A gente vê-se por aí…

Fui o responsável pela vinda do João José Cardoso para o Aventar. Deambulava em busca de novos autores quando parei no blogue dele, Vi um homem que viu outro que viu o mar. Não hesitei um minuto, ele demorou pouco a aceitar, a partir daí foi o que toda a gente sabe.
O Aventar já era um blogue conhecido antes dele, por causa da brincadeira com o anúncio a pedir apoiantes de José Sócrates no Público, mas com ele nunca mais foi o mesmo – as audiências dispararam, as iniciativas multiplicaram-se, os links e referências externas tornaram-se recorrentes.
Passámos os primeiros meses em lua-de-mel. Todos os dias, trocávamos ideias sobre o futuro do blogue e aguardávamos pela meia-noite para então festejar um novo sucesso, uma nova meta alcançada. Era isto todos os dias. Conhecemo-nos finalmente em Coimbra no «007» – Licença para Comer, naquele que foi um dos mais participados almoços do Aventar.
Tivemos as nossas quezílias. Zangámo-nos, estivemos meses sem falar, certo dia chamei-lhe de tudo. O João José Cardoso tinha um feitio que por vezes chegava a ser insuportável. De tirar a paciência a qualquer um. Mas era muito melhor do que eu. Dizia as coisas, mas passava-lhe rapidamente.
O respeito mútuo, no entanto, nunca desapareceu. Não posso dizer que fosse uma presença diária na minha vida – via-o duas ou três vezes por ano, não mais do que isso – mas sabia que ele estava ali. E que estaria ali sempre que eu precisasse. O contrário também era verdadeiro. Quantas vezes, depois de semanas sem falarmos, vinha ao meu mail desabafar sobre a sua vida privada.
Vi-o pela última vez, sem o saber, no almoço de Primavera do Aventar. Foi no restaurante da tia Orlanda, ali à beira da Cadeia da Relação. Pouco falámos, a não ser, já depois do almoço, numa esplanada em frente à Estação de S. Bento enquanto ele esperava pelo comboio para regressar a Coimbra. Quis levá-lo à Serrana, confeitaria lindíssima na rua do Loureiro, mas estava fechada. Ficou combinado para uma próxima.
O destino não quis que nos voltássemos a encontrar.
Dói muito perder alguém assim. E o que também dói é perceber tarde demais a falta que alguém nos faz.
A gente vê-se por aí, João José Cardoso. Nem eu nem tu acreditamos nisso, mas assim parece que custa menos.

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