Acordo Ortográfico: um vídeo penoso de Fernando Cristóvão

Neste vídeo, Fernando Cristóvão, eminente estudioso da língua e da literatura portuguesas, faz uma defesa penosa do chamado acordo ortográfico (AO90).

Um dos primeiros argumentos usados consiste no facto de ser uma lei. Para além de haver muitas dúvidas acerca da legalidade do AO90, as leis podem ser revogadas, a não ser que estejamos diante de algum fenómeno religioso e o dito acordo tenha descido do Monte Sinai pelas mãos de algum iluminado.

Logo a seguir, Fernando Cristóvão relembra que a ortografia e a língua não são a mesma coisa, o que não o impedirá, mais à frente, de afirmar que uma língua não pode ter várias ortografias, sob risco de não resistir, o que, para além de ser contraditório, parece ser desmentido pela História, tendo em conta a resistência da língua, face às diferenças ortográficas.

O cerne da argumentação, no entanto, reside na habitual falácia de que, agora, com o AO90, passa a haver uma ortografia unificada. Esta proposição corresponde, afinal, à banha da cobra apregoada pelos vendedores ambulantes do acordismo, quando se sabe, repita-se, que não há uniformização ortográfica.

Cristóvão, aliás, num momento de comicidade involuntária, tenta demonstrar que, agora, é possível brasileiros e portugueses escreverem da mesma maneira. No seu entusiasmo, afirma que podemos dizer “mi diga” ou “diga-me” ou que podemos pronunciar “vinte e oito” de maneiras diferentes, para, depois, escrevermos da mesma maneira. Depreende-se que, no primeiro caso, Fernando Cristóvão quisesse referir-se ao facto de que a diferença de pronúncia do pronome não implica diferenças ortográficas, o que não é uma conquista do AO90; depois, serve para confirmar que as diferenças sintácticas, entre outras, continuarão a impedir que portugueses e brasileiros escrevam da mesma maneira.

Fernando Cristóvão tem currículo suficiente para ter juízo, entendendo-se, aqui, juízo no sentido de capacidade crítica, mas é impedido pela possessão acordista, efeito secundário de uma espécie de culto religioso a que alguns chamam lusofonia, instituição que merece ser cultivada, mas que foi transformada numa intocável Arca da Aliança, graças a um conluio de interesses políticos, económicos e universitários.

Comments

  1. Armindo de Vasconcelos says:

    Um dos argumentos que já li em defesa do novo AO é que uma língua não pode ser inerte. E eu digo: se fosse inerte, seria permeável a todas as tentações, mais ou menos execráveis. Precisamente porque não é inerte, ela defende-se dos ataques. E este AO é um ataque à língua portuguesa.
    Não vou expandir muitos considerandos. Por opção, vou continuar a escrever “à moda antiga”. O facto de ter estudado latim e grego dá força a essa opção sem que tenha de entrar em dialécticas.
    Mas custa-me ver académicos suportarem conveniências com argumentos pueris. Mais uma razão para, em defesa da língua portuguesa e das suas raízes históricas, dizer “Não!”.

  2. Tiago Caliço says:

    O Acordo Ortográfico é o exemplo acabado da beatice ecuménica da ‘lusofonia’.

    A parte triste é que tanto o Prof Fernando Cristóvão como o Prof Malaca Casteleiro honestamente acreditam nestes disparates. Estão realmente convictos que a) uma aproximação cultural entre Portugal e Brasil é desejável, necessária e “gerível”, de cima para baixo, b) esta é a melhor maneira de o fazer.

    Nunca lhes passou pela cabeça que aproximações ou afastamentos culturais não se ‘acordam’ através de Ministérios. Não lhes ocorre que o Brasil é essencialmnte uma ilha cultural, que pouco ou nenhum interesse tem no que se passa em Portugal. Nem lhes ocorre que, se Portugal quiser tomar a dianteira na ‘promoção e divulgação’ da língua portuguesa, tem que ter o devido cabedal: gente tecnicamente competente a ser formada pelas faculdades de Letras, institutos públicos que contratam gente com competência e têm um plano de intervenção com pés e cabeça e dinheiro para gastar.
    Como não há nada disto, que dá muito trabalho a fazer, ficamos-nos por qualquer coisa que não dá muito dinheiro a implementar, mas muito a ganhar a alguns eleitos: uma ortografia com regras mal amanhadas, que não traz nenhum valor acrescentado à que já se tinha, coxa em pressupostos e objectivos, os quais são no mínimo dúbios.

