maria fernanda loureiro

homenagem a uma compatriota, conhecia à moda etográfica de Lewis

Conheci a Maria Fernanda, pelos anos 80 do Século passado, mais precisamente em 1988. Tinha 22 anos, magra, alegre, sempre com um sorriso, a tomar conta das crianças com as limpezas que fazia na escola e as comidas que preparava para as crianças que trabalhavam connosco na escola. Os seus pais são Manuel Marques Loureiro e Elvira de Jesus de Loureiro. O seu irmão, o amigo e compadre Ramiro Vítor Loureiro, casado com Fátima Abrantes e pais de Sara, a minha afilhada.

Maria Fernanda ajudava imenso em preparar a escola na que nós, os doutores, trabalhámos com as crianças de Vila Ruiva, essa sua aldeia, essa a minha Pátria. Limpava todo o que as 40 crianças sujavam nos tempos livres de aulas, a brincar ou a ser família, ou a escrever livros, ou serem doentes de hospital – na minha equipa havia uma médica, para se doutorar comigo em etnomedicina. Maria Fernanda ia ajudando a equipa de cinco que éramos, para entender a mente cultural das crianças, cada um a sua laia e com o seu objectivo. Acabadas essas eternas manhãs – as crianças cansam, especialmente se são 40 – Maria Fernanda limpava todo e trabalhava tempo extra para que o professorado não tiver queixas. Esse professorado manhoso, que felizmente já não estão ai: retirados e enriquecidos com altos ordenados e pedidos de presentes pouco simpáticos.

Maria Fernanda tinha que suportar estes senhores, e soube faze-lo bem. Nunca ouvi uma queixa sobre o seu comportamento, bem ao contrário, só louvores. Tinha que ser assim: esses docentes tomavam vantagem do seu sítio de servir, para limparem a casa, a custo do Estado. Nem meio tostão a mais pelos trabalhos feitos durante o seu tempo de trabalho.

Sabia que eu era estrangeiro e quando as crianças não percebiam o meu português, ela explicava e eu agradecia. Facilitava a vida, facilitava a minha vida estrangeira na sua terra, explicava em bom português o que eu queria dizer. Era uma boa auxiliar não apenas da escola, bem como de todos nós.

Casou com Abel Cabral Mendes, de Rio de Moinhos. É sabido que, se vêm de fora, levam a alcunha da pessoas da terra, pelo que para nós era Abel da Fernanda. Tiveram duas lindas filhas, Fátima e Rosa, a primeira enfermeira, a mais nova, cabeleireira.

Os seus netos eram a alegria de Maria Fernanda e do Abel.

Um dia qualquer, começou a não se sentir bem. No hospital há sempre sentenças. Esta foi de cancro ao pulmão. Curto. Brutal. Diagnóstico. Foi preciso pedir baixa da escola, ir ao hospital, do qual apenas saiu hoje, após falecimento a 1 da madrugada. Causa? Cancro ao pulmão, esses que matam por asfixia. Para uma pessoa que nunca fumou.

A vida é cruel e não dá paz nem alívio

O seu irmão enviou-me esta mensagem: Olá Doutor Raúl, é com muita tristeza que lhe comunico a morte da minha irmã Fernanda.

Um abraço do seu amigo Vítor Loureiro.

Lamento. Profundamente. Ela continuara a trabalhar connosco, após ano e meio de pesquisa em Vila Ruiva, com Claire Summer Smith e comigo. Nos verões escaldantes de Vila Ruiva, nos invernos sem trégua da aldeia.

Ficam viúvo e órfãos. Tenho telefonado para Vila Ruiva. Todos sabiam todo. Todos estavam pesarosos, especialmente o seu irmão, o meu amigo e compadre. Mas, também, calmos, sabem que a vida começa e acaba, ainda que nem sempre tão cedo, aos 54 anos.

É o trabalho dos Antropólogos: analisamos os seus sentimentos e ideias, referimos as suas histórias de vida que nos confidenciam e que nós calamos, apenas teorizamos sem identificar a pessoa em questão.

A vida da ciência é dura, mas é bem pior a de quem alegremente vive e, sem dar por isso, a morte está a espera a volta do canto da rua. O imposto que pagamos por ter vivido.

Impostos e morte, morte e impostos, factos certos e seguros na nossa vida. Absolutamente dissemelhantes, excepto que a morte também, com este governo, paga imposto de funeral, arancel de capela ardente, direitos pela terra que acolhe ao corpo. O imposto que pagamos por ter vivido.

