Ainda a Arte Contemporânea

Ainda a Arte Contemporânea

O post da Carla “É a Arte Contemporânea, estúpido” gerou uma série de comentários, sobretudo da parte dos amigos Carlos Ruão e Carlos Loures.

Como é matéria em que dificilmente podemos dizer onde é que está a razão, não são comentários fáceis de recomentar num repetitivo e redundante comentário. Por isso optei por voltar a falar do assunto, em forma de post.

Diz Carlos Ruão, no fim de um dos comentários, agora sim, podemos dizer: “É a Arte Contemporânea, estúpido”. Ora bem. Se há situações em que podemos dizer: ”É a Arte contemporânea, estúpido”, não tenho a menor dúvida de que há outras situações em que podemos, justamente, dizer: “Ó estúpida Arte Contemporânea, sou eu”.

 A frase “Muita da arte contemporânea assenta numa enorme estrutura discursiva, sem a qual ela pura e simplesmente viria abaixo e se tornaria indistinguível de um monte de lixo”, parece-me muito arguta, como é arguta a observação da Carla, dizendo que, não pondo no mesmo saco todas as manifestações da Arte Contemporânea, se sente levada a concordar com esta frase.

 O amigo Carlos Loures concorda que, atendendo aos comentários de Carlos Ruão, só um reduzido número de pessoas estaria em condições de apreciar as obras de arte. Diz ainda Carlos Loures, que se aprende a ver, e ao ver e compreender se aprende a gostar. Luís Moreira diz que aprendeu a gostar da pintura de Picasso depois de ler e ter tido a sorte de um madrileno lha ter explicado. Concordo com ele, menos no explicar, porque penso que a arte se aprende mas dificilmente se explica.

 Diz ainda o amigo Carlos Loures que uma boa operação de marketing vende bons e maus iogurtes, vende bons e maus livros, bons e maus quadros… E por isso, a reacção da Carla à permissividade da arte moderna em matéria de mistificação ou mesmo de pura aldrabice (sobretudo nas artes plásticas) é também a sua.

 E dirigindo-se a Carlos Ruão, adverte-o de que não é preciso estudar a fundo a obra de um pintor para poder emitir uma simples opinião, porque, nesse caso, a arte seria dirigida exclusivamente a um público muito reduzido de críticos de arte (avalizados por academias, por exemplo).

 Amigo Carlos Ruão, não é preciso dizer que estou de acordo com os amigos atrás citados, e não estou de acordo, de uma maneira geral, consigo.

 Porquê? Porque tudo isto é um fenómeno de neurobiologia. Os padrões neurais do ser humano, seja em que campo for, são idênticos na sua estrutura e funcionalidade, no que respeita a todos os mecanismos neurotransmissores, mas diferem no conteúdo dos conhecimentos que transportam e na íntima relação entre eles. Esses padrões neurais não são estanques nem específicos, e antes se interelacionam de uma forma complexíssima, através de triliões de conexões, pelas quais circulam todos os componentes de uma curva de aprendizagem cultural de uma vida inteira. E é desta aprendizagem global resultante das inúmeras, profundas e  permanentes correntes neuronais que lhe subjazem, e não da pseudo-cultura tantas vezes pobre e limitada dos manda-bocas da Arte contemporânea, que se trata.

 Não me venham dizer que uma opinião de um Carlos Loures, de uma Carla, de um Luís Moreira e tantos outros dos amigos do Aventar pode ser um problema da incomunicabilidade do homem actual com a arte do seu tempo surgindo de uma falta de leitura semiótica e iconológica do objecto que tem perante si (quando ele não corresponde à nossa «humanidade»). Quantos artistas se conhecem, e também dentro da Arte Contemporânea, que pouco oferecem em termos de discernimento mental, de sensibilidade e de inteligência. Formatados em esquemas mentais que julgam exclusivos de um grupo de iluminados, e que na realidade se situam muito aquém dos enriquecidos padrões neurais de pessoas a cujos calcanhares não chegam. Mais uma vez, “Ó estúpida Arte Contemporânea, sou eu”.

 O sentimento artístico tem uma certa parecença com o místico. É um sentimento quase indefinível, é um estado de hipersensibilidade, um desejo de experimentar ser-se de outra maneira, uma necessidade de sair do não autêntico, um quase sentir a verdade total e o amor universal. E, como todo o sentimento, ele é gerado a partir da força das emoções, sejam elas de que natureza  forem, neste caso fundamentalmente culturais.

 A obra pode ser o que somos e muito pouco do que lá está. Ninguém vê com os nossos olhos, ninguém sente com o nosso íntimo, ninguém pensa com o nosso pensamento. Não me venha dizer, Carlos Ruão que não se devem confundir as deficiências de «legibilidade» e sensibilidade pessoais com os supostos abusos da Arte Contemporânea e que se deve sempre separar o «trigo» do «joio», isto é, segundo depreendi do que disse, fazendo um juízo de valor sobre algo que se conhece, domina e se entende, diferindo da mera «opinião» assente em sensibilidades e «ilegibilidades» pessoais.

O mercado da Arte engendra formas, não de purificar a Arte, mas de divinizar a obra-objecto, endeusar e entronizar os autores através de cadeias de relações, validação de marcas e autorias, legitimações culturais e históricas, leilões e jogos de galerias, tantas vezes snobs, medíocres e subterrâneos, juízos de valor produzidos e caucionados por elites, elites por vezes mentalmente muito pobres, de acordo com os interesses e mais-valias que possam render. Senhores ditos muito cultos, servindo-se de exaustivos materiais bibliográficos, criadores de textos labirínticos com grande projecção pública, encerram o fenómeno artístico nas densas malhas das suas análises, fabricam convicções e preconceitos, maquetizam a liberdade dos sentimentos, e quando nos damos conta, já a Arte e a vida deram à sola. Mentalidades dirigistas, cheias de regras, liturgias e falsos mitos, que nos afastam da arte de viver a Arte. Vivemos num mundo dominado pela técnica, sufocados pelo egoísmo. Tudo ou quase tudo o que nos envolve é artificial e muitas vezes falso. Vivemos alienados e escravizados. Pena é que esta escravização tenha invadido e contaminado a expressão artística, sobretudo dentro da Arte Contemporânea.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Se a arte for  ou não passar de simples perícia, que pode ser padronizada, a minha mulher a dias é uma artista com o aspirador…

Deixar uma resposta

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.