Vamos lá ver se isto é perceptível

Caro Charles Dickens

Eu sei que é estranho estar a escrever a um escritor que já morreu. Para já, põe-se o problema de como é que vai ler esta carta. Eu sinceramente não faço ideia a quem mandar. Para resolver isto, inspirei-me numa frase que uma vez li: “os grandes homens só morrem quando são esquecidos pelas pessoas”. Era qualquer coisa deste género. E o Mr. Dickens, sendo escritor, ainda mais imortal deve ser. Por isso, penso que vou deixar esta carta num sítio visível para que possa ver. Talvez no parapeito na janela. E decentemente traduzida.

Posto isto, tenho que lhe falar da razão pela qual estou a escrever. Não quero fazer-lhe nenhuma pergunta pois sei que, memo que quisesse, também não me poderia responder. Não faz mal. Não preciso da resposta. Venho por este meio falar-lhe de um livro que escreveu. Mas antes, devo contar-lhe uma história. Sendo estudante, estou agora a dar uma matéria que não é, de todo, muito agradável. O nazismo, o holocausto, (suponho que Mr. Dickens do alto da sua imortalidade e humanidade deve saber o que é), são temas que impressionam qualquer pessoa, mas que contudo não devem ser esquecidos. E sei por causa disso que a minha professora de História decidiu falar-nos sobre isso. Com bastantes imagens e pormenores, rapidamente o horror espalhou-se pela turma. Por mim especialmente que tive de baixar os olhos. Um dos problema deste tipo de situações, ou de ouvirmos falar nisto, é que nós só pensamos: “e se fosse eu? E seu fosse o meu pai, ou a minha mãe? E se fossemos todos?” Encontrei-me, então, verdadeiramente perturbada, algo raro para mim. Eu, eu, que supostamente tenho um coração de pedra! Como deve saber, porque penso ser inerente à condição humana, em momentos especialmente perturbadores tentamos procurar, encontrar, desesperadamente, algo que nos faça sorrir, algo que traga algum contentamento, alguma luz no meio da escuridão e do horror em que nos encontramos. E eu lembrei-me, de repente, de uma música, mais precisamente, de um Cântico que tinha ouvido. Um Cântico que é inspirado num livro seu. Chama-se God bless us everyone (Deus nos abençoe a todos). É evidente que esta frase lhe é familiar. Afinal, é a ultima frase de um dos seus melhores livros, dita por uma pequena grande personagem: o pequeno Tim. E recordei não só a música, mas também o livro. E permiti-me um pequeno sorriso, ali no meio daquela sala de aula, perante aquelas imagens e aquele relato. Veio-me à mente uma Londres repleta de neve, cheia de gente, que cantava nas entradas das Igrejas. E vi o Scrooge no meio da felicidade alheia a reclamar com o Natal. Parece que o ouço, na Londres vitoriana a dizer qualquer coisa como: “nem sabem o que faço à próxima pessoa que me desejar feliz Natal!”. E depois, a mudança dele. A tal mudança que tem um significado tão grande como o próprio Natal. Um significado de esperança, de bondade, de generosidade e de boa vontade e de todas as qualidades humanas que o Scrooge ganhou ou recuperou com a visita dos três espíritos do natal.

Eu sei que é estranha esta carta. Principalmente porque, como diriam os menos entendidos, quando se pensa nos seus livros, não se costuma pensar em esperança e em qualidades humanas (basta olhar para o Fagin ou o Bill Sikes do “Oliver Twist”, ou para o desprezível Daniel Quilp). Eu discordo. O “Cântico de Natal” é dos livros mais belos e mais inspiradores que já li. A prova é que me agarrei a ele durante um relato terrível sobre o extermínio e tortura e massacre de milhões de pessoas. Lembrei-me porque tentei procurar, na minha mente e no meu espírito, algo Bom.

Por isso, quero agradecer-lhe por ter escrito o livro. Agradecer-lhe por todas as palavras, especialmente pelas últimas. Tenho fé que consiga ler esta carta. É Natal, e afinal de contas, os espíritos, segundo o seu livro, vêm à Terra no Natal.

Sua,

Daniela Major

Comments


  1. Uma carta que, por certo, Dickens gostará de ler.


  2. O teu amor pelos livros é perfeitamente perceptível o que te vai levar a largos e merecidos voos…