Que vou dizer a Maria Fernanda? Essa mulher que se amargurou com a doença?

Apenas a família, crente e de fé: que a vossa divindade vos acompanhe e vos entregue outra compensação.

A dor será cumprida, mas passa, estão as filhas, as netas e o viúvo para tratar deles

Vítor, compadre, amigo, obrigado por comunicar-te comigo. Momentos duros, especialmente para os pais que perdem uma filha, Manuel e Elvira devem ser consolados.

Lá vai o meu abraço e este texto que conta como uma auxiliar da escola ajudou a um homem de ciência e ao seu grupo de colaboradores 

casa, a custo do Estado. Nem meio tostão a mais pelos trabalhos feitos durante o seu tempo de trabalho.

Sabia que eu era estrangeiro e quando as crianças não percebiam o meu português, ela explicava e eu agradecia. Facilitava a vida, facilitava a minha vida estrangeira na sua terra, explicava em bom português o que eu queria dizer. Era uma boa auxiliar não apenas da escola, bem como de todos nós.

Casou com Abel Cabral Mendes, de Rio de Moinhos. É sabido que, se vêm de fora, levam a alcunha da pessoas da terra, pelo que para nós era Abel da Fernanda. Tiveram duas lindas filhas, Fátima e Rosa, a primeira enfermeira, a mais nova, cabeleireira.

Os seus netos eram a alegria de Maria Fernanda e do Abel.

Um dia qualquer, começou a não se sentir bem. No hospital há sempre sentenças. Esta foi de cancro ao pulmão. Curto. Brutal. Diagnóstico. Foi preciso pedir baixa da escola, ir ao hospital, do qual apenas saiu hoje, após falecimento a 1 da madrugada. Causa? Cancro ao pulmão, esses que matam por asfixia. Para uma pessoa que nunca fumou.

A vida é cruel e não dá paz nem alívio

O seu irmão enviou-me esta mensagem: Olá Doutor Raúl, é com muita tristeza que lhe comunico a morte da minha irmã Fernanda.

Um abraço do seu amigo Vítor Loureiro.

 

Lamento. Profundamente. Ela continuara a trabalhar connosco, após ano e meio de pesquisa em Vila Ruiva, com Claire Summer Smith e comigo. Nos verões escaldantes de Vila Ruiva, nos invernos sem trégua da aldeia.

Ficam viúvo e órfãos. Tenho telefonado para Vila Ruiva. Todos sabiam todo. Todos estavam pesarosos, especialmente o seu irmão, o meu amigo e compadre. Mas, também, calmos, sabem que a vida começa e acaba, ainda que nem sempre tão cedo, aos 54 anos.

É o trabalho dos Antropólogos: analisamos os seus sentimentos e ideias, referimos as suas histórias de vida que nos confidenciam e que nós calamos, apenas teorizamos sem identificar a pessoa em questão.

A vida da ciência é dura, mas é bem pior a de quem alegremente vive e, sem dar por isso, a morte está a espera a volta do canto da rua. O imposto que pagamos por ter vivido.

 

Impostos e morte, morte e impostos, factos certos e seguros na nossa vida. Absolutamente dissemelhantes, excepto que a morte também, com este governo, paga imposto de funeral, arancel de capela ardente, direitos pela terra que acolhe ao corpo. O imposto que pagamos por ter vivido.

 

Que vou dizer a Maria Fernanda? Essa mulher que se amargurou com a doença?

Apenas a família, crente e de fé: que a vossa divindade vos acompanhe e vos entregue outra compensação.

A dor será cumprida, mas passa, estão as filhas, as netas e o viúvo para tratar deles

Vítor, compadre, amigo, obrigado por comunicar-te comigo. Momentos duros, especialmente para os pais que perdem uma filha, Manuel e Elvira devem ser consolados.

Lá vai o meu abraço e este texto que conta como uma auxiliar da escola ajudou a um homem de ciência e ao seu grupo de colaboradores

Comments

  1. Caro Raul Iturra

    Somos finitos, pelo menos enquanto matéria!
    Se todos nós, desde a mais tenra idade, aprendêssemos a lidar com a morte, como o destino natural que nos espreita a cada curva do caminho, talvez fôssemos menos possessivos, menos gananciosos e mais fraternos. É pena que a morte, na n/ sociedade seja um assunto tabu.
    Devemos aprender a viver uns com os outros tendo sempre em mente que hoje pode ser o último dia em que estaremos aqui… e assim a vida será mais fácil e vivida com mais sabedoria!
    Eu sou uma doente oncológica (mama) talvez me cure, talvez não! Mas que importa se morro disto ou daquilo?! O que importa é como vivo, como sou amiga, como amo, se sou solidária, se sou justa. É isso que deve contar e pautar os nossos dias!

