Do que falamos, quando falamos do Norte? (Memória descritiva)

Esta bonita canção interpretada pelo Rui Reininho, Isabel Silvestre e os GNR, peca, quanto a mim, por um defeito – é falaciosa. É que buscando na informação da qual sobre o tema disponho, não existe uma pronúncia do Norte – são várias as formas dialectais que coexistem no espaço que, de forma vaga, podemos considerar o Norte.

Socorrendo-me do saber de Lindley Cintra e Celso Furtado, diria que na área geralmente considerada «Norte» há, além do galego ocidental e do galego oriental, a norte do rio Minho os seguintes dialectos: transmontano, alto-minhoto, baixo-minhoto, duriense e beirão. Em conceitos de «Norte» mais ambiciosos, que incluem as regiões de Aveiro, Viseu, Coimbra e Guarda, a coisa complica-se ainda mais. Pronúncias ou acentos, muito diferentes uns dos outros. Por isso digo que a canção do Reininho é falaciosa – veicula uma ambição expansionista e política em detrimento da verdade científica. Mas não nos importemos com isso, vamos lá tentar analisar no que consiste o Norte.

Vem esta questão a propósito de uma afirmação aqui repetida por um aventador do Porto (não o nomeio; ele descerá à liça, se assim o entender) de uma ambição independentista do Norte. Nada tenho contra os anseios independentistas, era o que mais faltava. Porém, gosto sempre de os compreender antes de os apoiar ou não.

Quando se fala da independência do Norte, portanto da secessão de Portugal, estamos a falar de uma coisa muito séria e que deve ser bem ponderada. Vamos a caminho dos nove séculos de existência, somos um dos estados mais antigos da Europa, e uma unidade territorial, aparentemente consolidada, não pode ser posta em causa por dá cá aquela palha. E não ponho estas reticências porque a ideia da secessão seja uma heresia. E mesmo que fosse. Heresias é comigo.

Levanto o problema por uma questão metodológica. Quando pergunto em título « Do que falamos, quando falamos do Norte?», não estou a fazer uma pergunta retórica, daquelas que já trazem apensa a resposta. Nada disso. Gostava mesmo de saber se o paradigma do Norte é subjectivo e para uns é uma coisa e para outros outra ou se, pelo contrário, existe uma ideia concreta, fundamentada histórico-geograficamente.

Um anseio de independência tem quase sempre por detrás pressupostos históricos (quando não tem, inventa-os ou vai buscá-los a livros antigos, como no caso de Israel). Os pressupostos geográficos, costumam ser um dado adquirido. Se os madeirenses quisessem a independência da Madeira, concordando ou não, não teria dúvidas sobre que território incidia esse desiderato.

Mas neste caso, não sei nem quais fundamentos dessa pretensão nem os limites fronteiriços que teria o tal Norte. Por isso, me interrogo um eventual estado independente nortenho que fronteiras teria.

Já aqui no Aventar foi publicado uma tese fantasiosa que leva a área do Porto até á fronteira com a Galiza, incorporando a Sul a região de Coimbra. E faz também uma grosseira manipulação das estatísticas, só para «provar» que o Porto é maior do que Lisboa o que a ser verdade não me tiraria o sono. Quero lá saber o lugar que Lisboa ocupa no ranking das maiores cidades!

Voltando à questão dos limites desse hipotético estado independente. A base desse estado seriam os limites do Condado Portucalense? A antiga Galécia romana? Absorveria o distrito de Coimbra, como nas contas do tal blogger que dava quase cinco milhões de habitantes ao Porto?

Absorvendo, no mínimo, todo a região a Norte do rio Douro, será que minhotos, transmontanos e durienses aceitariam fazer parte desse novo estado? Não quero fazer humor, mas lembro-me da polémica que houve entre Crestuma e Lever a propósito do nome de uma barragem (a solução foi dar o nome das duas localidades à barragem) e logo vejo que a colocação da cidade do Porto como capital, não seria consensual. As gentes do Norte são ciosas da independência das suas aldeias, das suas vilas e cidades. E essa é uma qualidade que não deve ser subestimada.

Quando fui com o cineasta António Campos a Vilarinho das Furnas, um senhor idoso disse-nos que, por vezes, os habitantes da aldeia comunitária não sabiam se eram portugueses ou espanhóis, mas que isso não lhes interessava – a independência da aldeia, onde se vivia de forma diferente e que, quando os romanos invadiram a Península, já era antiga, essa independência é que lhes interessava.

Coloco aqui uma primeira questão – o velho municipalismo não daria uma melhor resposta aos anseios de independência e de garantia de que tudo o que a um concelho diga respeito, é decidido pela população desse mesmo concelho? Alexandre Herculano, defendeu a criação de uma estrutura social assente no poder municipal. Contra esta ideia de Herculano, o escritor portuense Júlio Dinis opinou que o municipalismo iria multiplicar os caciques..

