Uma Cozinha no Douro


Os meus companheiros(as) do Aventar já sabem da minha paixão pelo Douro. Eu, um menino da cidade, nado e criado no Porto (Areosa) casei com uma duriense e mal pus a vista em cima do Douro Vinhateiro fiquei como aqueles senhores da UESCO: perdidamente apaixonado.

Uma das minhas perdições no Douro é o famoso D.O.C. e o seu genial Rui Paula. Não tenho por hábito, fruto de um certo pudor adquirido em casa, falar sobre este ou aquele restaurante, hotel ou outra qualquer extravagância pessoal. É reserva mínima de intimidade e um certo horror a uma qualquer cedência ao novo-riquismo tão típico dos dias de hoje. Dou um exemplo: muitos amigos tecem loas ao bife do cafeína (restaurante ainda da moda no Porto) e eu, típico labrego da Areosa, lá fui qual carneirinho experimentar o naco. Absolutamente banal, excepto no preço. O Aleixo (Campanhã-Porto) ou o Rodrigo (Maia) por metade do preço fazem a festa, deitam os foguetes e apanham as canas. Enfim, modas. E foi com esta ideia pré concebida que entrei, pela primeira vez e de pé atrás, no D.O.C.

O espanto que se apoderou de mim ao longo da refeição (provavelmente deglutida sempre de boca aberta para horror dos restantes comensais) transformou-se em êxtase absoluto no término da mesma. E sempre que regresso já não fico espantado, podendo assim comer de boca educadamente fechada, mas permanece o arrebatamento. O D.O.C. é, tal qual os patamares de vinha que nos fazem companhia ao longo da refeição, um verdadeiro Património da Humanidade e o melhor restaurante de todo o Douro e Duero, de Soria à Foz. O Rui Paula é um génio e aos génios tudo se perdoa, até os devaneios mais recentes: vai abrir um novo poiso gastronómico no Porto, no velho burgo. Um desvario. O D.O.C. não é só a comida, a excelência da dita, nem o primor do serviço ou a revolução que desencadeou, gastronomicamente falando, na região ou a partilha da carta com o próprio Rui Paula e a sua maravilhosa companhia. O D.O.C. é tudo isto por junto mas misturado com a paisagem em seu redor. Depois, depois é o Douro, provavelmente o único lugar do mundo capaz de transformar a minha Areosa, o meu Porto, a minha Maia em mero local de fugaz poiso de fim-de-semana ou de uma ou outra escapadela de férias ou de peregrinação ao Dragão – a melhor sala de espectáculos do país. Sim, sim que o Ano é novo e o final de 2010 será, espero, o princípio dessa mudança. Daí não aceitar que o Rui Paula me troque as voltas à “cantina duriense”.

E todo este relambório por causa de um livro. Um livro, não. O Livro. O livro “Best in the Wold Gourmand 2009”, título conquistado no “World CookBook Awards”, assim a modos que o Nobel da Literatura gastronómica. Uma prenda de Natal que recebi de um grande amigo e onde, durante uma brevíssima pausa de fim de ano duriense, pude encontrar as receitas dos seguintes manjares dos Deuses: Trilogia de Sabores Antigos (Cogumelos recheados, peixinhos da horta e salpicão de Barroso), Chamuça de Alheira com cogumelos salteados, Migas de Alheira, Creme de espargos verdes com Vieiras e Azeite trufado, tudo isto nas entradas. Quanto a pratos de peixe temos: Polvo à Lagareiro, Bacalhau lascado com puré de grão-de-bico, Milhos de Camarão, Açorda de Sapateira com Linguado e Caldeirada de Pargo. No pecado das carnes: Cachaço de porco Bísaro com migas de feijão-frade, o superlativo Medalhão de lombo Maronês com Queijo da Serra acompanhado de espargos verdes e arroz de três cogumelos, Trilogia de Vitela com batata confitada de alheira, Milhos à Transmontana, Lombinhos de porco Bísaro grelhados com favada e puré de aipo e a Vazia com puré de queijo de cabra, confit de chalota e courgette recheada. A gula, caros companheiros (as), o pecado da gula está nos doces: Chamuça de queijo Chèvre com gelado de mel, requeijão, doce de abóbora e amêndoa; Crepe de leite-creme crocante com frutos exóticos e molho de framboesa; Tarte de Maçã com queijo de cabra e gelado de Azeite; Mil folhas de maçã e morangos; Folhado de Maçã com geleia Late Harvest; Trilogia de Degustação (Souflé de Limão, Molho de frutos do bosque e Zabayon de Vinho do Porto) sem esquecer o Strudel de Maçã com frutos secos em sopa de canela!

