PT, Telefónica, Vivo e o ‘Socialismo Neocolonial’

A trilogia ‘PT – Telefónica – Vivo’ converteu-se em romance. Com contornos de maior ‘suspense’, após o uso pelo Estado Português de poderes conferidos pela golden share na PT. Os discursos e intervenções subiram de tom. Uns a favor, outros contra. E aguarda-se a deliberação de Bruxelas, mesmo sem eficácia imediata.

Os opositores ao uso dos citados poderes, em geral, refugiam-se no argumento de que não foram respeitados os interesses dos accionistas – e eu exclamo e que espécie rara de accionistas! BES, Ongoing e Visabeira. Todos adquiriram acções da PT, sabendo da posse da golden share pelo Estado, assim como dos direitos e consequências inerentes. Agora, os mais usurários revelam surpresa e discordância à opinião pública.

De tantos ditos e contraditos, há até comportamentos de pasmar. Há um mês, o sinistro banqueiro de todos os regimes, o Dr. Ricardo Salgado do BES, defendia que o Estado deveria accionar a golden share para contrariar a compra da Vivo pela Telefónica; ontem, em declarações proferidas em Cabo Verde, disse o contrário e mais: agora há o perigo da operadora espanhola lançar uma OPA sobre a PT. De patriótico, já muitos sabíamos, Ricardo Salgado não tem migalha ou gota, como há semanas fazia notar a insuspeita escritora Rita Ferro. E está bem acompanhado por ‘compagnons de route’ de refinada ética, os empresários da Ongoing e da Visabeira. ‘Day after day’, as coisas mudam. Hoje o jornal ‘i’ anuncia que Salgado também terá dito que se houver uma OPA da Telefónica sobre a PT, o Estado deverá opor-se através da ‘golden share’. Enfim, contradições atrás umas das outras.

Deixemos, agora, a negociata dos ilustres accionistas, atraídos por parte de 7,15 mil milhões de euros – o país e as suas gentes beneficiariam imenso. Centremo-nos na crítica do arrevesado Rui Ramos na última edição do ‘Expresso’. Famoso historiador e doutorado em Ciência Política por Oxford, o ilustre académico entende que a decisão do Estado é um acto de “socialismo neocolonial”. Equivalente, escreve ele, à decisão “do país manter, não companhias de telemóveis no Brasil, mas a administração portuguesa nas terras de África” (sic). Esta visão transcendental só poderia sair de um cérebro genial.

O distinto historiador saberá, porventura, o significado rigoroso de neocolonialismo? Se sabe, só pode estar a brincar connosco. Se não sabe, então leia, ao menos, o que o ‘Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea’, da Academia de Ciências de Lisboa, define para esse vocábulo. Compreenderá, então, que o caso ‘PT – Telefónica – Vivo’ não corresponde à figura de domínio económico, tecnológico ou cultural de Portugal sobre o Brasil. Há, isso sim, uma disputa de interesses entre duas sociedades concorrentes na operação, uma portuguesa (PT) e outra espanhola (Telefónica). O Brasil, enquanto país, é para o caso apenas o mercado da Vivo e as autoridades brasileiras deliberaram estar equidistantes dos dois contendores. E ponto final.

O Financial Times, Sr. Prof. Dr. Rui Santos, também publica disparates. Certamente, em respeito pelo reino de sua majestade, nunca enfatizará a questão das golden shares detidas pelo Governo Britânico em diversas companhias consideradas estratégicas, para o dito reino. E Bruxelas também não tuge nem muge sobre o Reino Unido; sobre a contra-ofensiva do Governo de Berlusconi à tentativa de compra da Telecom Itália, justamente pela Telefónica e por aí fora. Bruxelas – poderá começar a registar na sua história económica e social – usa dois pesos e duas medidas em termos de golden shares: para a Alemanha é uma coisa, para Portugal é outra; para a França é igual à Alemanha, para o Chipre aplica-se a receita de Portugal. E a lógica é sempre esta.

Mas regressemos ao tema do ‘neocolonialismo’. Se o Prof. Dr. Rui Ramos se desse ao trabalho de consultar e estudar a informação devida, concluiria, segundo a sua teoria, que a Telefónica é que se trata efectivamente de grande potência ‘neocolonialista’. Veja-se, por exemplo, o site daTelefónica | About Telefónica | Where we are. De facto, a operadora espanhola está presente em 25 países, com 250.000 trabalhadores.

Vamos, pois, aguardar o veredicto do Tribunal Europeu. No que me toca, com expectativa de pronunciamento desfavorável. A UE e respectiva Comissão assumem conduzir-se sempre pela ‘coesão económica e social’. Todavia, na prática, o importante é garantir o princípio da livre circulação de capitais e quem tiver mais capital vence.

Sou anti-Sócrates, mas incapaz de ser anti-Portugal. E não apenas eu. O Prof. Cavaco Silva, a vice-presidente do PSD, Dr.ª Paula Teixeira da Cruz, e o Prof. Marcelo Rebelo de Sousa também optam pelo mesmo caminho.

Há, por outro lado, gente incapaz de distinguir entre a luta partidária e o interesse nacional. Confundem a árvore com a floresta. Não lhe podemos valer.

Comments

  1. Pedro says:

    “nunca enfatizará a questão das golden shares detidas pelo Governo Britânico em diversas companhias consideradas estratégicas, para o dito reino. E Bruxelas também não tuge nem muge sobre o Reino Unido; sobre a contra-ofensiva do Governo de Berlusconi à tentativa de compra da Telecom Itália, justamente pela Telefónica e por aí fora. Bruxelas – poderá começar a registar na sua história económica e social – usa dois pesos e duas medidas em termos de golden shares: para a Alemanha é uma coisa, para Portugal é outra; para a França é igual à Alemanha, para o Chipre aplica-se a receita de Portugal. E a lógica é sempre esta.”

    Essa é que é essa, Carlos.

    Quanto à questão neo-colonial, é outra questão. Alguns aspectos da globalização fazem-me pensar que se trata de uma reorganização do mundo pós-colonial para não perder totalmente a anterior matriz colonial, se é que me faço entender. Com algumas mudanças de estilo e de roupagem, é claro.


  2. Pedro,
    Claro que te fazes entender. Mas, relativamente ao caso concreto da Vivo no Brasil, o conceito usado pelo Rui Ramos ‘o socialismo neocolonial’ é um disparate.
    Além disto, e ainda no domínio da globalização, os países emergentes estão a ficar com autonomia crescente em relação à Europa e aos EUA, em vários domínios.
    O Brasil, por exemplo, supera Portugal como potência económica, tecnológica e até cultural. É a constatação de factos. A propriedade de uma operadora, Vivo, que actua em concorrência no vasto mercado brasileiro, não é um instrumento de domínio neocolonial. É no quadro deste conceito que considero inaceitável a posição de um historiador e professor doutorado por Oxford.

  3. Pedro says:

    Compreendido.

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