A máquina do tempo: há 32 anos…

Não gosto do Natal. Não sou crente, pelo que a face religiosa da quadra nada me diz. É a festa da família, dizem. A minha família, felizmente, não precisa de dias especiais para se reunir, nem de datas certas para manifestarmos o nosso amor e estima uns pelos outros. Porém, não consigo fugir totalmente aos tentáculos deste polvo comercial que, em Dezembro, esbraceja para sacar às pessoas em geral, crentes ou não, tudo o que possa. E depois é o sortilégio da comida – não gosto do Natal, mas adoro alguns dos acepipes que lhe estão associados. Contradições…

E assim, todos os anos nos reunimos na ceia da noite de 24 ou no almoço do dia 25. Em 1977, eu, minha mulher e os filhos, com os meus pais, estávamos à mesa, embora já tivéssemos almoçado. Eu ainda fumava e estava a contas com uma cigarrilha, acompanhado pelo meu pai que só fumava em ocasiões especiais e se encarregava de um puro. A televisão estava ligada, com o som desligado, e ninguém estava a dar-lhe atenção. Começaram a dar filmes e fotografias do Charlot e pensámos que era mais um programa natalício. Como todos, dos mais novos aos mais velhos, éramos seus admiradores, subi o som. Então percebemos – Charles Chaplin tinha morrido. O lugar-comum «o mundo ficou mais pobre» teve aqui total cabimento. Sem Charlot, o mundo ficava mesmo mais pobre.

charlie-chaplin

Charles Spencer Chaplin Jr., nasceu em Londres em 1889. Os seus pais Charles e Hannah Harriette Hill, eram ambos artistas de music-hall. Chaplin viveu, pois, num ambiente teatral desde o berço. Em 1900, com apenas 11 anos, conseguiu um papel cómico na pantomima Cinderela no “London Hippodrome”. Em 1903 participou em “Jim, a romance of cockyne”, seguiu-se o seu primeiro trabalho regular, como Billy, o ardina, em Sherlock Holmes, um papel que representou até 1906. Resumindo, Charles nunca teve outra profissão senão a de actor.

Chegou aos Estados Unidos da América em 1912 integrado na companhia de Karno. Um dos seus colegas era Arthur Stanley Jefferson, que se viria a tornar conhecido como Stan Laurel, o «Estica» da famosa dupla «Bucha e Estica». O produtor Mack Sennett, contratou Chaplin. Em 1919, fundou a United Artists com Mary Pickford, Douglas Fairbanks e D. W. Griffith. Apesar de o sonoro ter surgido em 1927, Chaplin só o usou no final da 1930. Tempos Modernos foi sonorizado, embora praticamente não tivesse diálogos. Chaplin, numa das cenas finais, canta num restaurante uma canção totalmente em mímica, onde os versos não significavam nada pois a personagem representada por Charlot não sabia a letra. Uma cena inesquecível.

O Grande Ditador (The Great Dictator, 1940), de que se mostra um fragmento no final deste texto, foi o seu primeiro filme com diálogos. Era uma sátira a Adolf Hitler e ao nazismo, filmada e lançada nos Estados Unidos um ano antes da entrada do país na Guerra. O papel de Chaplin era duplo: o de Adenoid Hynkel, clara alusão ao nome de Hitler, e o de um barbeiro judeu. Quando tomou conhecimento do Holocausto, Charlie lamentou ter brincado com o regime nazi, pois com o horror não se brinca

Chaplin sempre foi um homem de esquerda. Vários dos seus filmes demonstraram de forma clara essa opção ideológica, principalmente Tempos Modernos (Modern Times, 1936), onde, através da sátira, se crítica a situação da classe operária e dos pobres em geral. Neste filme, é muito explícita a defesa de conceitos marxistas. Por isso, durante o período da «caça às bruxas», Charles Chaplin foi incluído na chamada «Lista Negra» de Hollywood.