    Nada disto espanta. O AO90 nasce da mesma maneira que o Nomenclatura Gramatical Portuguesa de 1967, ou a Terminologia Linguística para os Ensinos Básico e Secundário de 2006: há um especialista que tem uma brilhante ideia, e só pode estar certa porque sim. Um decisor político que nem duas linhas leu na vida quer ficar associado a um grande feito que o Senhor Professor lhe apresenta como revolucionário e imaculado (afinal, é um ideia do Senhor Professor). E a ‘obra’ nasce. Em momento algum se considera sequer a possibilidade de ser necessário que a comunidade científica referende, critique, o trabalho. Não. Este catedrático jubilado é que sabe, todos os outros são gente mal-intencionada com ódios de morte que lhes tolhem o discernimento. E há um ministro que quer assinar um despacho que é “cultural” e de qualidade “científica” garantida.

    Nada na forma como o acordo é defendido pelos seus dois principais mentores admira. O Prof. Malaca Casteleiro nunca foi capaz de aceitar uma crítica, uma opinião, de debater uma ideia que fosse. Na melhor das hipóteses aceitaria uma concessão, mas apenas para poupar entraves e maçadas. O conceito de confronto científico ilude-o profundamente.

    A oratória do Prof Fernando Cristóvão também não foge ao estilo da sua persona, com uma mui cristã condescendência para com aqueles que são demasiado pobres de espírito para perceber o que para ele é clarísimo. Este é um homem que quando leccionava a cadeira de Política Linguística num mestrado da Faculdade de Letras passava as primeiras quatro sessóes do semestre a ensinar os alunos a fazerem fichas bibliográficas (em cartolina, claro está) e citações. Para além de uma exaustiva análise do conceito do “homem cordial brasileiro”.

    SIC TRANSIT GLORIA MUNDI

  3. maria celeste ramos says:

    Quem não sabe fazer mais nada faz “rotundas” e se não se esquecer até faz uma “adicional” o AO é uma aberração rotúndica

  4. maria celeste ramos says:

    Talvez queiram também que eu fale “crioulo” – tenho pena de Belmiro que perdeu metade da sua fortuna – em 2011 perderam 17% – eu perdi mais – não perdi – roubaram-me – e agora querem roubar-me a lingua para a qual estudei latim e algo de grego para sber o que e como e porque escrever – as eleições que se lixem ??os linguístas do pró acordo que se lixem” e tenho pena que o aventar escreva já com o OA – ação que me parece mais o nome de peixe do que de acção ou a zona da vaca de onde se tiram “bifes”

  5. Daniel Gonçalves says:

    Não tendo um dom de palavra e a experiência que vejo no artigo do Sr. Tiago Caliço, só tenho a dizer que assino por baixo! Gostei em especial, porque nunca vi escrito, a parte de o Brasil ser uma ilha cultural que realmente não nos afecta no dia a dia. Porquê esta vontade de nos “abrasilharmos?” Será que eles querem-se “aportuguesar?” Claro que não, até que o sujeito português é tratado em anedotas tal como nós fazemos com os alentejanos. Mas há uma diferença em que o alentejano tambem é Português. Cada macaco no seu galho e cada ortografia no seu pais, digo eu.

  6. Ricardo Cerqueira says:

    Mas, na realidade, quantos países da CPLP vão aplicar este acordo “de unificação”?

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  1. […] dando o exemplo das grafias ‘caracteres’ e ‘carateres’, utilizadas por Fernando Cristóvão, um dos negociadores do AO90). Esta situação é inédita (repito) e desaconselhável […]


  2. […] Fernando Cristóvão, Evanildo Bechara e outros apóstolos da religião acordista, contradizendo, aparentemente, Lúcia […]


  3. […] tão fantástico instrumento, iria ficar coberto de edições únicas. Basta lembrar o que disseram Fernando Cristóvão e Evanildo Bechara, entre […]


  4. […] fantástico instrumento, iria ficar coberto de edições únicas. Basta lembrar o que disseram Fernando Cristóvão e Evanildo Bechara, entre outros. A editora Leya é praticante da religião acordista e, depois […]


  5. […] adoptará, a uma só caneta, uma mesma ortografia. A realidade, tresloucada, no entanto, desmente: não há edições únicas, não há edições únicas, não há edições únicas e não haveria edições únicas. Nada […]

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