Um sábado qualquer

Eis a CGD do Armando Vara e do Joe Berardo, bem como do saco azul para o fundo de resolução bancária, só para citar dois casos recentes. É muito giro lembrar o buraco da Caixa sem lhe colar os nomes dos malfeitores do CDS, PSD e PS.

Mas há mais na capa de hoje do Público. O inamovível Carlos Costa, esse que Passos reconduziu e que agora defende, dizendo-o alvo de perseguição por parte do Governo, levou mais uma estocada por parte de um colega. O Utra-rico puxou da luva branca e desafiou-o para um duelo para repôr a verdade. Infelizmente, a parte do duelo é inventada e, portanto, não contém com livrarem-se de um deles em breve.

Outra noticia é sobre o caso dos refugiados, que continua a dar que falar. Mas, atenção, estamos a falar do dinheiro que se refugiou no Panamá. [Read more…]

O vício da actualidade

Da comunicação social às conversas de família, da blogoesfera às redes sociais, a actualidade domina. E o seu domínio, ao ritmo avassalador a que se tem acesso à informação, mal permite reflectir.

Até hoje não fui capaz, em consciência, de escrever sobre o PEC por uma razão muito simples: não o li.

Obviamente que o facto de não se conhecer algo de forma directa não é, hoje em dia, impeditivo de se ter opinião. Mais: de se expressar opinião. Lemos algo aqui, algo ali, algo acolá, e pronto: segundo linhas escritas por diversos punhos, aí estamos, também, nós a escrever umas linhas sobre a matéria. Não importa qual.

Com tanta informação com que somos bombardeados dia-a-dia, hora-a-hora, acabamos por começar a ficar como que imunes, a apesar das tragédias, das catástrofes, dos escândalos. Ora carpimos mágoas ora vociferamos. Tal como aquele que insulta repetidamente um árbitro durante um jogo de futebol porque não pode fazer o mesmo ao patrão ou a um qualquer político. Porque na prática, a saturação de informação leva à banalização da opinião e, pior, das razões. Protesta-se, denuncia-se e acusa-se, mas o que resta é o sabor desconcertante de que nada muda. E ninguém pode dizer que é por falta de informação. Pois não é.

Já há algum tempo que tenho vindo a afastar a minha escrita da actualidade. Pelo menos daquela que é tão efémera quando as circunstâncias ou as conjunturas que a produz.

A actualidade vicia, ao ponto de não passarmos sem ela. Duvido seriamente se boa parte da blogoesfera fosse capaz de escrever sem ler, de publicar sem se “actualizar”. Duvido.

Be of good cheer

Estava eu, ontem à noite, sossegadinha na minha cama a ler o Peter Ackroyd que interrompi durante meses em prol de um bem superior quando de repente me deparo com uma passagem excelente. Contava eu à meia noite e meia, o número de hereges cuja morte tinha sido da directa responsabilidade de Thomas More, (foram 7, embora o John Petyt tenha morrido na prisão por isso não sei bem se conta), quando o Ackroyd escreve isto:

“The central theme of Confuntation [with Tyndale] is that there is only one true Church, the visible and orthodox communion of Catholics. Throughout its history its members have been frail or weak, but that in no way affects its authority as Christ´s mystical body upon the Earth. It is the permament and living sign of Christ´s presence, sustained by inherited custom and maintained by traditional knowledge. It is a visible, extensive and palpable community (…). Just as parliament was considering plans for the reformation of abuses among the clergy, More was insisting that the sinfulness or folly of individuals – even the wickedness of a bad Pope – in no way affected the divinely instituted sanctitas of the Catholic Church.”

Ah Thomas é curioso como mesmo no fim do mundo medieval as preocupações eram as mesmas. Sim, vocês viam o Lutero como um anti-cristo e o Tyndale era uma “beste” com uma ” brutyshe bestely mouth” mas não deixa de ser curioso como as coisas funcionam. More era católico e defendia uma fé antiga. Lutero era um homem novo como se chamavam. Tudo apontava para que quem morresse pela fé fosse Lutero e não More.

E enquanto eu reflectia na questão dos padres e Igreja e tudo, aparece-me isto. O novo destrói sempre o velho, já dizia o Beresford no “Felizmente há luar”. Mas nem por isso o velho é esquecido ou diminuído. Ou pelo menos, não o deve ser. E Sir Thomas é o melhor exemplo disso.

Estranhas manobras

O surrealismo lusitano, canta e ri, corre e dança, inebriante, vicioso, contagiante. Num carrossel contínuo que mal permite repor o fôlego. Tudo é informação, tudo é actualidade, e no entanto nada parece verosímil.

Dois episódios de ontem, deste carrossel:

1 – A escova de Francisco Louçã sobre os ombros de José Sócrates, no plenário parlamentar, em híbrido gesto de solidariedade para com o Primeiro-Ministro, acerca das escutas.

Não bate certo, algo está por trás disso. Talvez as presidenciais. Talvez.

2 – O estranho avanço de Paulo Rangel, numa sôfrega candidatura à presidência do PSD, a dividir um eleitorado com Aguiar-Branco, e a solidificar um outro eleitorado, o de Pedro Passos Coelho.

É uma candidatura tardia, incoerente e desleal. Imprópria para quem assumiu o compromisso de que ficaria no Parlamento Europeu, e que as excepcionais razões do actual momento político por ele invocadas, só servem de injusto atestado de incompetência a Aguiar-Branco.

Parece que o Norte continua a assustar as ditas elites do PSD, desde os tempos de Francisco Sá Carneiro.

Pedro Passos Coelho agradece.

Num inebriante começo de mês, estas são apenas duas voltas de um carrossel de estranhas manobras. Tudo à roda, sem tino ou razão.