Eles ferram!

Eu confesso que já tinha reparado. Aliás, já toda a gente tinha reparado. O jornalista Ricardo Costa da SIC é um daqueles típicos casos de homem apaixonado pela política mas sem paciência para o trabalho de formiguinha obrigatório na vida partidária. O jornalismo é a escapatória.

Convinha ter cuidado, procurar disfarçar preferências, acautelar a voz do coração impondo a da razão. Não lhe peçam, nem a ele nem a mim nem a ninguém, equidistância, pureza absoluta de distanciamento ou uma ditatorial independência. Não se consegue sem se perder a espontaneidade, o brilho certeiro, a análise com substância. Nós não somos máquinas.

Ora, foi o João Carvalho, no Delito de Opinião, o primeiro que se atreveu a chamar a atenção para a prestação paupérrima de Ricardo Costa no Congresso do PSD. Estava eu a almoçar, com a SIC Notícias ligada e ouço o Ricardo Costa a dizer, mais coisa menos coisa, o seguinte: “Isso não interessa nada, então não foi no congresso que elegeu Cavaco que João Jardim falsificou assinaturas de delegados da Madeira que estavam a dormir? E quem hoje se lembra disso, o importante foi que dessa forma Cavaco venceu e o PSD teve 10 anos de glória”. Confesso, fiquei com o maravilhoso covilhete da Gomes entalado entre os dedos e a boca. Desculpe, disse? Isso não interessa nada? Então o que importa é vencer, sejam quais forem os meios utilizados?

O que Ricardo Costa disse foi de uma franqueza que nem o próprio controlou. Publicamente disse aquilo que todos nós já desconfiamos há muito: o grupo dos Barões e baronetes do PSD, o mesmo de Pacheco Pereira, não olha a meios para atingir os fins, no caso, vencer eleições internas e perpetuar-se no poder laranja. A forma como Ricardo Costa, desde os debates e continuada com denodo no Congresso, defende esse grupo, o desculpabiliza de eventuais batotas e se esforça por puxar pelo Paulo Rangel, hoje joguete desse grupo de interesses, demonstra algo ainda mais perigoso: eles dominam, igualmente, parte da comunicação social que odeia o PSD mas precisa desta componente do bloco central de interesses para sobreviver. Eles comem os seus scones e bebem o seu chá verde à mesma mesa, partilham talheres e limpam-se ao mesmo guardanapo. E nós, papalvos provincianos, pagamos a despesa.

Eles não querem que Pedro Passos Coelho vença. Justiça lhes seja feita, já nem disfarçam. Devemos compreender e ser tolerantes. Ninguém gosta que lhe tirem a comida da boca. A minha cadela costuma rosnar perante situações análogas. Desconfio que possa ferrar. Destes, não desconfio, já senti na pele: eles ferram!

Comments


  1. Mas não é assim a pequena política? Um palco de cobardes, fuinhas, lambe-botas e sanguesugas? Um bando de interesseiros? Um ringue onde vale tudo, incluindo tirar olhos? Vê bem, vais ver que é assim essa pequena – minúscula – política.

  2. Luis Moreira says:

    Tambem ouvi! O PRD, começou a cair quando nas eleições para as Câmaras houve casos desses.Falsificar assinaturas para se ir a tempo de meter as listas no tribunal. As pessoas existiam mas não estavam no momento certo e no lugar certo para asssinar. Começou aí a derrocada, mas era no tempo em que havia ética, dava-se importância a essas coisas. Agora o Ricardo Costa até esgrime isso como argumento. Isto mudou e mudou para pior!

  3. Ricardo Santos Pinto says:

    Acreditas mesmo que o Passos Coelho é diferente de todos os outros?

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