antropologia da criança

Huaso é uma denominação das pessoas ligadas a atividade pecuária em regiões de ocorrência de campos naturais do vale do Chile.

Tinha guardado este texto e não lembrava. Publico-o agora, escrito como foi desde um Ande da Cordillera de los Andes, texto que foi difícil de enviar por Internet pelas altitudes que cercavam os vales onde eu investigava. Publico-o na altura em que o Chile está dobrado mas não partido.

‘Losotros haulamos dos idiomas’ *

1. É o que diz Marcelo Castro Morales, o puto de dez anos que estudou comigo. Uma das quinze crianças a quem a escola C40 de Pencahue permitiu participar na pesquisa por mim realizada, no frio Inverno chileno.

‘Nós falamos duas línguas, o castelhano e a huasa’. Viva polémica é desenvolvida entre as crianças, dentro da pequena sala que nos cederam para os trabalhos. Trabalhos, como o Director do Complejo Educacional de Pencahue, ou Escola C40 no jargão oficial, afirmam que é o meu trabalho com as crianças: ensinar não sabe o quê, desse estrangeiro, sábio Doutor, às 15 crianças, escolhidas de entre os melhores dos 1.600 estudantes do ensino pré-primário até à opção pré-universitária, da população de 9.000 habitantes dos seis sítios rurais e industriais pelos quais a comunidade chilena-picunche se estende em 1.000 Km2 de superfície.

Quinze crianças que falam entre elas enquanto eu falo, que dão pontapés eles a elas, que elas delatam, que eles agarram, que elas ouvem, que eles já sabem, que elas ficam calmas, que eles se batem enquanto olham inocentes nos meus olhos, que…

Pegamos no caderno, no lápis e na borracha e vamos para a rua, hoje com nomes. De capitães. Do Conquistador do Chile, Pedro de Valdivia. Ruas que conhecem pelo nome dos seis espanhóis que o imaginário de 90 anos fantasiara que aí tinham andado.

Esses olhos pretos, das caras cor de óleo escuro, ficam brilhantes. De ir porta a porta pelas casas da vila central da espalhada comuna, mostrando-se surpreendidos à medida que iam entendendo o seu contexto. Foi o que Marcelo Castro disse no primeiro minuto do nosso trabalho: ninguém sabia, nas casas, quem era a pessoa que dava nome à rua, assim como não sabiam a idade da casa. Mas, a Francisca Castro, outra das descendentes de Castro que aí moram, ocorre-lhe perguntar pela idade e genealogia da pessoa: o que Gustavo Cáceres, Javier Muñoz, e Yarin Contardo repetem. Estes, de entre os quinze, de 10 e 11 anos de idade, que o senhor Director mandou trabalharem comigo nesse frio e comprido Inverno. Os seus apontamentos, acumulam contradições entre o livro de texto do 5º ano básico e o saber cultural que orienta ideias, interacção e disciplina entre adultos e infância. Que desloca a fala quotidiana do haulamos para a oficial do hablamos (falamos). Duas línguas, dois saberes.

2. Marcelo tem razão, falam duas línguas. E dentro das duas, mais duas. Pencahue, palavra mapudungum dos nativos picunche do Vale da Cordilheira, foi abatida em 1569 pelos colonizadores judeus, mouros, ciganos, galegos, lusitanos, que a Coroa Castelhano-leonesa conquistou na Península Ibérica desde o séc. XV. E que os, ignorados por eles, mestiços chilenos, denominam espanhóis. Como os louros professores ensinam nos doutos livros oficiais. Como vestem os patrões, possível de perceber na imagem de entrada do texto.

Em tempo de trabalho, a vestimenta é outra. Especialmente entre jornaleiros, a maior parte da população chilena:

Huaso,também desiginados por inquilinos por serem pagos em terras que a família deve trabalhar.

Pencahue, ou Terra do Cabaço, em Talca, do original Tralca ou Trovão. Abatida em 1569 pelas armas, os seus 1.500 anos de saberes, ideias, tecnologia, a sua cosmovisão reguladora da vida social, substituída pela da poderosa aliança política da dita Coroa e a Tiara do Papado Católico Tridentino. Nada do dito, exprimido ou sabido pelos doutos investigadores, docentes, e futuros desempregados, os discentes. Das ruas de Pencahue e o saber já que íamos falar quatro línguas em duas, a castelhana oficial, a predominante castelhana do séc. XVI que troca L por R, e F por J, O por U ou a castelhana huasa com palavras mapudumgum e a das palavras proibidas, que perdeu nestes dias a força do insulto porque é escrita e já a ninguém irrita o seu uso e, por último, a que me ensinaram, língua que eu não conhecia: o chileno, que é mestiço.

Percorremos a área até chegarmos ao cemitério indígena de Huenchumali (irmão-irmã) a primeira reserva de nativos aí fechados para aprenderem a doutrina europeia, que Dalí tão lindamente desenhara nos anos 60 (vide o meu Fugirás à Escola… capa). E aí, nessa igreja de barro de 1569, no cemitério Picunche dos seus ancestrais espancados, violados, queimados, abatidos, acorrentados, estes meus quinze putos pencahuinos entenderam a diferença entre o que é preciso saber para ganhar dinheiro para se reproduzirem no neo-liberalismo e o que é preciso saber para o convívio, a afectividade, a comunicação entre seres humanos que, ou conhecem a sua identidade, ou não conseguem os apoios emotivos da população da terra, para sobreviverem neste país, série de controlo de economias, saberes e medicinas, antes de serem usados na etnia etnocêntrica da Europa. É o que, com Paulo Freire, Meyer Fortes e Jack Goody, fomos fazendo, Antropologia da Educação, ou a análise in situ da formação do saber. Ao que o meu amigo Pierre Bourdieu resiste como Pedagogia. E que nós teimamos aprender no convívio com a infância.

* Texto resultante da pesquisa efectuada durante o Inverno de 1998

Doutor Raúl Iturra.

Professor Catedrático de Antropologia Social, I.S.C.T.E., Lisboa.

Membro do Senado da Universidade de Cambridge.

Professor Visitante da Universidade do Porto.

Professor Visitante do Instituto Profesional del Valle Central,

Talca, Chile (Convénio Chile-Portugal).

Pencahue, 20.08.98

Comments

  1. Albano Coelho says:

    Um texto brilhante, como sempre.

  2. Raul Iturra says:

    Caro Albano Coelho,
    Muito obrigado pela paciência de ler o meu texto e do comentar, em palavra breves. O escrevi num Ande – a cordilheira é de Los Andes, é dizer, de imensos degraus de terra, todos eles vales com funções específicas para o cultivo, o gado e a habitação. Os mais perto do mar, é onde as pessoas vivem. Na medida que começa a subir, a raridade do oxigénio dá outra orientação ao vale. Eis porque os animais são cuidados nas partes mais altas e a razão para serem pequenos, como a llama e a vicunha. As hortaliças, são cultivadas nas partes mais baixas. Andes significa em Quechua vale, de diversas altitudes. Enquanto mais alto subimos, mais é difícil respirar. É o motivo pelo que os guarani do Uruguai e os Aimara da Bolívia – também há no Norte do Chile – consomem coca directamente das árvores para respirar e manter as suas forças. A mente da criança sabe disso e se defende, como fazem os seus adultos. Morar na Cordillera de los Andes não é nenhum prazer. Os Inca escolheram a parte do meio, mas também deviam andar lentos, para não usar o pouco oxigénio que tinham. E dá sono, muito sono!

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