"Masturbam homens de aspecto decente em vão de escada"? Corta!

Era eu uma cumpridora aluna do Ensino Secundário quando,  achando suspeito que os poemas de Álvaro de Campos que constavam no nosso manual de Português tivessem tantas reticências, fui procurar os mesmos poemas nas edições completas e descobri que as reticências correspondiam a uma censura. Por exemplo, na “Ode Triunfal”:

“Ah, e a gente ordinária e suja, que parece sempre a mesma,

Que emprega palavrões como palavras usuais,

Cujos filhos roubam às portas das mercearias

E cujas filhas aos oito anos — e eu acho isto belo e amo-o! –

……………………………………………………………

A gentalha que anda pelos andaimes e que vai para casa

Por vielas quase irreais de estreiteza e podridão.”

Ora, onde estava essa longa linha de reticências  deveria estar:

“Masturbam homens de aspecto decente nos vãos de escada.”

Nesse dia, e reparem como foi tarde que isso aconteceu – afinal, era já o ensino secundário – perdi a confiança na escola. Não a abandonei nem me iniciei nas drogas. Mas percebi que a instituição responsável pela minha instrução podia ser moralista, tendenciosa, manipuladora e retrógrada. Decidi que havia que fingir acreditar em tudo o que ela me dissesse, mas vigiar-lhe cada passo e habilitar outras, múltiplas, vias de aprendizagem.

A escola, como todas as outras instituições tutelares, tinha aquilo que agora é moda chamar de “agenda escondida”. Parte dessa agenda dizia que quanto menos soubéssemos sobre o sexo melhor seria para nós. Por isso, nas aulas de Biologia fazíamos uma passagem rápida pelas páginas do manual que nos mostravam a composição e modo de funcionamento dos aparelhos reprodutores feminino e masculino, avançando em seguida para o capítulo “Concepção e nascimento”. Como é que o espermatozóide se via, subitamente, e decerto para grande espanto seu, ele que ainda há pouco estava no tranquilo aconchego do testículo, a avançar a toda a velocidade pelo colo do útero acima era um mistério digno do divino Espírito Santo.

Os sacanas não nos contavam a verdade toda e nós tínhamos de compactuar com a farsa. Era uma espécie de guerra fria. A sobrevivência dependia do aperfeiçoamento de nervos de aço, da gestão de silêncios e da obtenção de informação.

Não inteiramente contentes com os conhecimentos que havíamos conseguido adquirir, um dia resolvemos, no nosso grupo de amigas, empreender uma missão arriscada mas que poderia conceder-nos dados essenciais. A Rosa e eu fomos escolhidas para a levar a cabo. A Rosa porque era a mais encorpada, parecia cinco anos mais velha do que era, e eu porque tinha lata. Fomos de autocarro para uma zona da cidade onde corríamos poucos riscos de encontrar alguém conhecido, dirigimo-nos a um quiosque num sítio discreto, e compramos o jornal “Sexus”. Aprendemos pouco mas fartamo-nos de rir.

Após uma descoberta tão impactante como fora a da censura nos manuais escolares há um tempo de assimilação do choque. Uns dias depois, fui atingida pela constatação, que caiu sobre mim como um relâmpago: se nos censuram os versos do senhor engenheiro naval, quantas mais coisas nos censurarão?  Do arrazoado de matéria que nos debitam, que será verdade, que será mentira, que estará incompleto, fragmentado, mal interpretado? E como sabê-lo?!

Caindo o mito da fiabilidade dos ensinamentos oferecidos pela escola, um adolescente tem que se agarrar a qualquer coisa. E sobrevive-se, claro, faz-se pela vida. Pode-se cair no cinismo, que é fraca pecha, ou tornar-se aprendiz do oficio da dúvida, que nunca há-de dar o conforto da certeza, mas tampouco deixará o espírito desnutrido.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    O problema não consistia na masturbação no vão de escada, mas nas filhas de OITO anos.

  2. Carla Romualdo says:

    De acordo, Nuno, mas em que medida é que isso valida a censura?

  3. Luis Moreira says:

    A mim até me colocaram um bilhete escrito na carteira para estar sempre à vista.” És um rapaz fraco” leia-se cais facilmente na tentação! Por acaso nisso eles tinham razão. Não lutava nada contra a tentação…

  4. Talvez... says:

    Ou colocavam o poema todo, ou não colocavam nada. Agora apresentar poemas às postas, como se fosse um bacalhau ou uma pescada na peixaria…

  5. Daniela Major says:

    Dei a Ode triunfal este ano e não fazia ideia. Obrigada Carla. Quanto ao cáracter de censura da escola isso já o sabia…basta abrir um manual de História.

  6. Talvez... says:

    Daniela Major :
    Dei a Ode triunfal este ano e não fazia ideia. Obrigada Carla. Quanto ao cáracter de censura da escola isso já o sabia…basta abrir um manual de História.

    Então quando são as referência à Primeira República e ao Estado Novo/ 25 de Abril/ PREC, é cortar onde lhes convém


  7. A censura é prévia à escola: a edição da Ática já tinha em muitos casos destruído vários poemas.
    Uma embrulhada da qual a família, que nunca lhe ligou nenhuma em vida mas soube alambazar-se à herança, tem uma grande responsabilidade.
    Quanto à escola, serve para isso mesmo: formatar a miudagem na moral e nos bons costumes.
    Se isso te compensa, deixa estar que no meu tempo de Pessoa só o Mar Salgado…

  8. Antonio Soares says:

    Sempre fomos falsos moralistas…

  9. maria monteiro says:

    agora os jovens do 12ºano têm a “Ode Triunfal” completa… mas nem todos os professores são capazes de despertar o gosto interpretativo dos alunos.

