meses em lua-de-mel. Todos os dias, trocávamos ideias sobre o futuro do blogue e aguardávamos pela meia-noite para então festejar um novo sucesso, uma nova meta alcançada. Era isto todos os dias. Conhecemo-nos finalmente em Coimbra no «007» – Licença para Comer, naquele que foi um dos mais participados almoços do Aventar.
Tivemos as nossas quezílias. Zangámo-nos, estivemos meses sem falar, certo dia chamei-lhe de tudo. O João José Cardoso tinha um feitio que por vezes chegava a ser insuportável. De tirar a paciência a qualquer um. Mas era muito melhor do que eu. Dizia as coisas, mas passava-lhe rapidamente.
O respeito mútuo, no entanto, nunca desapareceu. Não posso dizer que fosse uma presença diária na minha vida – via-o duas ou três vezes por ano, não mais do que isso – mas sabia que ele estava ali. E que estaria ali sempre que eu precisasse. O contrário também era verdadeiro. Quantas vezes, depois de semanas sem falarmos, vinha ao meu mail desabafar sobre a sua vida privada.
Vi-o pela última vez, sem o saber, no almoço de Primavera do Aventar. Foi no restaurante da tia Orlanda, ali à beira da Cadeia da Relação. Pouco falámos, a não ser, já depois do almoço, numa esplanada em frente à Estação de S. Bento enquanto ele esperava pelo comboio para regressar a Coimbra. Quis levá-lo à Serrana, confeitaria lindíssima na rua do Loureiro, mas estava fechada. Ficou combinado para uma próxima.
O destino não quis que nos voltássemos a encontrar.
Dói muito perder alguém assim. E o que também dói é perceber tarde demais a falta que alguém nos faz.
A gente vê-se por aí, João José Cardoso. Nem eu nem tu acreditamos nisso, mas assim parece que custa menos.

A um João furacão

Não vou falar de ti na terceira pessoa. Não me mereces isso. Estás e estarás aqui, connosco neste mundo cibernético que tem sido parte da tua vida. É a ti que me dirijo e a ninguém mais.

Raramente conversámos os dois. Para mim, foste sempre uma mente superior. Inibia-me perante ti. Não sabia o que dizer ou escrever. Parecia que, fosse o que fosse que tivesse para dizer, tudo seria demasiado estúpido e fútil comparado com o que te ia na alma.

Comecemos pelo princípio: não gostei de ti antes de te conhecer e não gostei de ti depois de te conhecer. Quer dizer, da primeira vez em que estive contigo, nem deu para te conhecer ou para ter uma opinião sobre ti. Até, se bem me lembro, foste um gajo porreiro. Não nos dava jeito ir a um almoço do Aventar em Coimbra, pelos gastos todos que isso implicaria, e tu ofereceste-te para adiantar o dinheiro do almoço, que te seria restituído logo que possível. Não me senti bem. Nem sequer te conhecia, mas o Ricardo lá me convenceu. Ele, sim, conhecia-te bem. Nesse almoço, eu, ocupada com uma filha pequenina, que até creio ter estado também no teu colo, não conheci praticamente ninguém. Não deu para falar com ninguém. E poucas recordações tenho desse dia. Mas quando tive mais contacto contigo, numa noite em Coimbra, embora tenha gostado da conversa, não gostei de ti. [Read more…]

Postal para ti, João

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(foto do Paulo Abrantes)

Foi-se embora o meu Amigo e eu estou sozinha sem ele. Sozinha daquela solidão desamparada e infinita que vem da falta que inesperadamente nos faz o abraço. Até a pele. As noites sem dormir a conversar há muito tempo. Foi-se embora o meu amigo e eu nao sou capaz de acreditar que uma das pessoas que mais me conhecia os cantos nunca mais vai abraçar-me, ralhar comigo, cantar longamente cantar… Casar os livros dele com os meus. Respirar o mesmo ar. Até a pele. Quem vai agora dizer-me foda-se Elisa és sempre a mesma coisa? Quem vai agora dizer-me que as gajas inteligentes são mesmo muito estúpidas? Quem vai agora dizer-me que a minha memória é a de um suicida? Quem vai agora contar-me as notícias boas? Quem vai agora dizer-me que gostas daquela porque, vê la tu, escreve melhor que eu? Quem vai agora pedir-me que traduza poemas e cenas? Quem vai agora ler-me O Amor em Visita? Quem vai agora amar-me de uma certa maneira, amar-me como se amam os que se reconhecem? Foi-se embora o meu amigo e eu não sei se não lhe diga foda-se João ainda tinha coisas para te dizer. Uma agora mesmo. Ou nao sei se me ponha a chorar. Gosto muito de ti João. Acho que te disse muitas vezes. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste.

(Ao João José Cardoso​, que se precipitou claramente)

(O texto tem frases de O Amor em Visita, de Herberto Helder. Eu e o João sabemos porquê)

Lutaste sempre do outro lado da luta…


Quer eu queira quer não queira
Esta cidade
Há-de ser uma fronteira
E a verdade
Cada vez menos
Cada vez menos
Verdadeira
Quer eu queira
Quer não queira
No meio desta liberdade
Filhos da puta
Sem razão
E sem sentido
No meio da rua
Nua crua e bruta
Eu luto sempre do outro lado da luta
A polícia já tem o meu nome
Minha foto está no ficheiro
Porque eu não me rendo
porque eu não me vendo
Nem por ideais
Nem por dinheiro
E como eu sou e quero ser sempre assim
Um rio que corre sem princípio nem fim
O poder podre dos homens normais
Está a tentar dar cabo de mim
Cabo de mim

JJC

Há pessoas assim, excepcionais. No falar ou no estar ou no saber ou no lutar ou em tudo isso.
Notamos logo à primeira. ‎E nunca mais nos esquecemos delas. Passe o tempo que passar.
Era bom que fossemos todos assim.
Mas não somos.
Mas tu eras. E já cá não estás.

Há‎ tanto tempo que deixei de acreditar. Há tantos anos que sei que não é possível.
Mas é nestes momentos que gostava tanto de ser menino outra vez e voltar a ter fé e crer que ainda vou estar contigo outra vez.
Num sitio cheio de água das pedras e onde o nosso Porto ganha sempre.

Por ti respeito, muito respeito JJC. Grande JJC.

Todos os textos do João José Cardoso

podem ser encontrados aqui, pese embora ter legado mais que apenas palavras a quem com ele se cruzou.

Aventares

 

aventares

Do João José Cardoso.