Hoje , tenho podido ver, que se usa e abusa do conceito de centralismo . Já no século XIX a discussão entre centralistas e descentralistas foi acesa. Nos períodos de descentralização (governos de Passos Manuel, Rodrigues Sampaio e Luciano de Castro), a corrupção não diminuiu antes pelo contrário, com o endividamento a subir de forma descontrolada. O caciquismo aumentou.

Nos períodos de maior centralização centralistas (Costa Cabral, António Augusto de Aguiar, João Franco), a corrupção diminuiu, mas o mal estar entre governo e populações aumentou..

Agora vou fazer humor: «daqui houve nome Portugal», diz-se a propósito do Porto, que terá dado nome ao Condado Portucalense, donde de Portucale derivou Portugal. Sem o Norte e sem o Porto, como se chamaria o estado criado com o Sul – Gal? Outra questão – quem defende esta ideia, já viu que o Porto passaria a estar no Sul?

Adianto já que me parece um problema inventado, sem outra substância que não seja orgulho regional (o que é fraco capital para constituir uma nação). Mas quem seja de opinião contrária, far-me-á um favor esclarecendo-me.

Comments

  1. carlos ruão says:

    permita-me que faça das suas palavras minhas, meu caro.
    um exemplo-outro da «falsa questão»:
    no passado domingo a paula mora pinheiro entrevistava o arquitecto alexandre alves costa sob o pretexto da sua jubilação e da sua última lição intitulada «somos da póvoa de varzim» (uma fantasia popular luisina que nem valerá a pena contar) quando o dito senhor, tentando esclarecer a «suposta» questão da identidade nacional que, pelos vistos, sempre o preocupou, lá se referiu ao «estrangeiro»
    – «estrangeiro?», questionou a entrevistadora.
    – lisboa – disse o arquitecto. quando vou a lisboa não me sinto em casa, sinto-me no «estrangeiro»
    – como assim ?
    – então… aquela luz toda ….
    (note-se a referência à «luz» e o facto de o senhor ser arquitecto de profissão)
    …. como dizia o outro, ó meus amigos… não havia necessidade !
    … dei cá um salto do sofá que nem vos conto !
    e depois lá vieram as referências ao mattoso (será que o entendeu?), à agustina, ao garrett e quejandos, como se a questão fosse veraz.

    nós por cá sentimo-nos como peixe na água seja na praça do giraldo eborense ou na valenciana fortaleza e tanto nos aquece de portugalidade o granito maneirista das igrejas portuenses como a cal lumínica da lisboa barroca.
    ….
    de uma coisa estou certo: seja vestido de campino ou de capote transmontano, sob neve derretida ou calor sufocante, o português lá dentro é o mesmo tratante, diga «num» ou diga «nã» , e vai sempre encontrar problemas onde eles não existem e se não existirem cria-os.
    o português: o seu modelo é sempre o «lar» (somos todos iguais mas quem manda sou eu)
    o português quer ter o poder à mão de semear mas quando o vizinho acumula sementeiras maiores começa a pregar por uma «velha senhora» que coloque tudo nos eixos.
    o português é o homem que mata a vaca em vez de lhe tirar o leite e o vender no mercado.
    o português, não por acaso, só é bom na poesia.
    o português, raios, somos todos nós (do cónego melo ao zézé camarinha!!!!)
    o português é o nosso fado.
    tenho dito.

  2. Carlos Loures says:

    O poema do José Fanha define bem o português, seja ele minhoto, lisboeta ou algarvio – o jeitoso, o desenrascado, o improvisador. Inventar «nacionalidades» e comparar o Porto à Catalunha é um disparate. A Catalunha é uma nação, com idioma próprio e uma história própria. O Porto está na génese de Portugal é parte integrante do País. Dizem-me que há no Porto um grande sentimento de perda. Da perda de quê? Se dependedesse de mim (e conheço muitos lisboetas que pensam como eu) tirava-se a capital de Lisboa, pois penso que esse é o problema. Nunca tinha, senão agora, ouvido falar de secessão e não me admiraria que andasse aqui a mãozinha de Madrid. Ou estarei a ver fantasmas?

    • Luís Moreira says:

      Levem a capital para o centro geotécnico (?) de Portugal, é uma pequena aldeia algures na Beira, tão porreira que nem consegui lembrar-me do nome. E, já agora, voces aí no Porto, não deixem vir para ministro gajos que só sabem lixar a vossa (e deles) terra!

  3. carla romualdo says:

    esta questão dos secessionistas faz-me lembrar aqueles personagens do Herman, uma espécie de sociedade secreta do “Nuorte”, que alimentavam uns delírios com o Tripanário, e com o domínio do país.
    As reuniões eram secretas e só entrava quem conhecesse a senha. Uma dessas senhas (a única de que me lembro) era: “Onde é que acaba o país? Depois da ponte D. Luís”

  4. Carlos Loures says:

    O que digo sobre o Porto, no tal hipotético país, ficar no «odiado« Sul, foi inspirada precisamente no Herman e na sua «Expo-97» – há muitos vídeos no You tube dessa série. Eu gostava de ver este problema discutido, porque não aceito a ideia de o País se cindir. Compreendo que os Catalães queiram sair do estado espanhol, ou os Irlandeses da Grã-Bretanha – são países ocupados, há muitos anos, mas ocupados, aculturados, submetidos. O Porto é Portugal, como Coimbra, Lisboa ou Èvora. Não será a maior cidade, mas que importância tem isso? É um regionlismo exacerbado e inflado pelo futebol. Não tem qualquer sentido. É um disparate, mas poderá ser capitalizado por outros.

