a paixão que mata o amor

A morte de Beatriz

Para a mulher que respeito e amo, ela sabe quem é….

O povo português anda preocupado pelas batalhas políticas. Nem sabemos quem nos governa: se é o primeiro-ministro ou a oposição. E se é a oposição, qual é, entre todos os presidentes dos partidos das bancadas que fazem do governo uma minoria, o que exerce o poder? Minoria que, estrategicamente, procurará convénios com os partidos mais pequenos que apoiam o governo minoritário, com condições eternas.

Devo confessar que é um tema interessante, apaixona-me no meu querer saber de como vamos resolver a crise económica que nos atormenta e empobrece, como vamos criar mais postos de trabalho, como vamos agasalhar os que têm frio e fome especialmente em dias de festa, como o carnaval. Povo teimoso que, com frio e tudo e sem dinheiro, passeia e anda pelas ruas da alegria, esquecendo assim as da amargura.

No entanto, quando estamos no meio de outros problemas, sobretudo emotivos, o que o governo faça ou não, passa para segundo plano nos nossos interesses. Até um certo ponto. A crise económica entra nos nossos sentimentos e ficamos fracos para o amor. Bem queríamos amar sem preocupações e oferecer presentes, mas a carestia de vida em que este fraco governo nos meteu, faz-nos mais pobres ainda: de recursos e de emoções.

Os recursos, podem ser resolvidos, o amor também. Um nada de optimismo coloca-nos nas portas da serenidade e da paz. Requisito mínimo, para sabermos conviver em permanente conflito político, especialmente nós, que apoiamos o governo de minoria e os seus aliados.

Mais difícil é experimentar resolver os problemas da afectividade. Faz-me lembrar Dante Alighieri e a sua Divina Comédia, texto escrito entre 1304 e 1321, Divina Comédia por Dante ter perdido a sua amada Beatriz procurando-a por todos os sítios, desde o Inferno, passando pelo monte Purgatório, até chegar ao Éden. Examinando os caminhos do mais além, num imaginário após a perca do amor da sua vida. Ainda jovem (18 anos), conheceu Beatrice Portinari, filha de Folco dei Portinari, ainda que, crendo no próprio Dante, a tenha fixado na memória quando a viu pela primeira vez, com nove anos (teria Beatriz, nessa altura, 8 anos). Há quem diga, no entanto, que Dante a viu uma única vez e que nunca falou com ela. Não há elementos biográficos que comprovem o que quer que seja.

É difícil interpretar, no plano individual, em que consistiu essa paixão, mas, é certo, foi de importância fulcral para a cultura italiana. É sob o signo desse amor que Dante deixa a sua marca profunda no Dolce Stil Nuovo e em toda a poesia lírica italiana, abrindo caminho aos poetas e escritores que se lhe seguiram para desenvolverem o tema do Amor (Amore) que, até essa altura, não tinha sido tão enfatizado. O Amor por Beatriz (tal como o amor que Petrarca demonstra por Laura, ainda que numa perspectiva diferente) aparece como a justificativa da poesia e da própria vida, quase se confundindo com as paixões políticas, igualmente importantes para Dante.

Quando Beatriz morre, em 1290, Dante procura refúgio espiritual na filosofia da Literatura latina. Pelo Convívio, sabemos que leu a “De consolatione philosophiae“, de Boécio, e a “De amicitia“, de Cícero. Dedicou-se, pois, ao estudo da filosofia em escolas religiosas, como a |Dominicana de Santa Maria Novella, tanto mais que ele próprio era membro da Ordem Terceira de São Domingos. Participou nas disputas entre místicos e dialécticos, que se travavam, então, em Florença nos meios académicos, e que se centravam em torno das duas ordens religiosas mais relevantes. Por um lado, os Franciscanos, que defendiam a doutrina dos místicos (São Boaventura), e, por outro, os Dominicanos, que se socorriam das teorias de São Tomás de Aquino. A sua paixão “excessiva” pela filosofia é criticada por Beatriz (representando a Teologia), no Purgatório (parte deste texto, pode-se ler em http://pt.wikipedia.org/wiki/Dante_Alighieri).

a paixão que mata o amor

A paixão que mata o amor, é esse anseio de saber por onde anda a sua namorada, porque sem ela não consegue viver, como a peça de teatro de Vinicius de Moraes, em parceria com Tom Jobim, ‘Orfeu do Carnaval’, que ganhou a Palma de Ouro no Festival de Cannes, ao ser transposta, por Marcel Camus, para o filme ‘Orfeu Negro’.

amor arrisca a paixão

Como Orfeu que perde a sua Euridíce num dia do Carnaval e percorre todos os caminhos da morte, até encontrá-la nos infernos, raptada pelo mal feitora do Dia de Carnaval. Foi-lhe permitido entrar no Inferno e procurar a sua paixão, com uma condição: não podia olhar para trás. Curioso, já nas portas de saída do Inferno, não cumpriu a condição que lhe fora imposta, perdendo para sempre a sua Euridice, a sua paixão permanecia assim no Inferno, como Beatriz fica no Purgatório por não consentir as teorias teológicas de Dante, escritas para ela.

