Maria Eugénia González Castillo

Faz um ano escrevia este texto, com outro título. Mas, por causa da indignação familiar e porque o tempo passa num pestanejar, enquanto acontecem vários outros factos, vou reproduzir o texto em honra de uma grande amiga que na madrugada do 7 de Dezembro, ainda nãoFaz um ano, recebia o seu último suspiro. Apesar de eu não ser homem de fé, deve saber, ao pé dos seus pais, que este Dezembro de 2009, um ano depois da sua entrada na eternidade, uma nova sobrinha neta deve nascer em breve. Tenho a premonição, minha querida Amiga, que deve ser a 26 de Dezembro.Lembras quando falaste com a nossa filha Camila no dia do seu matrimónio, em Setembro do ano passado, esse dia que eu levava a filha ao altar, onde esperava Felix Ilsley, excelente genro, congratulaste-a e desejaste para eles muitos descendentes? Bom, essa  tua, como gosto dizer, neta secundária – nunca tiveste filhos, como narro mais em frente, é resultado dos teus bons desejos. Parece-me que o nome será Elisa, apesar dos pais preferirem o nome Rebeca. Maria Eugénia, é a filha deles, apenas temos que aceitar tu, Amanda a tua mãe e o teu pai Raúl, todos vocês juntos nessa eternidade sem tempo, sem portas nem tecto, minutos ou dias, imaterial, onde descansas de tanta agonia. A tua irmã Gloria, mandou celebrar uma missa em Cambridge, a tua sobrinha Paula na Holanda, uma terceira em Portugal, mandada por mim. As tuas amigas e primas em Santiago do Chile, comemoraram com outra celebração de altar e flores na tua campa: como sabes melhor do que eu, o Chile está em Primavera e as flores duma formosura e odor que até da alegria saber desta homenagem.

Permite agora, que rememore o que escrevi faz, dentro de poucas horas, um ano antes. Era assim:

No Chile não acontecem apenas golpes de Estado ou assassinatos de Presidentes Democratas, como foi essa única vez do Presidente Allende. Essa vez que, os que apoiaram a iniciativa, estavam, de imediato, imensamente arrependidos. Como a nossa família toda. No Chile acontecem também iniciativas. Não tinha aviação. Era preciso criar uma Força Aérea. Vários Gerais, Comodoros do Ar como o teu pai e Capitães estavam interessados e solicitou ao Presidente da República desses anos, o Comandante em Chefe das Forças Armadas do Chile, comprar aviões. Havia, ofertas desde a Alemanha. Nos anos 30 do Século passado, o Estado Alemão fabricava imensos aviões, por motivos conhecidos. Três altos oficiais da Força Aérea, o Comandante Basaure, o Comodoro do Ar, Manuel Franke o Capitão de Bandeada Raúl González Nolle foram, juntos para comprar aviões bons e baratos. Capitão de Bandeada – teu pai. Esse Senhor de Senhorio que, anos mais tarde, seria General da Força Aérea do Chile. Se te lembras, ai está o teu pai para te dizer, foi Adido Militar da Força Aérea na Grã-bretanha e nos Estados Unidos; também Ajudante Presidencial pelo ramo da Força Aérea, dos Presidentes Radicais Pedro Aguirre Cerda e Juan António Rios, entre 1935 e 1941,. Com esses aviões, o General González Nolle organizou, com os seus colegas de viagem, a Força Aérea do Chile, ou FACH. As viagens do, em esses tempos Capitão de Bandeada, eram curtos e voltava rapidamente: pelos finais dos anos trinta, a sua mulher, D. Amanda Castillo Serrano de González, sobrinha do herói naval chileno, Ignacio Serrano Pinto, estava grávida, era o primeiro descendente e o jovem capitão queria estar perto da sua mulher para esperar o que no Chile sempre se pensa: um filho do género do pai, esses machismos latinos… Paciência! Connosco foi menina. Para os teus pais, rapariga também: nasceste tu. Mais tarde, a tua irmã, Dona Gloria González Castillo Como tu: muito amada pelos vossos pais, bem criadas, bem-educadas, bem vestidas. Foste filha única durante apenas 10 anos. Natural na família, estudaram no Colégio Francês. A tua família tinha essa dupla ascendência, típica do Chile, comigo, Hispânica-Chilena, convosco, Franco-Chilena. A sua fala com a mãe era em Castelhano, com o seu pai e a mãe do seu pai, Eugénie Nolle de Montjeville, de Paris originalmente, em francês. Passas-te a ser uma rapariga mimada, querida, bem cuidada, acabaste os teus estudos secundários, aprendes-te do pai esse prazer da família de coleccionar mobília e mapas antigos e passas-te a ser uma entendida em colecções, o que permitiu trabalhar nos melhores sítios da Empresa Phillips, Sucursal Santiago, em contacto directo, por causa do bom inglês, com a casa central da Holanda, país onde a família se encontrava. Lembro especialmente esse ano 2000, em Utrecht, para o matrimónio da nossa filha primeira e o baptizado do nosso neto Tomas Mauro Van Emden. Dias lindos para uma senhora que, em pequena, era tímida. Timidez que acabou no seu crescimento, nas suas imensas viagens para outros países, que a tiveram sempre tão ocupada, que nem foi capaz de casar. A tua irmã e eu pensamos de imediato que eras a outra Avô dos nossos netos. Esses netos que, coisa estranha, tiveram três Avôs, a mãe do nosso genro Cristan, Ans, que está hoje contigo, Gloria tua irmã e tu própria. Dias lindos e divertidos, adoravas contar histórias para todos rirmos. Como adulta de muitas viagens, acabaste por ser uma excelente anfitriã. Vives-te da mesma forma que entrou na eternidade, hoje 7 de Dezembro de 2008, de madrugada, dia prévio a Imaculada Conceição, dois dias após o aniversário da morte de Mozart e seis do dia do nascimento de Maria Calas, que, se for viva, teria feito 83 anos. Esses anos que tu, Maria Eugénia, apesar dos cuidados médicos e da corte de pessoas que sempre te rodeara, especialmente a tua irmã,  sobrinhas e sobrinhos netos que, como sabes, gosto chamar netos enteados, não conseguiram melhora-te. Hoje em dia estas, para os que têm sentimentos de fé, com os teus pais, para nos cuidar desde longe. Foste uma muito querida filha, irmã, amiga e uma excelente cunhada. Ideologia absolutamente diferentes, mas pelo carinho, com respeitinho pelos credos ideológicos. Parece-me certo, e a família toda pensa assim, que descansas como deve ser, entre as nuvens cor-de-rosa do horizonte perdido. Como filha mais velha de um herói do Chile, que colaborara arduamente em ajudar a fundar da Força Aérea do Chile, que teve a honra de uma larga descendência, especialmente esta que hoje o foi acompanhar-te em ritos nos que tu acreditavas.. Em breve devo estar convosco, como dizem os médicos. Lembras-te dos nossos telefonemas nesses dias que os dois estávamos a sofrer de doenças terminais, essa brincadeira para animar as nossas magoadas vidas a nos perguntarmos quem ia primeiro? Ganhaste. Estou certo me esperas no sítio certo para tomar conta dos que fi
cam cá na terra a sofrer de depressões psicológicas e económicas, neura da que tu escapaste e eu sei confrontar.

Linda, espere que a filha dos Isley nasça, a mime um pouco, e lá vou a descansar com todos vós. Camila, em pequena, perguntava a hora do chá, se havia vida após a morte. O meu desatino foi dizer não. Chorou…!, amargamente. E disse: eu que gosto tanto lanchar todos juntos…O apoio emotivo é agora o amor da sua vida, o seu marido, o meu tenrinho Felix que ela ama desde o fundo da sua alma. Essa neta vai ter pais com imenso trabalho intelectuais e esse profundo amor que guardam e cuidam um pelo outro…Como os nossos netos van Emden….já crescidos e namorados! Já não Iturras na família, apenas eu. Iturra com honra….e paciência. Paciência aprendida de ti.