AS VICISSITUDES DE SERMOS PAIS

Para os meus filhos Camila e Felix, que passam ao estatuto de pais, em breve dias ou horas… e eu, avô do quarto descendente da família, com essa ansiedade da espera…

Faz dois dias, neste mesmo sítio, falei de amor e paixão. Definia o amor como um sentimento duradouro e a paixão, uma emoção que dura o que deve durar. As definições estão no texto e ao texto remeto-me.

Apenas que não referi que a paixão é curta, enquanto que o amor é duradouro. Especialmente se esse olhar nos olhos reflecte uma atracção que pode ser duradoura. Duradoura, tempo que transcorre entre a primeira vez que duas pessoas se encontram, e o derradeiro dia em que tudo acaba, seja divórcio, separação ou a morte de um membro do casal. Na minha lembrança, encontra-se viva a ideia da emotividade que o amor entrega. Amor que pode passar a ser uma paternidade/maternidade de um pequeno ser que nasce da fusão dos corpos que, com delicadeza e com carícias gentis, se procuram, onde cada beijo é uma rosa vermelha que não lacera, mas enternece…, essa ternura que um casal capaz de criar, sabe entregar…

Rosa vermelha, símbolo do amor e das vicissitudes que esse amor entrega, ao começar as alternativas da criação. Alternativas de criação que obriga a uma divisão do trabalho paterno/materno: ela amamenta, ele trata das fraldas. Ou ela não pode amamentar e torna ao trabalho, ele permanece no lar a tratar do novo pequeno ser, como as novas leis hoje em dia, permitem.

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Bebé contente e são por ter dois pais/mães: que tratam do seu cuidado e arrecadam os bens para sustento do lar.

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Enquanto o bebé é pequeno, não há debate entre os seus adultos, apenas a decisão de quem, se chorar à noite, vai tratar da criança. Não consigo esquecer o dia das nossas crianças, que nos fazem avôs: o cansaço era tão grande, que os pés passavam a ser um campo de batalha, um empurrando o outro para tratar do bebé chorão…Untitled-2

Empurra, levanta, ontem fui eu, hoje é a tua vez… até que o menos dorminhoco sai da cama, acaricia o bebé, acalma-o, e volta a adormecer, por vezes, no berço do mais novo.

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As vicissitudes da criação têm passado a ser de uma grande intimidade. Tanta, que nem avôs, muito menos tios avôs podem imiscuir-se no segredo do casal, esse que permite que nos primeiros dias, meses talvez, isole os progenitores e o novo ser. A manha pode ser tão grande, que o bebé vai para a cama dos pais, o pior «pecado» do mundo esse amor a três, apesar das novas teorias ginecologistas: um bebé a dormir na cama dos pais, é um bebé aconchegado, certo e passa a ser, mais tarde, um seguro.

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É o pior dos comportamentos se a noite passa a ser uma brincadeira e o dia, um dilema. As alternativas podem ser muitas, mas há uma que é a que, penso eu, deve ser:

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No berço, ou com o seu animal de estimação.

Imagem que sonho para a minha futura neta… e que os seus pais permitam. Mas, como quem escreve é apenas avô, não tem direito à palavra nem a perguntar, por simpatia, quem fica aparentado com quem no dia de se formar um casalinho… comportamento difícil para quem ama a sua descendência e lhe apetece saber detalhes normais sobre a família em que o jovem adulto, entra. Nunca me esquecerei do dia em que submeti, em jeito de conversa, o meu primeiro genro, a um interrogatório. Um pai não pode entregar a sua filha a uma pessoa qualquer. A conversa foi animada e fiquei contente de saber que essa ia com um senhor. A que vai ser mãe por estes dias, nada disse a ninguém: os factos estavam consumados e o bebé a caminho para entrar no mundo.

Dentro dessas vicissitudes, tenho uma terceira filha, à distância. De forma natural e em conversa telefónica, perguntei, encantado, quem era o pretendente e os pontos que calçava. Conversa tão natural, como a que tive com o meu primeiro genro e continuo com este que em breve será pai e tem imenso carinho por este sogro que sabe ouvir, não dá conselhos, apenas ouve e comenta se lhe é perguntado.

Dentro das vicissitudes, está a separação de pais e filhos para não se imiscuírem com a criança dos mais novos. E entre irmãos adultos que pensam que o nosso carinho e interesse é uma intromissão.

As famílias crescem, os mais velhos começam a ficar sós. Antigamente, esses adultos maiores transferiam, de forma simpática, dicas para tratar com os descendentes. Eram ouvidas e agradecidas. Hoje em dia, tudo o vento do neoliberalismo leva e nem podemos perguntar, falar entre irmãos, ou com os nossos descendentes que passam à categoria de casal ou de avôs. A distância cresce até ao dia em que um vai embora primeiro, fica apenas uma geração a tomar conta dos seus…

Os adultos maiores, sonham, e este é o meu sonho

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uma família alargada, rara nestes dias.

Comments

  1. maria monteiro says:

    O que é realmente importante é que filhos, netos tenham um crescimento saudável, que sejam felizes.
    A família alargada também passa pelos amigos.

  2. Carlos Loures says:

    O crescimento da família nuclear é uma aventura. Os filhos um desafio que nunca acaba. Os netos um retorno à infância e à juventude, uma espécie de reciclagem. Somos, de facto, seres intrinsecamente sociais. Mas às vezes esquecemo-nos disso – textos, como este do Professor Iturra, devolvem-nos essa consciência.

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