Natal: Mito, ritual ou processo comercial?

Para os meus netos Tomas e Maira van Emden, em Nederland, e para a que deve nascer em Dezembro, na Grã Bretanha.

Santa Claus vende presentes

Santa Claus vende presentes

Não sou homem de fé mas tenho estas ideias para dizer:

Em 1260, na sua obra Provérbios, Tomás de Aquino escreve elementos do que viria a ser a sua obra O Catecismo, editada pelos Frades Dominicanos e mais tarde, em 1878, pelo Papa Leão XII, nascido Vincenzo Gioacchino Raffaele Luigi Pecci Prosperi Buzzi; Carpineto Romano, a 2 de Março de 1810Roma, 20 de Julho de 1903, foi eleito sucessor do Papa Pio IX. É frequente referir-se o Papa Leão XIII pelas suas duas importantes encíclicas: Rerum Novarum, de 1891, sobre os direitos e deveres do capital e trabalho, em que introduz, no pensamento social católico, a ideia de subsidiariedade e a Aeterni Patris, de 1879, sobre Filosofia, onde destaca a importância do retorno à Filosofia de São Tomás de Aquino do Vaticano, a sua primeira preocupação é declarar a obra de Tomás de Aquino como a orientadora da Doutrina da Igreja Católica, declarando o seu Catecismo a base de qualquer outro que pudesse vir a ser escrito.

Eis, aqui, a razão porque em 1991 o Papa João Paulo II ou Karol Wojtila, ao escrever o seu Catecismo, cita mais de 66 vezes a Obra Aquiniana. Nem Jean Calvin em 1535 ou Lutero em 1529, fazem referência ao nascimento de Jesus. O Direito Canónico que governava o mundo até ao Século XIV ou a queda do Império Bizantino, especula normalmente sobre esta ideia do nascimento de Jesus, narrada como está nos Evangelhos.

Entendida já a origem do rito, existente em vários livros considerados Sagrados, como o Talmud, El – al – Corão, onde é comentado o nascimento de um Profeta ou ritual, acaba, em todos eles, por não ser Mito, mas por corresponder à (sua) verdade histórica. Que exista uma preponderância aparente dos Cristãos Romanos, não significa que um seja verdade e os outros mentira. Há factos históricos diferentes, ainda dentro dos cristãos, que justificam datas e padroeiros de outra espécie. Cada um tem uma forma diferente de comemorar o pretendido nascimento do espírito ou pessoa cuja ética orienta as suas vidas, como é o caso do texto de Malinowski de 1916, Baloma; the Spirits of the Dead in the Trobriand Islands, das divindades nascidas há milhares de anos entre os Mapuche do Chile ou entre os Inca e Quechua do Peru e Equador. Entre todos, existe um ritual de sacrifício ou de veneração.

O problema, meus queridos netos, é que entre nós há a dúvida da Virgindade da mãe de Jesus ao ser concebido por obra e graça do espírito santo, e não pelo seu marido, José o Carpinteiro. Apenas que esta história está feita para adultos e não para crianças. As crianças acreditam na divindade do seu Patriarca, Cristo, bem como esperam d’Ele bênções e presentes. (Note-se que em Português o nome de Cristo, ou nas Igrejas Arménia, Ortodoxa Russa, Ortodoxa Grega, a referência é escrita com maiúscula.)

A festa tem passado a ser uma reunião familiar, com presentes combinados e com rituais feitos à maneira de cada País. Normalmente em Portugal, há a consoada e, a seguir, uma Missa à Meia-noite (chamada Missa do galo) ou a 25 pela manhã. Vós, em Nederland, ou Holanda como é também denominada, tendes duas festas: a Calvinista e Luterana de São Nicolau ou Santa Klas e a Católica dos Romanos, em datas diferentes e rituais diferentes, dentro do mesmo mês. Porque em casa, não apenas a vossa, como em muitas, há os que comemoram a festa e há os que fazem da mesma, um ritual.

Tenho consciência, meus pequenos, de referir estas ideias noutro ensaio meu, mas nunca com detalhes históricos para explicar como o comércio tem ganho e se tem apoderado do Mito e do Ritual, para vender “bugigangas”, como presentes de Natal. Especialmente nos dias de hoje, em que o comércio não consegue vender por causa da denominada Globalização Económica e a crise económica que vivemos, que deveria ser o nome desta celebração.

A temática tem pano para mangas e não há espaço num suposto texto que tem de ter 600 palavras.

Felizes Festas a todos, do vosso avô distante e para todas as crianças que ainda acreditam no Mito.

Loja que comercializa presentes

Loja que comercializa presentes

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Deixem sonhar as crianças.

  2. Carlos Loures says:

    É, como sempre, um belo e esclarecedor texto. Como se dia no penúltimo parágrafo, o Natal tornou-se uma quadra de activação comercial. O «pai natal», tal como o conhecemos, é uma criação da Coca Cola, salvo erro em 1929 – o ano do crash – a «quinta-feira negra» foi em 24 de Outubro e, dois meses depois, a Coca apresentava o pai natal como arma para debelar a sua crise. Nasci no final na década seguinte e o pai natal não tinha ainda o protagonismo que tem hoje. Quem nos trazia os presentes, era o «menino jesus». As árvores e natal, lá iam aparecendo timidamente, pois o que se usava era os velhos presépios. Hoje, o pai natal colocou o «menino jesus» fora de jogo. O marketing comanda a vida (parafraseando o Gedeão). Devemos deixar as crianças sonhar, Luís. O problema é que eleas sonham com os estúpidos brinquedos anunciados pela televisão. Abraço, caro Professor.

  3. Raul Iturra says:

    Agradeço aos meus amigos a paciência de ler o meu texto. Luís, a crianças não sonham: há os play station…., as bicicletas que podem ou não ser uma surpresa. Os que precisamos sonhar somos nós, os mais velhos, para esquecer a crise económica que o meu amigo Carlos menciona para outra época. Quem me dera ter a ilusão que, de forma enganada, atribuímos às crianças! É só ler o que meu Caro Carlos historia…Essa é a realidade. Os meus netos sabem muito bem que são os pais e avôs que oferecem os presentes, e adoram…! Sentem esse amor que a fantasia não dá…..!Sentem-se seguros e certos e a ilusão é esse acerto dos pais de comprar as prendas desejadas. Por outras palavras, confiam mais nos pais. O Pai Natal é uma Coca-Cola, que até faz mal….