As minhas amigas "tresmalhadas"

Era um espanto de mulher quando arribou a Castelo Branco, nos idos de setenta. Professora de ginástica, acabadinha de se formar, louraça, olho azul, mini-saia com umas pernas compridas a condizer, a Manuela era uma brasa, metade do pagode masculino de olhos em bico mas sem coragem de se chegar.

Foi lá o pobre do Vinagre, pobre duas vezes, porque andou de coração apertado enquanto viveu com os olhares de inveja dos outros e ainda coitado porque morreu cedo.

Ficou a Manuela viúva, um estadão, mas quem é que lá ía? naquele tempo, mulher com homem na vida estava entregue à maldicência e à solidão. A nossa conversa, de encher já se vê, é que sendo viúva de um amigo para nós era como se fosse um irmã…

Pior cobardia não pode haver e assim a Manuela, boa e gira por todos os lados, teve que se aguentar entregue a educar duas filhas que, Deus o proteja, são parecidas com o pai. Aquela mulher a quem a natureza lhe deu com uma mão os homens todos e lhos tirou com a outra, enquanto não arranjou maneira de se pôr a milhas daquele sítio preconceituoso e rançoso, não viu homem.

Cobardes até dizer chega, nenhum teve a coragem de romper com aquela “virtude” pública de beatas e mulheres mal amadas, preferindo subir a encosta do castelo e ir à casa das meninas pela calada da noite.

Agora vamo-nos encontrando na grande cidade, e fazendo render ” o terço” do desconforto, carpindo amores não cumpridos e felicidades por viver. Sempre à beira de acontecer, mas nunca acontecendo, há mulheres que metem medo aos homens, servem para admirar à distância, os cobardes alargam as narinas mas não dão um passo em frente.

No outro dia aparece a Manuela com um namorado, até que enfim que tinha encontrado companheiro, convidou dois de nós para ir lá a casa, lá fomos, o Sebastião militar habituado à guerra, o jantar eram codornizes, eu nem vou muito à bola com caça, mas ao menos isto, fazer ambiente…

Lá chegados, aparece-nos um “mangas” um gajo que tresandava a trapaceiro, o gajo é só “truques”, esquivo, meloso, não há ali nada de verdade, mas ó Manuela, onde arranjaste tu este “manguelas”? puxava por ela o Sebastião na cozinha, “olha que eu parto o gajo todo e é já”, mas tu metes um merdas destes cá em casa? descobriste o gajo onde?

Estragou-se logo ali o jantar, eu a tentar dizer à Manuela que o “companheiro” não enganava nem um cego, quanto mais dois gajos cegos pelo despeito, “faz a mala e andou que isto não é para os teus dentes”, apertava o Sebastião com o gajo pela garganta, lá ficou a Manuela sem companheiro, que depois nos contou ter arranjado pela Internet.

“Este ó menos ainda se moveu cá para casa…” ainda a ouvi dizer antes de bater a porta nas fuças sem vergonha de dois gajos, que desciam as escadas a correr…