Hominídeos somos, Homens nem tanto

Desde há vários anos que eu tenho vindo a expor a ideia de que há na natureza humana, no ser humano, uma espécie de interface, entre a força, digamos, antropocêntrica, a força que o prende e o arrasta para a sua condição meramente biológica, ainda que com direito a uma cúpula ou abóbada espiritual envolvente, uma espécie de pequeno céu, e a força que tende a projectá-lo para a sua dimensão universal, ou seja para um céu de infinito.

 

Sem qualquer tipo de presunção, reconheço todos os dias, na vivência do meu dia-a-dia, que os homens e mulheres, na sua grande maioria, nem sequer vislumbram a hipótese de que haja, para além da sua estreita, primária e escassa visão do mundo e das coisas, uma fronteira para além da qual há outro ser humano, o que pensa, o que sonha, o que procura e o que se aventura na arrojada projecção da mente pelos céus do infinito.

 

Vem isto a propósito, pelo facto de me encontrar no café, a ler “O Espectáculo da Vida” de Richard Dawkins, no meio de uma algazarra copofónica e futebolística, que não me desconcentrando, me dava o gozo espectacular, ainda que amargo, de medir a abissal distância que há entre os seres humanos. Alguém me disse um dia que a distância entre um primata superior e um ser humano primário era menor do que a distância entre um ser humano primário e um ser humano da estatura intelectual de muitos homens. Como tinha entre mãos este maravilhoso livro de Richard Dawkins, lembrei-me disso. Recomendo-o vivamente, a quem quer que sinta a necessidade de saber onde se encontra, o que o traz por cá, até onde chega a capacidade de procura da verdade, e a quem sinta essa necessidade como vital exercício de sobrevivência mental.

 

Comments


  1. Vou ler o livro que recomendas, do Richard Dawkins . Numa perspectiva moral, se é lícito na óptica das ciências do comportamento, aplicar esta perspectiva a outros primatas superiores que não os homens, não tenho dúvidas de que muitos chimpanzés e gorilas são criaturas superiores a alguns homens. No plano da capacidade intelectual, já não sei. Embora as obras de Dian Fossey sobre os gorilas e as de Jane Goodall sobre os chimpanzés nos levem a acreditar que, entre esses nossos maravilhosos primos, há «gente» de uma inteligência que pouco ou nada fica a dever à de alguns homens.


  2. Já agora recomendo, do mesmo autor, o fabuloso “A Desilusão de Deus”.


  3. Uma maravilha!

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