Um belo Conto de Natal

S. José – O filofax

«1 de Março
Hoje comprei um martelo de duas pontas e uma esposa. Não sei nada para que servem as duas pontas, mas é alemão.

11 de Março
Há muitos judeus na rua. A Maria demorou-se imenso tempo no mercado. Voltou ofegante e contou uma história complicadíssima de incidentes entre as varinas e os romanos. O preço da madeira está a subir. Onde é que isto vai parar?

20 de Março
Tudo voltou à normalidade. Maria foi buscar água, mas depois em vez de água, trouxe um líquido preto, que suja tudo e que ela diz que é inflamável, que parece que os sumérios estão cheios dele, que ainda vai valer uma fortuna… Às vezes pergunto-me se não terá um parafuso a menos. O que faz sentido… ai os parafusos ainda não foram inventados.

1 de Abril
A Maria contou-me uma coisa que não percebo nada. Mete um pombo, um anjo, um tal de Gabriel, uma tal de Isabel, um tal de Espírito Santo… Não percebi. Só sei é que vou ser pai.

2 de Abril
Toda a gente da aldeia me felicita. Nunca pensei que gostassem tanto de mim. Cada vez que entro num café todo o mundo se atira ao chão de riso. Que gente boa!

(…)

28 de Maio
A Maria voltou. Está mais gordinha. Volto de novo aquela história do pombo e do anjo. Continuo a não perceber nada.

16 de Junho
Já percebi. Parece que afinal nem eu sou pai nem ela está grávida. A notícia abalou-me tanto que fiquei a martelar até tarde.

27 de Junho
Afinal não tinha percebido. O que é que se passa é que ela está grávida mas continua virgem. Eu sou o pai, mas não sou o pai biológico. Agora cada vez que vou ao café, perguntam-me se quero um whisky biológico ou legal. São uns brincalhões, estes nazarenos. É o humor judeu!

(…)

21 de Agosto
A Maria e eu estivemos a fazer planos para o futuro do nosso filho. A Maria quer que seja um Messias. Eu preferia que fosse carpinteiro. Acabámos a discutir.

11 de Setembro
Fizemos as pazes. Rimos da estupidez da nossa discussão. Pois se, na volta, ainda nos sai uma filha…

28 de Setembro
Se for uma filha, a Maria quer que seja qualquer coisa menos virgem como ela. Eu preferia que fosse carpinteira. Acabámos a discutir.

(…)

19 de Outubro
As minhas preces foram atendidas. Contratei um aprendiz, e não tenho mãos a medir. Passamos os dois de manhã à noite a dar marteladas na oficina. Maria não se importa.

25 de Outubro
Maria está contente com a perspectiva do nascimento da criança. Tenho de falar com esse tal de Gabriel Espírito Santo para ver se chegamos a acordo. Quero que Maria tenha muitos filhos. Espero que ele faça um preço razoável.

11 de Novembro
O meu aprendiz é o máximo. Eu aos 15 anos não tinha nem metade da escola dele. Só não gosto quando se põe a falar mal da Maria. Eu não acho que ela seja «uma grande mentirosa». Tem muita imaginação, é tudo. Demos marteladas até tarde.

(…)

1 de Dezembro
Despedi o meu aprendiz. Tinha de ser, a Maria ameaçou fazer escândalo. Nem o argumento de que assim não ia chegar para as encomendas a comoveu.

24 de Dezembro
O Meridien, o Hilton e o Sheraton estão cheios. Ainda bem, assim poupamos uns sestércios. Eu sei que é um bocado semítico da minha parte, mas é mais forte do que eu. Felizmente a Maria gosta de animais, porque vamos ter que passar a noite numa manjedoura.

25 de Dezembro
Nasceu a criança, mesmo no feriado, tem graça. Espero que os funcionários da repartição não tenham feito ponte, senão vamos ter de ficar até Janeiro.

31 de Dezembro
Sacanas! E não é que fizeram mesmo ponte? Estes belenenses só crucificados… O que me consola ainda é a criança. Com a auréola que tem à volta da cabeça, vamos poupar imenso em electricidade. Que importa que não seja minha?»

Carlos Quevedo e Rui Zink, in «Outros Belos Contos de Natal», Ediraia, 2004.

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