É assim como, em dia de Carnaval, a paixão dos dois homens mata os seus amores, duas belas mulheres que cada um deles perde pela sua paixão ou pelo saber, na vida de Dante, ou pela simpatia de saber quais os traidores da sua Euridice, no caso de Orfeu.

a punição da paixão

Comments

  1. Carlos Loures says:

    Foi Pascal quem disse nos seus «Pensamentos», mais palavra, menos palavra, que «tanto falamos no amor que acabamos por nos apaixonar », o que transforma aquilo que todos consideramos um sentimento, talvez o mais belo dos sentimentos, numa ideia, num simples conceito. Pascal, na sua ânsia de racionalizar, tentou arrumar o amor (e a paixão) entre os seus enunciados. Não sei se a paixão mata o amor, tal como muitas vezes os bombeiros combatem o fogo com uma cortina de fogo, ou a mãe demasiado extremosa asfixia o filho por tanto o amar, estreitando-o com força exagerada. Talvez o amor sereno seja mais duradouro do que o amor ardente de que o nosso Camões fala. Não sei é se existe amor sereno. No fundo, as palavras, mesmo as de Dante, Petrarca ou Camões, são insuficientes para transmitir o universo que povoa o coraçãoi dos seres humanos. Talvez um dia se descubra uma linguagem mais avançada do que a das palavras para exprimir os sentimentos. Porque, disse Blaise Pascal, mais ou menos (não fui ver ao livro) que «o coração tem razões que a razão desconhece», redimindo-se da primeira frase que dele citei. Belo texto, Raúl Iturra. Belo tema, este o do mito de Orfeu e do amor de Dante por Beatriz. Um tema eterno.

  2. Raul Iturra says:

    Caro Carlos, agradeço-te imenso o teu comentário sobre o meu texto de paixão e amor. Sim, é o que diz Blais Pascal, tenho o texto, mas as minhas palavras têm outro sentido. A paixão, a defino eu, séculos mais tarde, como esse ardor erótico que, uma vez satisfeito, coloca a pessoa a dormir e depois, a mandar. Eu penso ao contrário; uma senhora é para ser seduzida e não para nós assaltar com paixão, que satisfaz apenas a parte erótica. O que eu procuro é amor, essa cumplicidade e colaboração da qual nasce a paixão. A minha base é psicanalítica, não filosófica, forma de pensar que, como definido por Freud, o isso o id, é o sonho que todos esperamos mas, como não acontece o isso ou Id proíbe a brincadeira se primeiro não há camaradagem. Eu amo, mas o amor começa pelo eu ou ego, que reconhece na outra pessoa uma companhia, como acontece comigo. El texto pode-se lêr em http://classiques.uqac.ca/classiques/freud_sigmund/essais_de_psychanalyse/Essai_3_moi_et_ca/moi_et_ca.html Temos o superego, que dá arrogância, o ego que nos permite agir como pensamos e o Id ou Isso, que coloca travões ao que não está socialmente permitido. Aliás, depende das idades do ser humano, essa aglomerada paixão que não passa primeiro pelo amor e o respeito de ide e volta. Pascal tem razão quando fala primeiro do amor e a seguir, da paixão, e não ao contrário. A paixão, como diz Aristóteles a Nicómaco em 320 antes da nossa era, é apenas um capricho de quem quer matar um desejo. Confirmado está por Margueritte Yourcenar no seu O tempo, esse grande escultor. Fala dos dramas que uma pessoa quer curar com uma “paixoneta” de curto espaço de tempo. Por causa das nossas idades, tomamos conta de quem amamos e a paixão aparece depois. Enfim, não vamos cansar aos leitores com um diálogo que precisa de leituras, pelo menos de Freud de 1923, que em português seria O Ego e o Id, uma adenda ao seu texto de 1915, ao definir Ego e Superego. É a grandeza de Freud, descobrir que o inconsciente existe e o denomina Isso ou Id. O livro que refiro pode-se ler em português, existe, mas o citado é Le moi et le ça- sendo ça o Id. Não te canso mais. Obrigado pela tua paciência de ler os meus textos…Ah! Não esqueças que Dante nunca encontrou a Beatrice, por causa do mal entendido entre Filosofia e Teologia, sendo Beatrice a Teologia. É apenas uma metáfora de Alighieri A divina Comédia, porque comédia é, apenas que divina por tratar de temáticas que no Século XIV ninguém falava…..E Orfeu, uma lição irónica de Vinicius de Morais que era um desobediente ele próprio, um contraventor. É propositadamente que faz perder a Euridice por olhar ao proibido.


  3. escreveu este texto com titolo a paixao que mata o amor.mais uma ves e um bom escritor. prof.doutor. Nuno Fernandes

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.