Vítimas de violência gratuita: Que nunca vos faltem as pernas

Aconteceu uma destas noites; por volta das duas horas comecei a ouvir um barulho inusitado junto à porta de minha casa. Aproximei-me sorrateiramente e vi um grupo de seis ou sete pessoas. Pelo estilo e tipo de conversas depreendi que teriam dezassete, dezoito anos e estavam a fazer uns charros encostados à parede. Nada que me impressione, fiz o mesmo quando tinha a idade deles.

Às tantas, passou pela rua outro puto e os primeiros chamaram-no. Conversa puxa conversa, tratava-se de um australiano. Entre mim e eles, apenas uma porta envidraçada de permeio, vidro fosco, eu via vultos e sabia que não era visto, ouvia tudo ainda que não quisesse.

Era simpático, o australiano. Esforçava-se por comunicar, misturava inglês com arremedos de castelhano e italiano. Tudo normal, tudo na boa, eu esperava que o chinfrim acabasse para me deitar, não fosse o chifrudo tecê-las.

De repente, sem mais nem menos, os tugas começaram a perguntar ao australiano se queria lutar com eles. What? perguntava o moço sem acreditar no que se estava a passar. Os outros foram subindo de tom, rodearam-no, deram-lhe uns abanões violentos. A seguir, gritos, um tropel em correria rua abaixo.

Abri a porta e vi-os desaparecer numa esquina ao fundo, perseguindo o australiano.

Não sei se o apanharam, espero que não. Eu já tinha ouvido falar neste “desporto”, chamam-lhe dar porrada nos “bifes”. Confesso que fiquei envergonhado por não ter interferido e senti-me algures entre o ET e o T. Rex. Há coisas que não consigo compreender.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Atacam em grupo como os lobos, em vantagem numérica. Se não for assim, a valentia esvai-se pelas pernas abaixo.