Convenhamos

Assisto com naturalidade às confrontações de opinião acerca do actual momento do país, em que, invariavelmente, se atribui culpas aos partidos políticos que estiveram no poder. Ainda que concordando acerca de tais culpas, recordo que temos Governos eleitos democraticamente desde 1976, e que a nossa classe política é feita de portugueses: não foi importada doutro país ou continente.

Não há mais Salazares ou Caetanos para deitar as culpas: chegamos ao descalabro por mérito próprio, porque não fomos capazes de melhor. E prova de que enquanto povo não fomos capazes de fazer melhor, é a expressão numérica da dívida privada. A abstenção não fica atrás e a eleição para cargos de poder político de condenados em processos-crime, também não.

Os Governos sucessivamente eleitos democraticamente que tivemos desde 1976 – principalmente os Governos das épocas do ouro não do Brasil mas da Comunidade Europeia – fizeram com o país aquilo que o povo fez com a família: endividou-a além gerações.

Ser moderno era ter direito à felicidade e comprar as coisas que nos faziam felizes, fosse carro ou colchão magnetizado, era ir de férias para o estrangeiro ou fazer extensões no cabelo. Os velhos que aforravam em ouro as suas poupanças eram jarretas, não percebiam nada de nada. E no entanto é a sua alegada ignorância que permite que hoje ande muita gente a sustentar os resquícios de estilo de vida sofisticado à custa de venderem o ouro herdado dos ditos jarretas nas lojas que compram o precioso metal à grama.

Sejamos capazes de assumir: enquanto povo falhamos redondamente.

Depois, sejamos capazes de perceber que as ilusões que nos foram criadas resultaram durante décadas porque queríamos ser iludidos.

Feita a contrição, aí sim, sejamos, também, capazes de expulsar os vendilhões do Templo que usam e abusam da sua usura gananciosa.

(Publicado a 19.10.2012 no semanário famalicense “Opinião Pública”)

Comments


  1. Nós escolhemos ” livremente”… ou influenciados por quem o poder de influenciar

    Todo o mundo é responsável por beber Coca Cola apesar dos sumos naturais que têm à mão

    a publicidade e o dinheiro … nada têm a ver com isso….

    mas a mim o que me custa é que ao longo da História .. quando acontece uma coisa boa .. foi o Rei, o Presidente, o Partido … quando acontece uma coisa má .. foi o POVO

    É preciso coragem sim senhor

    aqui está um exemplo a seguir..

    http://www.youtube.com/watch?feature=player_embedded&v=WmEHcOc0Sys#!


    • “O movimento Occupy Wall Street teve um apoiante inesperado no protesto global de 15 de Outubro: o sargento dos Marines Shamar Thomas. O militar estava numa rua de Nova Iorque quando viu a polícia bater em manifestantes, não gostou e puxou dos galões à frente de cerca de 30 agentes, que ficaram sem reacção”

      Isto não é uma zona de guerra”, grita Shamar Thomas, a um surpreendido grupo de agentes policiais. O vídeo – que foi publicado no YouTube no domingo e que, em dois dias, já foi visualizado quase meio milhão de vezes – não mostra o que motiva a reacção do marine. Apenas a sua ira crescente e a forma veemente como condena as acções violentas da polícia nova-iorquina.

      “Estas pessoas não estão armadas. Magoá-las não vos fará mais duros”, argumenta. “Se querem lutar, vão para o Iraque e para o Afeganistão. Deixam estas pessoas em paz. São cidadãos norte-americanos. Cidadãos norte-americanos! Cidadãos norte-americanos! Norte-americanos!”

      Shamar Thomas é, ele próprio, um veterano de guerra. Com 24 anos de idade, foi destacado para o Iraque duas vezes, informa a legenda do vídeo. O militar corrobora de viva voz. E acrescenta: a mãe também esteve no Iraque; o pai foi mobilizado para o Afeganistão. A ligação da sua família às Forças Armadas vem, de resto, ainda mais de trás: o avô serviu no Vietname e o bisavô na Segunda Guerra Mundial.

      É este passado que faz o sargento sentir-se autorizado para afrontar os agentes. “Parem de magoar estas pessoas. O que estão a fazer? Fui 14 meses para o Iraque pelo meu povo e vocês chegam aqui e magoam estas pessoas. Elas não têm armas. Elas não têm armas! Porque é que estão a magoá-las? Não faz sentido nenhum”, insurge-se. “Como é que dormem à noite? Não há honra nisto. Não há honra nisto!”

      “É inacreditável que estejam a fazer isto às pessoas”, continua. “Que género de malucos magoam pessoas que não estão protegidas?” E acaba com mais uma pergunta antes de se afastar, desta vez lançada aos agentes vestidos com equipamento anti-motim: “Porque é que andam [equipados] como se estivesse a passar uma guerra? Ninguém tem armas

  2. MAGRIÇO says:

    É sempre reconfortante constatar que ainda há americanos que recusam a formatação!