Meus caros, só citei os já provados pois muitos mais se pode encontrar neste livro magnificamente escrito por Celeste Pereira com fotografias superlativas de Nelson Garrido e cujo título não engana: “Rui Paula – Uma Cozinha no Douro” da Quidnovi.

Assim regresso, neste novo ano, ao Aventar e termino a prosa, como sempre, com uma música. Por sinal, de um álbum que recomendei ao Rui Paula:

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Belo naco de prosa ! Sabes que eu já conheço esse restaurante porque leio o que sai na imprensa sobre gastronomia. Mas assim, sem aviso, falares do Aleixo, ó Fernando…

  2. Fernando Moreira de Sá says:

    Pois, pois Luís. O Aleixo e eu temos uma relação de amor-ódio infinita: odeio o facto de os melhores filetes de polvo em arroz do mesmo do mundo existirem num antro da lampionagem do Porto! O Bife é dos melhores que se comem por estas bandas – só ultrapassado pelo do Portucale.

    Mas aproveito para te contar um segredo: o caminho que me leva para a terra da minha duriense obriga a passar mesmo à porta do DOC. Fui acompanhando com curiosidade a obra, sem fazer a mínima ideia do que lá nasceria. Um dia passo de carro e vejo que abriu um restaurante. Estacionei e espreitei. Voltem a arrancar seguindo para a terra. Passados dois dias, no regresso ao Porto, decidimos parar para almoçar e tanto eu como a minha mulher estávamos convencidos de barrete pela certa. Os preços eram elevados, sobretudo para a zona; a decoração moderna de estilo citadino mas as vistas eram (e são) deslumbrantes.
    Ora, foi uma surpresa e tanto. O restaurante não tinha uma semana de vida e já estava um primor. Um televisor transmite tudo o que se passa na sala de produção (cozinha) naquele estilo muito nortenho de quem não deve não teme. O serviço um primor. A carta de vinhos fabulosa e a lista de vinhos a copo uma maravilha. A comida estava simplesmente divinal. O Rui Paula, que conheci nesse dia, um anfitrião de primeira.

    Mal cheguei a casa comecei logo a escrever um texto sobre o que acabara de me acontecer. No momento de publicar, recuei. O meu lado guloso fez-me recuar. Se partilho a informação, pode acontecer de se iniciar uma romaria que vai levar o DOC à desgrça, pensava eu. Passado uns dias, o Francisco José Viegas e outros começaram a gritar furiosamente a boa nova. Está tudo estragado! Mas não, o DOC continuou fiel à qualidade. E eu acabei por publicar o dito texto:

    http://comunicatessen.blogspot.com/2007/08/doc-douro.html

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Fernando,
      O Aleixo já conheceu melhores dias. O Portucale é para ti que és rico. O do Douro não conheço, mas uma televisão a mostrar a cozinha não me parece coisa de bom gosto. E que tal uma televisão a mostrar o wc, para vermos se o cozinheiro lava as mãos depois de cagar?

