Convenhamos

Assisto com naturalidade às confrontações de opinião acerca do actual momento do país, em que, invariavelmente, se atribui culpas aos partidos políticos que estiveram no poder. Ainda que concordando acerca de tais culpas, recordo que temos Governos eleitos democraticamente desde 1976, e que a nossa classe política é feita de portugueses: não foi importada doutro país ou continente.

Não há mais Salazares ou Caetanos para deitar as culpas: chegamos ao descalabro por mérito próprio, porque não fomos capazes de melhor. E prova de que enquanto povo não fomos capazes de fazer melhor, é a expressão numérica da dívida privada. A abstenção não fica atrás e a eleição para cargos de poder político de condenados em processos-crime, também não. [Read more…]

a usura dos membros da confissão católica

usura

Usura-pintura a óleo de Van Dyck, Século XVI.

É bem conhecido o texto de Max Weber (Erfurt, 21 de Abril de 1864Munique, 14 de Junho de 1920) sobre A ética protestante e o Espírito do capitalismo, de 1905, resultante do trabalho de campo que Weber fez entre os católicos no sul do rio Elba (Alemanha). Embora de fé agnóstica, toda a sua obra está dedicada à religião. Estimando que a dedicação ao credo e à fé enriquece os protestantes, isto é, os cristãos separados da Igreja Católica Romana no Século XVI.

A sua curiosidade científica levou-o, em 1888, a morar entre católicos alemães, para entender a sua pobreza e comparar essa condição com a dos protestantes, que eram ricos ou tinham uma ética da riqueza.

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Literacia financeira ou a usura explicada às criancinhas

Eu sei que não se deve fazer acompanhar o jantar do visionamento dos noticiários. É indigesto, pouco higiénico, desagradável, em suma. Mas, apesar disso, lá fiquei eu a ver as notícias da noite e foi ainda durante a sopa de favas que apareceu um rapazinho de 8 ou 9 anos, orgulhoso por contar às câmaras o que acabava de aprender no curso que a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) estava a organizar para meninos como ele.

Eu fico sempre comovida com as crianças que dominam a Matemática porque me parecem uma prova irrefutável do avanço da espécie. Vejo-as já como seres do futuro, com capacidades superiores, mais próximas de um patamar de evolução a que aspiramos enquanto seres humanos. Dominar a Matemática não me parece menos notável do que dobrar colheres com o poder da mente, como fazia aquele miúdo careca (Ruca?) que aparecia no Matrix. .

Subi o volume da televisão e fiquei à espera da lição de sapiência do petiz.

– Então e o que é que aprendeste?

– Aprendi que se emprestarmos dinheiro podemos cobrar juros, e no final ganhamos mais do que tínhamos.

A seguir apareceu o representante da SPM, a dizer algo que não ouvi porque ainda estava sob o efeito devastador das palavras da criança. (Dou-me conta agora, e parece-me uma daquelas coincidências que tanto agradam aos adeptos das teorias da conspiração, que SPM representa tanto a Matemática em Portugal como síndroma pré-menstrual. Parece-me bastante adequado).

Depois do choque, olhei com mais atenção para a cena e descobri o logo de uma conhecida entidade bancária que assegurava a acção de esclarecimento, movida pelo nobre propósito de incrementar a “literacia financeira” entre as nossas crianças. E que pode um banco ensinar para além da usura?

Como se não bastassem as más políticas de educação que o sistema público de ensino tem oferecido às nossas crianças, agora são as escolas, com o alto patrocínio de alguns professores de Matemática, que organizam visitas às entidades bancárias para que estas possam formatar tão cedo quanto possível os seus futuros clientes. Para que estes se habituem e vejam como natural, e até desejável do ponto de vista da sustentabilidade do sistema financeiro, que tudo aquilo que vierem a desejar, seja o caprichito de umas férias na Baía, ou um tecto sob o qual se abrigar, custe mais, muito mais do que o que vale. Porque o que conta é que “no final, ganhamos mais do que tínhamos”.

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