Agarra que é música contemporânea!

Aqui ao lado, no coração de Espanha, província de Guadalajara, comunidade autónoma de Castilla-la-Mancha, existe uma povoação com pouco menos de 5 mil habitantes e que acolhe um festival de jazz com alguma notoriedade. O sítio chama-se Sigüenza e desde a semana passada tem sido falado por toda a Espanha, e não só.

Aconteceu que, numa dos espectáculos da 5ª edição deste festival, após ter assistido à actuação do saxofonista Larry Ochs, um espectador dirigiu-se às autoridades locais para denunciar-lhes que aquilo que o músico havia tocado nessa noite não era jazz, mas sim “música contemporânea”, género que, afiançava, lhe era “contra-indicado pelos médicos”.

Não sabemos se as autoridades tomaram alguma medida (tudo indica que não), mas o caso voltou a ser notícia agora que o grande jazzman, o todo-poderoso trompetista Wynton Marsalis, veio anunciar que está à procura do anónimo espectador para, em sinal de agradecimento, lhe oferecer a sua discografia completa (que inclui mais de 70 obras) e, como se fosse pouco, devidamente autografada.

O gesto não surpreende quando se sabe que Marsalis é um paladino daquilo que ele considera o jazz puro e tem zurzido, ao longo dos anos, em correntes mais vanguardistas, que ele entende desviantes em relação às raízes do jazz. Nessa sua batalha, chegou mesmo a enfrentar Miles Davis, que, segundo se diz, abandonou a Columbia Records após perto de 40 anos de trabalho conjunto pelo grande destaque que esta deu ao trabalho do jovem trompetista.

E assim, graças ao gesto burlesco deste espanhol queixinhas, o mundo do jazz está novamente a braços com mais um enfrentamento entre puristas e adeptos do jazz de vanguarda, do free jazz e do jazz de fusão.

Nada que não aconteça em muitos outros géneros, como o tango, o flamenco ou o nosso fado, nos quais os guardiões da tradição procuram impedir a fusão com outras sonoridades e a livre experimentação. Piazzola era visto por muitos na Argentina, antes do reconhecimento mundial que veio dificultar estes ataques, como alguém que estava a destruir o tango, ao fazê-lo desviar-se das suas sonoridades tradicionais, permitindo a entrada de novos instrumentos e de poemas que se afastavam das histórias de sempre.

Este espectador enjoado, cujo silêncio deve ter como justificação a crise de vesícula que o tomou depois de ter ouvido “música contemporânea”, talvez nem sonhe as movimentações a que o seu acto deu lugar, mas decerto se alegrará quando souber que a sua anónima contribuição veio revitalizar o discurso dos tradicionalistas.

Se depender de si, Marsalis há-de reescrever a história do jazz (como tentou fazer no documentário “Jazz”), expurgando todos os contributos que entenda desviantes, ainda que para isso tenha de sacrificar músicos como Miles Davis ou Ornette Coleman. Pelo caminho, continuará a fazer um notável trabalho historiográfico, recuperando discos e músicos cujos nomes se perderam no tempo.

O tempo, supõe-se, sem listas negras nem denúncias à polícia, enterrará uns e soprará o pó a outros, fazendo-os novamente reluzir, indiferente àquilo que deles se disse enquanto viveram.

Comments


  1. Carla, embora goste muito de música, pouco ou nada percebo (esta frase é o mais corrente lugar-comum de quem quer que seja que não sabe música). Aproveito, no entanto, para te felicitar pelo belo texto, para te cumprimentar e convidar para um novo café lá para depois do natal ou ano novo.

  2. Luis Moreira says:

    Isto das paixões acaba sempre mal. Nos idos de 70 fui expulso de uma tertúlia, porque jurava a pés juntos que ouvia um violino, que mais ninguem ouvia…

  3. Carla Romualdo says:

    Adão, perceber eu também não percebo. Mas se só escrevesse sobre aquilo que percebo ninguém me arrancava um texto. Há que improvisar…
    Quanto ao café, com muito gosto. É só curar esta constipação desgraçada e lá estarei!

  4. César Gustavo says:

    Música contemporânea é um conceito bem amplo e abrange várias modalidades e até estados da música. Concordo em absoluto com o mestre Igor Stravinsky quando ele fala dos “fatores imprevisíveis e imponderáveis” a que um compositor está sempre sujeito… Mas, na verdade, a chamada música clássica padece de uma deficiente categorização na mídia. É que na clássica você encontra, além dos períodos temporais (importantíssimos para o seu estudo), as divisões em música barroca, medieval, moderna, romântica e outras que não estou lembrando agora. Vá logo em http://cotonete.clix.pt/ e procure aí as excelentes rádios de música clássica, devidamente agrupadas nos vários subgêneros.

  5. Carla Romualdo says:

    Agradeço a sugestão, Gustavo.

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