  3. Fernando Moreira de Sá says:

    Ups: voltei e não “voltem”; desgraça e não desgrça…

  4. Fernando Moreira de Sá says:

    É isso e a fantabulástica mousse de chocolate que comi em Coimbra no almoço do Aventar. Só por causa dela terei de regressar em breve à cidade dos estudantes mas com uma nova regra: Entrada – mousse; prato principal – o bacalhau; sobremesa – Mousse e no fim levo uma caixa para trazer mais 4 doses de mousse!!!!

  5. Luis Moreira says:

    No Minho e no Douro é de comer com calma, a saborear, coisa que raramente faço, porque aqui em baixo é raro haver um prato que mereça. Comer bifes, não obrigado. Como para manter os 82 kgs…

  6. Fernando Moreira de Sá says:

    E as açordas Luís? E as migas Luís? Aí em baixo, no Alentejo, que bem que se come! E a sopinha de pedra tão perto de Lisboa? Um manjar e pêras!

    Bife, caro Amigo, quando de boa carne, é de chorar por mais, seja com batata ou com arroz.

    82 kgs? Há quanto tempo não sei o que isso é, ehehehehehe!

  7. Carlos Loures says:

    No Algarve, Fernando, há sítios onde se come bem – o «Jacinto» na avenida central da Quarteira, é uma maravilha. O Quitério (de quem sou amigo há muitos anos) apenas censurou o uso de toalhas de papel – coisa em que eu nem sequer tinha reparado; os guardanapos são de pano e, principalmente, a comida é muito boa – caril de gambas, bife au poivre, carne-de-porco à alentejana e, claro, as maravilhosas cataplanas de tamboril, de marisco. Tem uma boa carta de vinhos. Nós, os mouros, também temos boa comida. Mas já vi que sabes isso.

  8. Carlos Loures says:

    A propósito: o Fialho, o portentoso Fialho de Évora, pareceu-me, da última vez que lá estive, menos bom do que habitualmente. Mas continua caríssimo.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Não gostei especialmente do Fialho. Nada do outro mundo. Ainda por cima, quando entrei juntamente com a minha família, o tipo olhou-nos de alto a baixo, como quem diz «quem são estes jajos que vêm para aqui»? Deve estar habituado a ricos.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      E já que estamos em maré de aconselhar restaurantes, não esquecer o fabuloso «Vítor» de S. João de Rei, na Póvoa de Lanhoso. O melhor bacalhau assado do mundo.

  9. Carla Romualdo says:

    E já agora, o Kabras, em Ortiga, Mação. Como dizem os responsáveis, não liguem ao nome nem ao aspecto exterior (ambos pouco convidativos) e experimentem. Foi a minha descoberta mais recente, por pura sorte, e fiquei rendida

    • Ricardo Santos Pinto says:

      E o Albertino em Folgosinho – seis pratos uns atrás dos outros e cada um melhor do que o anterior. E o Barriga Forte em Baião, junto à Ponte da Ermida – 8 entradas, 2 pratos e 8 sobremesas. Fantásticos!

  10. Carlos Loures says:

    O Fialho piorou, e, de facto, o tipo está habituado a receber ricos´. piorou a comida, mas os preços mantiveram-se. Mas há tantos e tão bons restaurantes em Évora, que nem se dá pelo Fialho. Mas já foi uma referência «incontronável».

  11. Carlos Loures says:

    «incontornável», claro.

  12. Ricardo Santos Pinto :
    E já que estamos em maré de aconselhar restaurantes, não esquecer o fabuloso «Vítor» de S. João de Rei, na Póvoa de Lanhoso. O melhor bacalhau assado do mundo.
    É pois, embora, para lá chegar, seja um martírio.

  13. Ricardo Santos Pinto :
    E o Albertino em Folgosinho – seis pratos uns atrás dos outros e cada um melhor do que o anterior. E o Barriga Forte em Baião, junto à Ponte da Ermida – 8 entradas, 2 pratos e 8 sobremesas. Fantásticos!

    É Barriga Farta, Ricardo. Ou estava tão ‘enchido’ que confundi o nome?