    • Luís Moreira says:

      Claro que cura, Ana! A mãe do meu filho tambem teve esse problema, a médica dela diz que de mil mulheres que lhe passaram pelas mãos só 2 correu mal, e por terem sido diagnosticadas muito tarde!Força!

  2. Caro Luis

    Grata pelo encorajamento!
    Mas no fundo o que eu quis transmitir no m/ comentário, é que fiquei mais desperta e sensível para uma melhor convivência c/ os outros e a possibilidade da morte (tenho 55 anos) não me atormenta agora (tanto) como no passado.

    • Luís Moreira says:

      Cara Ana, morrer quando tiver que ser, sem sofrimento e acompanhados, não é tragédia nenhuma.É o fim lógico de uma vida vivida!

  3. Raul Iturra says:

    Agradeço as palavras escritas, agradecimento meu e da família, especialmente os meus amigos Ramiro Vítor e Fátima, irmão e cunhada. A morte é a morte e, como os impostos, não apenas está marcada, está também no canto da rua. A morte acaba com que vai embora e faz triste aos que ficam…especialmente aos velhinhos, os pais…

  4. rosa loureiro mendes says:

    olá Doutor sou a Rosa a filha mais nova da Fernanda gostei da homenagem que fez á minha mãe. ela era uma pessoa que gostava muito de trabalhar e sempre teve a sorte de trabalhar no que gostava que eram as crianças. obrigado por se lembrar dela neste momento tão dificil. Um abraço

  5. Ramiro Loureiro says:

    Ontem foi uma missa em homenagem á minha irmã Fernanda. Amigos e familiares compareceram para rezar pela sua alma. A saudade continua mas acreditamos que depois de tanto sofrimento a sua alma está em paz. Obrigado a todos neste momento difícil. Beijinhos

  6. rosa mendes says:

    no sabado fez um mês que a minha mãe morreu e mais uma vez foi feita uma missa em sua homenagem. familiares e amigos compareceram. Ela está longe mas perto do nosso coraçao. Obrigado a todos os que nos acompanham neste sofrimento

  7. Amélia says:

    Senhor doutor: Pelo telefone, foi com profunda desolação que soube da perda desta pessoa tão querida … A Fernanda sempre pronta a ajudar, a atender ao chamamento da vizinha, a oferecer os seus préstimos. Mais tarde a receber o apoio, o carinho apesar do sofrimento dos últimos tempos de vida que os tratamentos lhe provocavam. Nosso Senhor já tem a sua alma perto Dele pois a sua vida assim lho permitiu.
    Em 1988 a Fernanda era mais velha do que o senhor Doutor diz no seu texto e agora quando faleceu tem mais idade do que o senhor Doutor refere. A Fernanda à data supra era contínua da Escola do 1º Ciclo do Ensino Básico de Vila Ruiva, presentemente Auxiliar da Acção Educativa, como tal o seu trabalho era manter o edifício escolar e espaço envolvente limpos e criar um bom ambiente entre os alunos, professores, a outra auxiliar e comunidade envolvente.

  8. Fernando says:

    Mais um mês se passou desde que a “nossa” Fernanda nos deixou. Cumpre-me associar-me a todos os que sofreram ou sofrem com a perda deste ente querido, familiar ou simpre amigo, Também, como todos os que a conheceram e com ela conviveram, penso quão injusta e cruel a vida é por vezes. Como pode tanta energia, que ela brotava por todos os poros, perder-se num espaço de tempo tão curto e tão doloroso. Que Deus lhe dê no céu o descanso que ela sempre se recusou a ter na terra. Esta é a minha homenagem sincera e sentida.
    Fico espantado com outros considerandos aqui invocados pelo Sr. Dr. que não tenho prazer nem desprazer em conhecer, mas que acho ridículos quando se invoca um momento que se presume de dor. Acredito que o rigor que o Sr. colocou nas suas palavras, seja o mesmo que colocou nas contas que fez no que diz respeito às datas e contagem dos anos que constam do seu texto.
    Os crentes como a Fernanda, rezem-lhe “pai-nossos” pela alma. Os não-crentes, respeitem a sua memória

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