  5. carla romualdo says:

    É Vila de Rei, Luís, o centro geodésico de Portugal. A zona é bonita, de facto, sobretudo lá no cimo da serra da Milriça.
    Lembras-te que há uns anos se falou de Vila de Rei por duas razões: o subsídio que a presidente da CM anunciou para quem casasse e ficasse a viver na terra, e depois para os casais que tivessem filhos; e o pedido de imigrantes que viessem ocupar postos de trabalho disponíveis na vila. Deu tanto que falar que as televisões até fizeram directos da chegada dos imigrantes…

  6. maria monteiro says:

    pois foi … uns casais brasileiros que não estavam lá a dar muito bem conta do recado

  7. Carlos Loures says:

    O critério da capital no centro geodésico do País foi o que levou o rei de Castela e Aragão (Carlos I, V do Império germânico, segundo creio a medida foi dele) a colocar a capital em Madrid, uma pequena vila à época. Não me lembro de outro estado que tenha seguido o mesmo critério. Hoje em dia, ainda menos sentido faz ter essa preocupação. Mas seja em Vila de Rei (que conheço bem, perto de Abrantes) ou seja no Porto, a capital pode sair de Lisboa. Ela continuará a ser a cidade importante, bela e luminosa que foi e é. E a taxa de banditismo baixará. Mas este tema talvez não seja para levar na brincadeira. O caso é mais sério do que parece e eu terei de voltar a este assunto.

    • Ricardo Santos Pinto says:

      A capital não devia ser em Lisboa. Fez sentido em tempos, hoje já não faz. Devia estar mais próxima dos principais centros da Europa, algures no distrito de Castelo Branco. Isso é que era um investimento reprodutivo. Para além disso, acabava com a desertificação e a morte de uma vasta área do interior português.
      Quanto a Lisboa, continuaria linda como sempre. Aliás, melhor do que nunca. É só pensar no que poderia ser o Terreiro do Paço livre dos Ministérios. Se conseguissem acabar com as obras, claro…

  8. Carlos Loures says:

    É também a minha opinião. Quem sabe se construir uma nova capital, com edifícios concebidos de raiz para as instituições a que se destinassem. não seria uma boa solução. Animaria o sector das obras públicas e a ordem de valores, desde que não se construíssem infra-estruturas em demasia – aeroporto, TGV, etc. – nem seria incomportável. O estar mais próximo ou menos próximo dos centros de decisão, já não é tão importante. E é como dizes, Lisboa ficaria liberta de um fardo incómodo.

  9. pedro alves says:

    Mas afinal o que é isso do norte?

    Isso é uma invenção do Pinto da Costa, e tem 25 anos.

    O norte do pinto da costa não passa de gondomar ou de ermesinde.

    Esse norte a existir não passa da área metropolitana do porto, percebem?

    Os Transmontanos, de Trás-os-montes não fazem parte deste norte, e falo como Transmontano.

    Trás-os-Montes, não é norte!

    Norte é Porto e área metropolitana, na melhor das hipóteses distrito.

    Esse norte do pinto da costa acaba em Gondomar ou Valongo, na melhor das hipóteses distrito do Porto.

    Certo!

    Uma coisa é o norte geográfico do pais, outra coisa é este norte politizado em torno do FCP e do pinto da costa, percebem?

    A identidade Transmontana tem 600 anos, a província de Trás-os-Montes foi criada no sec XIV, por D. Dinis, e o pessoal lá diz-se Transmontano e não do norte.

    No fundo isso do norte e sul resume-se a Porto e Lisboa e mais nada.

    Não misturem o resto do pais nisto!

    Para termo de comparação, o que se aplica aos Transmontanos e Minhotos aplica-se aos Alentejanos e Algarvios.

    O Alentejo e o Algarve fazem parte do sul geográfico do pais, mas eles não se definem sulistas, definem-se Alentejanos e Algarvios.

    O mesmo se aplica aos Trasmontanos e aos minhotos, estão no norte geográfico do pais, mas definem-se Transmontanos e Minhotos.

    Percebeu agora?

    E o pessoal de Lisboa é como um cepo, entre nesta psicose do norte para aqui e para ali.

    E não vê que com isto só está a dar poder ao Pinto da costa, involuntariamente estão a meter os Transmontanos no mesmo saco dos Portistas, e os Transmontanos não querem isso, nem se identificam com isso, e no Minho igual.

    Não se refiram ao norte, não usem essa expressão, digam Porto.

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