  14. Carla Romualdo says:

    Desculpem lá, mas lembrei-me das sobremesas do Pátio Real, em Alter do Chão. Fazem uma sericaia e uma encharcada de noz divinas!
    E é o último, prometo!

    • Ricardo Santos Pinto says:

      O Pátio Real não é um restaurante que tem uma esplanada muito agradável, com uma frondosa ramada? Se é esse, já fui e gostei muito.
      Por falar nessa zona, lembrei-me do Pompíllio em Elvas.

  15. Não tivesse eu acabado de jantar um belo arroz de frango feito pela minha sogra e já estava na despensa a procurar um chocolate para matar a fome com tantos e tão bons restaurantes.
    De todos, daí os meus cento e tal quilos, eheheheh, só não conheço o Pátio Real (ó falha!), o Kabras e o Albertino. Serão visita na primeira oportunidade.

    Ó Ricardo, seu “faxista” e quem te disse que sou rico ou que alguma vez paguei no Portucale??? Seu facínora!! O Portucale é mais caro que o Vítor mas mais barato que o Fialho. Além disso, o que torna cara uma refeição nem é tanto a comida mas sim a bebida…E a noção de caro varia: caros são alguns restaurantes onde se paga porventura menos que no Portucale mas cuja qualidade é má, esses sim, são caros. Um tipo já não pode ter prazeres de boca que é logo apelidado de reles fascista!!!Ehehehehehe.

    Caro CL: por acaso sou daqueles raros tripeiros que não se queixam da qualidade da comida no Sul e em Lisboa até se come bastante bem. É como em todo o lado, há bons e maus restaurantes.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Ainda fico mais preocupado, Fernando. Não me digas que sou eu, como contribuinte, que ando a pagar os teus jantares no Portucale, eh eh?
      Só fui lá uma vez, em 1995, e paguei 55 euros. Deram à minha mulher uma ementa sem preços e ela só pensava: «Fogo, esta gente é tão rica que nem precisa de saber os preços».

  16. Fernando Moreira de Sá says:

    Malandro, vens de França cheio de bom humor! Não te preocupes que não foi pago com dinheiro dos contribuintes mas sim de privados liberais!!!

    Se lá fores hoje pagas o mesmo e continuam com a política machista de entregar carta sem preços às senhoras. Uns cavalheiros!!!

    • Ricardo Santos Pinto says:

      Aconteceu-me o mesmo no Vitor de S. João de Rei. Paguei muito menos este ano do que há uns anos atrás.
      Já agora, que tipo de favores é que andas a fazer a esses «privados liberais»?

  17. Privados liberais amigos meus!!!!

  18. Carlos Loures says:

    Somos um país onde se come bem em todas as regiões. Exceptuando, talvez, o Porto Santo, onde vou todos os anos (por causa do clima e da paisagem). Pela comida, não merecia a pena. Os porto-santenses que me desculpem, mas já corri a ilha toda – o que não é difícil – e o melhor que descobri foi um restaurante uruguaio, o La Roca (que foi de um homem do MFA, o Faria Paulino, não sei se ainda é). Mas sobrevive-se á base de filetes de espada, de espetadas e pão de caco. É diferente.

  19. NORBERTO ALMEIDA says:

    Uma verdadeira covardia,para um duriense há longos anos longe do Douro,listar uma degustação desse quilate.
    Mas ao mesmo tempo mais uma razão para na próxma visita ao Douro,não deixarmos de conhecer
    essa maravilha que relata com tanto carinho e conhecimento de causa.

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  1. […] o DOP. Para comemorar, trago aqui ao Albergue um texto que publiquei anteriormente no Aventar, em Janeiro e minimamente adaptado ao […]

  2. […] para fazer e viver que também passa dias difíceis. Há muito que fazer no Algarve, muito que experimentar no Douro e muito que viver na serra. É por isso que lhe digo caro amigo, aproveite se puder, e vá […]

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