  10. Talvez... says:

    maria monteiro :
    agora os jovens do 12ºano têm a “Ode Triunfal” completa… mas nem todos os professores são capazes de despertar o gosto interpretativo dos alunos.

    Não, não têm. Se a querem completa só na Internet.

  11. Carla Romualdo says:

    O pior é que, a julgar pelos comentários da Daniela e de Talvez a censura continua e isso é que eu não imaginava

  12. maria monteiro says:

    bem eu estou a ver o livro do 12ºano e está completa

  13. Talvez... says:

    maria monteiro :
    bem eu estou a ver o livro do 12ºano e está completa

    Eu também e não está.

  14. Talvez... says:

    Aliás, da parcela de que o post fala, não aparece um verso no meu livro.


  15. No caso da História, e aqui sei muito bem do que falo, o problema não é a censura: é a tentativa de impor no 12º ano uma série de questões polémicas como não o sendo.
    Até aceitava algumas delas, desde que a disciplina se chamasse outra coisa que não História.

    Daniela Major :
    Dei a Ode triunfal este ano e não fazia ideia. Obrigada Carla. Quanto ao cáracter de censura da escola isso já o sabia…basta abrir um manual de História.

  16. Talvez... says:

    João José Cardoso :
    No caso da História, e aqui sei muito bem do que falo, o problema não é a censura: é a tentativa de impor no 12º ano uma série de questões polémicas como não o sendo.
    Até aceitava algumas delas, desde que a disciplina se chama-se outra coisa que não História.

    Não é a imposição de questões polémicas, mas a imposição de pontos de vista e tendência. Eu, a História, quando dei a Implantação da República só se fala negativamente de tudo o que é monárquico, não deixando de fora generalizações erradas. Muitas vezes, estas propagandas e tendências não são explícitas, mas conforme as escrevem, os alunos são induzidos a pensar coisas menos fidedignas.

  17. Talvez... says:

    Esqueça o meu comentário anterior. Apercebi-me agora que me limitava a repeti-lo.

  18. maria monteiro says:

    verdade? então Talvez, talvez tivesse sido roubado, censurado, apagado … do seu livro senhor Talvez

    está la direitinho na pagina 143
    não faço scaner comprovativo porque tem anotações duma entendida em Alvaro de Campos e lá teria de pagar direitos de autor à Inês

  19. Talvez... says:

    maria monteiro :
    verdade? então Talvez, talvez tivesse sido roubado, censurado, apagado … do seu livro senhor Talvez
    está la direitinho na pagina 143
    não faço scaner comprovativo porque tem anotações duma entendida em Alvaro de Campos e lá teria de pagar direitos de autor à Inês

    A minha edição (Abordagens|12º ano), da Porto Editora, amplamente utilizada, não tem. Está lá, cortado, mas está, da página 94 à 97.

  20. maria monteiro says:

    então eu tenho para troca da pag 138 a 145
    Lisboa Editora (Antologia- 12º ano)

  21. maria monteiro says:

    Claro que não é só o ensino do que vem nos livros … há todo um conjunto de actividades pedagógicas que as disciplinas pedem dos professores, dos alunos, dos pais… por exemplo amanhã pelas 6 da manhã a escola onde anda o meu filho vai aoTEP assistir à representação de “Felizmente há luar”

  22. Talvez... says:

    maria monteiro :
    Claro que não é só o ensino do que vem nos livros … há todo um conjunto de actividades pedagógicas que as disciplinas pedem dos professores, dos alunos, dos pais… por exemplo amanhã pelas 6 da manhã a escola onde anda o meu filho vai aoTEP assistir à representação de “Felizmente há luar”

    Bastante cedo, então.
    Eu também fui assistir a outra representação, também do Felizmente Há Luar.


  23. maria monteiro :
    Claro que não é só o ensino do que vem nos livros … há todo um conjunto de actividades pedagógicas que as disciplinas pedem dos professores, dos alunos, dos pais… por exemplo amanhã pelas 6 da manhã a escola onde anda o meu filho vai aoTEP assistir à representação de “Felizmente há luar”

    Não consigo perceber porque raio continuam a venerar o Felizmente há luar. Obra fraca e pelos visto plagiada. Só consigo imaginar permaneça de pedra e cal pelo apoio que os sectores de esquerda lhe deram e, nomeadamente, a maçonaria, que viam na obra um símbolo maior da resistência…enfim. Aprender ideologias em vez de aprender a escrever é o que faz deste país uma bambochata.

  24. maria monteiro says:

    Objectivos da visita de estudo:
    – assistir à representação da peça Felizmente há luar!
    – permitir aos alunos o confronto do texto estudado em aula com o texto representado em palco
    – desenvolver o gosto pelo teatro
    – conhecer a cidade do Porto

    Quanto a mim isto não é aprender ideologias …é que o luar quando nasce é para todos … até mesmo para os que não querem vê-lo

  25. André Duarte says:

    Talvez… :

    maria monteiro :
    agora os jovens do 12ºano têm a “Ode Triunfal” completa… mas nem todos os professores são capazes de despertar o gosto interpretativo dos alunos.

    Não, não têm. Se a querem completa só na Internet.

    Têm sim… completei o Secundário há pouco tempo e a Ode Triunfal estava completa no livro da disciplina de Literatura Portuguesa. E sei que estava, porque me lembro perfeitamente de ter reparado neste verso aqui citado durante uma das aulas

  26. Talvez... says:

    livro da disciplina de Literatura Portuguesa. E sei que estava, porque me lembro perfeitamente de ter reparado neste verso aqui citado durante uma das aulas

    Literatura Portuguesa. O que a grande massa dos alunos tem é apenas Português, onde (ao que parece) a presença integral do poema varia de edição para edição.

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