Um conto da vida de Zé Pequeno (5)

(Continuando)

Todos os dias Zé Pequeno largava o trabalho e montado na sua bicicleta atravessava a Vila até Ribeiro Grande. Parava junto do pequeno quiosque fazendo-se distraído e mirava a serração. Seguia com atenção todos os movimentos por entre o gradeamento de ferro da frontaria, que lhe parecia uma fronteira. E todos os dias, via Luísa acompanhada por um homem de meia-idade de figura franzina no Ford V8 preto que parecia protegê-los de uma qualquer ameaça. “Deve ser o pai” pensava.

Percebeu então que pelo fim de tarde, Luísa costumava entrar no pequeno café onde demorava cerca de um quarto de hora, para depois regressar à fábrica. Era o melhor território para se fazer encontrado com ela. O melhor e o único.

Depois de dias de atalaia, levou por diante o seu plano. Num saco de pano acondicionado na grade da bicicleta, levou roupa limpa e os seus sapatos de festa. Após o dia de trabalho, o Senhor Nogueira guardou a bicicleta em sua casa, onde Zé Pequeno se lavou em pressas.

“Deita esta água de cheiro, homem. Se não vais a cheirar a sabão amarelo” disse o Senhor Nogueira segurando um frasco translúcido.

Na cabina do camião, Zé Pequeno ia descrevendo a figura delicada de Luísa e como lhe soara a um desejo a sua frase “Até mais ver”. Falava dela como se sentisse algo novo e que não sabia explicar. O camião parou a distância segura da serração e Zé Pequeno saltou do transporte, ajeitou a sua roupa e sorriu sem saber bem porquê. Logo apressou o passo em direcção ao café. Queria chegar antes de Luísa.

Entrou no estabelecimento com ar altivo, como se fosse cliente habitual e todos o conhecessem. Saudou distraidamente o empregado e pediu um quarto de águas, sentado-se defronte à vitrina, donde contemplava algo estranhamente novo. Alternava o seu olhar entre a vitrina e o relógio que pendia na parede. Apercebeu-se, então, quanto tempo demorava cada movimento pendular. Tornava-se até gracioso, aquele movimento que a ansiedade parecia fazer perdurar cada vez mais.

Surgiu então Luísa, caminhando pelo passeio em direcção ao café, que fez saltar Zé Pequeno da cadeira e o atrapalhou. De súbito já não se lembrava do que havia planeado fazer quando a mirasse. O pêndulo do relógio perdera as estribeiras e parecia ter entrado em pânico, como ele. Tentou repor a ordem nas ideias, mas elas pareciam estar contagiadas pelo pêndulo do relógio. De relâmpago, voltou a sentar-se, cruzou a perna e quedou-se numa nervosa tranquilidade.

Luísa entrou no café e seguiu com serena decisão para o balcão de madeira com tampo de mármore branca e rosa. O empregado cumprimentou-a com um sorriso de quem quer agradar e muito afoito fez descer sobre o tampo um copo alto e límpido, acompanhado de uma garrafa de gasosa. E ali se quedou ela, observando aquelas bolhitas de ar que se desgarravam e subiam para o rebentamento à tona da bebida. O seu olhar perdia-se naquela imagem numa calma de quem contempla.

Quem não estava nada calmo era Zé Pequeno, danado consigo mesmo por se ter portado como um parvo. Danado e confuso. Teria a Luísa visto-o e não o cumprimentara de propósito? Teria ele entendido mal aquele “Até à vista” ?

“Raios te partam, és mesmo néscio!” murmurou ele para si próprio, rangendo os dentes.

O seu orgulho mantinha-lhe o rosto voltado para a vitrina e já não lhe importava o mundo que se vislumbrava do outro lado do vidro. Era o seu rosto tenuamente reflectido que prendia a sua atenção. Uma imagem que aos poucos o começava a observar e a ganhar vida própria. Os olhares desafiavam-se e Zé Pequeno começava a sentir-se julgado.

“Por aqui?” ouviu ele uma voz cuja candura não combinava com a expressão grave do seu juiz. Voltou-se num ápice em total desacerto. Os seus olhos confrontaram-se com os de Luísa e renderam-se àquela paz. Levantou-se acompanhado pelo arrastar da cadeira numa lentidão em que buscava as palavras.

“Tenho um cliente aqui perto e decidi tomar umas águas” respondeu ele com imediato arrependimento que tentou esconder num largo sorriso. “Costumas vir aqui ou estás de passagem?” perguntou ao mesmo tempo que tamborilava os dedos no tampo da mesa, ritmando os seus nervos.

“Venho todos os dias. Venho dali da fábrica do meu pai” disse Luísa ao mesmo tempo que fazia suavemente pender o semblante em direcção à serração.

“Ah!” respondeu ele esforçando-se por mostrar admiração. “E trabalhas lá?”.

“Ajudo o meu pai. E tu, já visitaste o teu cliente?”.

“Qual cliente?” perguntou distraído.

A expressão de admiração de Luísa suou o alarme e logo Zé Pequeno se compôs: “Aquilo não é bem um cliente, é um conhecido… é um favor que lhe vim fazer” falando como se dissesse grande ciência.

“Faz-se tarde, tenho de voltar para a fábrica. Apareces amanhã para falarmos com mais calma? Ou não vens para estes lados?” .

De súbito lembrou-se do Senhor Nogueira. Como iria convencê-lo a dar boleia outra vez. E o banho?

“Ah, claro que sim, venho aqui para… venho, claro que venho. Eu acompanho-te até à fábrica?”.

Luísa anuiu com um sorriso que o fez segui-la como um devoto.

Era a primeira vez que passeava com Luísa. Pelo menos essa era a sensação que tinha. Passeava com a Luísa em plena rua, perante os olhares de toda a gente. Cada passo lhe dava maior confiança e afinco. E ele pensava como se despedir de Luísa, que frase haveria de dizer. As palavras que escolheria para que não fosse a sua frase esquecida mas antes lembrada.

Foi um curto mas delicioso trajecto aquele entre o café e o portão da serração. Pelo caminho, exercitava o seu humor e sua graça, impulsionado pelo regozijo do momento.

Quando Zé Pequeno se estancou ladeando Luísa, sorriu-lhe e preparou-se para a frase que havia já criado na sua mente.

Mas Luísa antecipou-se: “Então espero-te amanhã. Se vieres mais cedo podes vir ter comigo aqui à serração. Ficas a conhecê-la por dentro. Pode ser?”.

Zé Pequeno ficou atónito. Tentou falar mas só balbuciava. Quando por fim foi capaz de encontrar uma resposta, as palavras que lhe saíram soaram-lhe ridículas: “Tenho muito gosto”.

Despediram-se e Luísa depois de trespassar os portões, pareceu ser engolida por aquele monstro imóvel de pedra e cimento, de um cinzento sorumbático contrastado pelo verde dos caixilhos que rasgavam luz para o seu interior. No cimo, o beiral do telhado albergava as marcas da primavera em forma de ninhos de andorinhas, com grossos caleiros que compunham a abóbada. Era a primeira vez que Zé Pequeno deitava sentido ao edifício. Até então, só o encarava como uma barreira que se entrepunha entre ele e Luísa.

“Tenho muito gosto” repetia ele em silêncio “Tenho muito gosto”.

(Continua)

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