Quando quis fazer uma viagem à sua Inglaterra natal, em 1952, foi ameaçado pelo governo americano da confiscação de todos os seus bens – desdenhosamente, Chaplin respondeu que poderiam ficar com tudo. Quando resolveu regressarar aos EUA foi proibido de entrar pelo Serviço de Imigração, devido a acusações de “actividades anti-americanas”, na época do macarthismo, num processo pessoalmente conduzido por J. Edgar Hoover. Charlie decidiu então ficar na Europa, fixando-se na Suíça.

A sua primeira nomeação para o Oscar fora logo em 1929, no primeiro ano em que a Academia de Hollywood estabeleceu esses prémios. Chaplin havia sido nomeado como melhor director de comédia e melhor actor em The Circus (este texto abre com um hilariante momento deste filme), mas a Academia decidiu afrontá-lo e atribuir-lhe um prémio especial pela “versatilidade e excelência na actuação, guião, direcção e produção”. . Chaplin manifestou o seu desprezo por este presente envenenado e utilizava ostensivamente a estatueta entre uma porta e a ombreira, para não a deixar fechar.

Quando este gesto se tornou público, a ira da Academia de Hollywood foi enorme. Isto talvez explique porque Luzes da Cidade e Tempos Modernos, considerados dos melhores filmes de todos os tempos, nunca estiveram na lista dos candidatos aos Oscars. Se houvesse uma votação, entre os cinéfilos de todo o mundo, sobre qual a figura mais carismática de toda a história do cinema, Charles Chaplin, actor, realizador, compositor, guionista, teria muitas possibilidades de ficar em primeiro lugar. E nunca ganhou um Oscar, o que demonstra o valor que aqueles prémios têm.

O Grande Ditador (1940) recebeu nomeações como melhor filme, melhor actor, melhor guião e música original, mas não foi premiado. Assim como Monsieur Verdoux (1948), indicado como melhor guião.
Em 1952, Chaplin ganhou o Oscar de melhor música em filme dramático por Luzes da Ribalta (Limelight), de (1952), filme que participou também Buster Keaton. Devido às perseguições políticas da época de sua realização este prêmio só pode ser recebido em 1972.

Em 1972, ainda no exílio, havendo muita expectativa, pois não se sabia se seria permitida sua reentrada nos Estados Unidos, regressou pela última vez, para receber um prémio especial da Academia pelas “suas incalculáveis realizações na indústria do cinema”, registando-se uma das maiores aclamações na história do Oscar, pois Chaplin foi aplaudido em pé por todos os presentes durante mais de cinco minutos. O seu último filme foi A Countess from Hong Kong, de 1967. Em 4 de março de 1975, depois de muitos anos de exílio, foi elevado à condição de Sir. Tal honra foi proposta pela primeira vez em 1956, mas vetada pelo departamento de imigração britânico, já que constava que Chaplin era comunista.

Charles Chaplin morreu aos 88 anos no tal dia de Natal de 1977 em Vevey, Suíça, fulminado por um derrame cerebral e foi enterrado no Cemitério de Corsier-Sur-Vevey, Vaud, Suíça. A notícia dada na televisão, causou-me uma grande tristeza. E, por certo, a millhões de admiradores daquele pequeno grande homem, com o seu chapéu de coco, o seu pequeno bigode, a sua bengala… Imperecível ícone da risível fragilidade humana. Com Charlot, morreu muito do sentido de autocrítica da nossa arrogante sociedade.

Faz hoje 32 anos.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Um artista genial.

  2. Carlos Loures says:

    Sem dúvida. Talvez o mais genial dos actores ditos cómicos.


  3. Quanto A Charles Chaplin nem digo nada. Quanto á cigarrilha nem me fales. Soubesse eu fugir à possibilidade de recidava, e seria a cereja no bolo nesta quadra natalícia em que nós ateus, nos aproveitamos apenas das contradições…tão docinhas e saborosas!

  4. Carlos Loures says:

    Nestes dias, o meu peso aumenta 3, 4 quilos. Depois levo toda a Primavera a perdê-los. Vou andando assim com este sistema. Até que…


  5. sabia que vc esceveu esse texto atoa pq todos os adolescente e crianças (a maioria) que estao procurando a maquina do tempo naum vai ler essa bosta né

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