Literacia financeira ou a usura explicada às criancinhas

Eu sei que não se deve fazer acompanhar o jantar do visionamento dos noticiários. É indigesto, pouco higiénico, desagradável, em suma. Mas, apesar disso, lá fiquei eu a ver as notícias da noite e foi ainda durante a sopa de favas que apareceu um rapazinho de 8 ou 9 anos, orgulhoso por contar às câmaras o que acabava de aprender no curso que a Sociedade Portuguesa de Matemática (SPM) estava a organizar para meninos como ele.

Eu fico sempre comovida com as crianças que dominam a Matemática porque me parecem uma prova irrefutável do avanço da espécie. Vejo-as já como seres do futuro, com capacidades superiores, mais próximas de um patamar de evolução a que aspiramos enquanto seres humanos. Dominar a Matemática não me parece menos notável do que dobrar colheres com o poder da mente, como fazia aquele miúdo careca (Ruca?) que aparecia no Matrix. .

Subi o volume da televisão e fiquei à espera da lição de sapiência do petiz.

– Então e o que é que aprendeste?

– Aprendi que se emprestarmos dinheiro podemos cobrar juros, e no final ganhamos mais do que tínhamos.

A seguir apareceu o representante da SPM, a dizer algo que não ouvi porque ainda estava sob o efeito devastador das palavras da criança. (Dou-me conta agora, e parece-me uma daquelas coincidências que tanto agradam aos adeptos das teorias da conspiração, que SPM representa tanto a Matemática em Portugal como síndroma pré-menstrual. Parece-me bastante adequado).

Depois do choque, olhei com mais atenção para a cena e descobri o logo de uma conhecida entidade bancária que assegurava a acção de esclarecimento, movida pelo nobre propósito de incrementar a “literacia financeira” entre as nossas crianças. E que pode um banco ensinar para além da usura?

Como se não bastassem as más políticas de educação que o sistema público de ensino tem oferecido às nossas crianças, agora são as escolas, com o alto patrocínio de alguns professores de Matemática, que organizam visitas às entidades bancárias para que estas possam formatar tão cedo quanto possível os seus futuros clientes. Para que estes se habituem e vejam como natural, e até desejável do ponto de vista da sustentabilidade do sistema financeiro, que tudo aquilo que vierem a desejar, seja o caprichito de umas férias na Baía, ou um tecto sob o qual se abrigar, custe mais, muito mais do que o que vale. Porque o que conta é que “no final, ganhamos mais do que tínhamos”.

Comments


  1. É garantido que quando o miúdo for mais espigadote vamos ter um homem depressivo ou um ganancioso doentio. É a evolução da espécie. Vamos desenvolver o polegar, perder o dedo pequeno dos pés e aprender a comer dinheiro. Com o patrocínios de entidades bancárias.

  2. Miguel Dias says:

    E que pode um banco ensinar para além da usura?, pergunta a Carla. Ora o que haveria mais para ensinar?Fundamental é que se explique muito bem o que é e como funciona, para que os meninos náo cometam os mesmo erros do papás.

  3. Luis Moreira says:

    E saem de lá a saber que é preciso ter um ar muito importante e sério…

  4. Lima says:

    Infelizmente, exemplos de conúbio da escola com os agentes económicos são um rol imenso. Sem esquecer o relevante papel desempenhado por entidades com fins lucrativos que levam a sério a responsabilidade social, há muito a fazer para dotar a Escola portuguesa (e sobretudo os professores) das condições que lhe permitam ser pedagogicamente inovadora e eficaz sem concessões a interesses económicos. Interesses (e propostas) comerciais fora da escola pública!

  5. Luis Moreira says:

    Lima, tem toda a razão.Há um ambiente parecido com o antes 25 de Abril.As pessoas voltaram a ter medo.Levar alunos a um banco?Eu julgava que iam a museus, zoos, bibliotecas…

  6. carlos fonseca says:

    Estive ausente. Apenas hoje regressei ao blogue.Assisti à transmissão da notícia que relata. Fiquei desapontado com o Nuno Crato da SPM. Estava convencido que ele estaria do outro lado, demonstrando, por exemplo, as dificuldades matemáticas em evidenciar as contas de um agregado familiar de 3 pessoas que vive com 500 euros mensais, em comparação com uma família de número idêntico, cujo pai aufere o rendimento mensal de mais de 35.000 euros – tipo Mira Amaral, por exemplo.

  7. Morg says:

    Gostaria d perguntar s as crianças foram instruidas no sentido d saberem k só os bankos podem emprestar dinheiro a juros, qualquer outra pessoa k o faça comete o crime d agiotagem, tal e qual a D. Branca. gostaria ainda d saber s informaram as crianças de quais os custos e impostos relativos ás transacções d capitais… andamos a formar ou a deformar crianças???

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