Ética em que sentido?…

Olhando para todo o mediatismo que circunda a famosa “Comissão parlamentar de ética” , não deixo de sentir algum desprezo pelo que lá se passa.

É uma mera comissão permanente do Parlamento. Mais propriamente,  chama-se “Comissão de Ética, Sociedade e Cultura“. E, no entanto, está-se a fazer dela uma espécie de Santo Ofício para resolver os nossos republicanos males, o que, por si só, em termos conceituais é, desde logo, uma insanável contradição.

Tudo se passa no âmbito do julgamento político, enquanto a realidade jurídica e legal é arremessada para segundo plano. Cada vez menos importa o que faz a Justiça, ou tenta fazer, porque já nem se acredita. E, ali, naquela Comissão parlamentar de ética, temos festim todos os dias, há sempre alguém em palco para para manter o espectáculo em cena.

Quando olho para trás, recordo-me, por exemplo do Dr. Pina Moura ser Deputado da Nação e ao mesmo tempo presidir a interesses estrangeiros (Iberdrola). Algo que a Comissão de ética de então achou que não era motivo de incompatibilidade. Porque nada na Lei impedia tal acumulação.

Comissão parlamentar de ética?!

Quando no país o Parlamento é um aeroporto de luxo, onde se faz escalas técnicas entre altos voos de carreira?!

Entretanto, desautoriza-se professores, manipula-se factos, politiza-se a Justiça e a investigação criminal, mente-se descaradamente, delapida-se impunemente.

Perdeu-se a vergonha, o pudor, o pejo: que são a matriz do que é intrínseca e civilizacionalmente  popular, que são a referência moral  que se transmite de geração em geração, pela voz dos mais velhos. E, no entanto, discute-se ética: o ramo da filosofia que se dedica aos fundamentos da moral, o acervo de regras de boa conduta.

Na nossa pior tradição, continuamos a descurar o básico, e  a esbanjar no sofisticado.

Reconquiste-se primeiro a vergonha, e depois, sim, preocupemo-nos com a ética. Não se eleja para as instituições da República, quem não é digno de confiança, quem não tem vergonha. Mesmo porque quando se vota, não tem que se eleger.

Até lá, haja pelo menos algum respeito pelas palavras, pelo que elas significam, ainda que de modo despudorado se ponha a raposa a vigiar o galinheiro.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    Ninguem tem culpa de nada, ninguem respeita ninguem…

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