Viver ou ser vivido?

Estar na fila da caixa de um supermercado e, enquanto se espera a vez, acender um cigarro e começar a fumá-lo, equivale, na percepção subjectiva dos outros, a tirar uma pistola do bolso.
O escândalo e a estupefacção reprovadora são quase imediatos, a censura instantânea e a ordem para colocar fim pronto à subversão são equivalentes às que suscitaria um assalto à mão armada se, no caso do assalto, não houvesse o risco físico evidente, circunstância que desencoraja os mais esclarecidos.
Fumar um cigarro na fila do supermercado, ou na repartição de finanças, ou até no consultório médico, era um gesto socialmente inócuo, ou mesmo prestigiante, até há poucos anos atrás. A transformação que se operou na representação social desse gesto, e na sua percepção subjectiva, foi radical e extremamente rápida. Talvez não haja muitos exemplos de uma tão profunda, ampla e célere modificação no modo como a generalidade das pessoas interpreta um comportamento específico.
Como se fez isto?
Que métodos e meios foram utilizados para introduzir, com tanto sucesso e rapidez, uma modificação tão profunda na avaliação subjectiva de um determinado comportamento, fazendo-o passar da aceitação generalizada para a censura e a repulsa instantâneas?

Epidemiologia da corrupção

Uma das estratégias utilizadas por aqueles que têm na corrupção o seu principal modo de vida é a sua vulgarização social. Espalhando por todo o lado o vírus do crime, infectando as instituições, os órgão do Estado, as empresas e a sociedade em geral, com essa maleita do apodrecimento moral, o corrupto pretende inscrever na ordem da prática e do discurso, no plano da legitimidade tácita, da aceitação pelo uso repetido e prolongado, um comportamento que é recusado e punido pela ordem jurídica e pelo princípio da liberdade e dos bons costumes.

O processo funciona de modo análogo à neurofisiologia da percepção. Se expusermos alguém, durante um longo período de tempo, a cheiros nauseabundos que suscitem inicialmente no organismo uma reacção de repulsa, a dada altura tem início um processo de adaptação neurofisiológica a esses cheiros, a essa agressão, adaptação essa que passa por ensinar ao corpo a reconhecê-los e registá-los como inócuos. Ou seja, a integrá-los no repertório de cheiros aceitáveis sob o princípio da homeostase. A partir daí o seu efeito sensorial será nulo, ter-se-á desenvolvido tolerância, integração, e desaparecido a sensação de náusea. Mas a toxicidade mantém-se inalterada. É isso que se passa com a disseminação da corrupção e a aparente indiferença social que ela suscita.

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