João

Estava a tomar um café e uma água das pedras com o João, no Santa, há uns anos, quando apareceu o Luís Fernandes, o homem que conta as pequenas e grandes histórias da vida em Coimbra. Sentou-se à mesa connosco e o João começou a contar-lhe que tinha andado no Google Earth a investigar uns telhados e assim tinha chegado à conclusão de que havia um edifício que tinha uma parte oculta, que não se via da rua mas que se percebia, claramente, vista do céu. O Luís duvidava e o João insistia, explicava, detalhava. Tinha estado horas a seguir o rasto de um telhado, de um espaço que não batia bem com o que ele conhecia de calcorrear as ruas. Embrenharam-se os dois numa discussão que se foi tornando mais minuciosa. Era o telhado, era a fachada, era a esquina da rua, era uma pedra cuja história estava mal contada. E o João insistia: “Vai lá ver, vai lá, verás como é assim”. Eu, de outras paragens, não percebi nada a não ser o que tinha de perceber, que os amantes da sua cidade são assim, apaixonados e meticulosos, e o João era um estudioso daquelas paredes, das ruas, das casas, da gente, do que já não se via, do que tinha de ser resgatado para que a sua história não ficasse esquecida. O João amava tanto a cidade e amava tanto o rio. E devia ter tido tempo de escrever aquele livro sobre Coimbra, aquele.

Quem o conhece destas páginas e guarda a imagem de um homem tumultuoso e de língua afiada, não saberá do homem doce e generoso, do homem que cuidava os amigos e os sabia o seu grande legado. Não saberá do homem que amava as pessoas, as coisas e os bichos, os gatos, os peixes, as pedras, os livros, os filmes, o assobio da Lauren, que ia todos os anos fotografar os jacarandás em flor, que chamava às máquinas fotográficas “a minha namorada”, que cultivava jardins aquáticos, espaços de silêncio e liberdade, porque “quando o que anda no líquido nada, flutua e toma ar, ainda mais gosto”.

Se ele respondia a um amigo “vai-te foder” quando ele lhe agradecia algum gesto ou hesitava em aceitar a sua generosidade, não era por rudeza, que diabo, mas porque os duros não choram (nem dançam) e ele não sabia relacionar-se senão em igualdade.

O João, como outros disseram, foi a alma do Aventar e a sua ausência não será nunca preenchida. Apetece-me dizer que deveríamos ter todos os dias um post em branco, uma cadeira vazia, o seu lugar. Quando, há anos, eu queria sair do Aventar, não porque não me sentisse bem tratada pelos colegas (“não digas colegas, pá, colegas são as putas”, desculpa, fugiu-me) mas porque achava que o que escrevia não se enquadrava aqui foi sempre ele a dizer-me que não, que nem pensasse nisso, foi sempre ele a segurar-me. Era um leitor atento, critico, generoso, gostava de descobrir autores e descobriu muitos, desde logo um famoso romancista que agora anda por aí. Tinha tempo, fazia tempo, tinha paciência, curiosidade. Tinha tanto de inquietação como de serenidade. Fazia a guerra a tudo o que entendia ser injusto, mas levava a paz dentro dele.

João, deixa-me ser crente, eu sei que podes estar a fazer aquele sorriso tão suavemente irónico que nem chega a sê-lo, e dizer-te que tenho a certeza de que o Lou foi receber-te. A sério, pá. O Lou também partiu num Outubro e a tua despedida começava assim “Morreu. Foda-se.” e acabava como tinha de acabar, com o “After Hours”. Se há uma porra de um paraíso, uma cena parecida com a vida eterna, e o Lou não veio esperar-te à porta, então o paraíso é uma merda, e isso a gente sabe que não pode ser.

Continuo à espera de que seja mentira, que apareças a dizer “Já um gajo não pode estar uns dias sem net e toda a gente pensa que morremos”. Porque tu não ias morrer tão cedo. Eras novo e tinhas tempo.

Tu, João, tu eras, tu és o gajo que. E nós vamos sabê-lo sempre. E esta casa, que tu construíste, vai ser sempre a tua casa, e o que aqui deixaste não se perderá, porque nós não o permitiremos.

Agora aproveita que subiste a essa cena parecida com céu, onde toca o “Heroin” e o “Perfect Day”, e não precisas da merda do google earth para veres os telhados, como os anjos do Wenders, e continua, pela eternidade fora, a ser o João.

Comments


  1. Adorei. A melhor imagem sentida e escrita sobre o João. De ti não seria de esperar menos. Sinto-me feliz por saber do teu compromisso de prosseguir a obra ‘Aventar’, a que o João dedicou os saberes e a perspectiva de vida colectiva característicos da sua personalidade. Ainda ontem fiz apelo idêntico a dois aventadores. O João estará sempre presente, desse e deste lado. Um abraço de um amigo ainda muito combalido. Não esperava!

  2. Estela Tschernutter says:

    <3

  3. Paula Sofia Luz says:

    Que bonito, Carla. 🙂