Saúde, o que é isso?

(adão Cruz)

 Quando somos consultados e o doente nos diz que tem uma Médica de Família que é um amor, poeque todos os anos lhe pede, no mínimo, sete exames, e receita para tudo, ficamos parvos. Perguntamos-lhe se ela o examina, se o observa. Não, não é de fazer isso, embora lhe veja sempre as tensões.

 No fim da consulta, chegamos à conclusão de que o doente não apresenta qualquer problema cardíaco, pelo que não carece de qualquer medicação nem precisa de andar a fazer tantos exames. Além disso, verificamos que toma, no mínimo três medicamentos “para o coração”.

O Senhor não tem nenhum problema cardíaco, não precisa de tomar remédios nem de fazer mais exames. Aliás, o Senhor está a tomar três medicamentos, desnecessários, um deles bastante caro e que pode ter efeitos secundários graves. Como não fui eu quem lhos receitou, não vou cometer a indelicadeza de lhos retirar. No entanto, como a sua médica é uma pessoa amorosa, o Senhor transmite-lhe a minha opinião e ela, com certeza, deixará de lhos receitar.

-Senhor dr. olhe, eu não vou dizer nada à médica, por um lado porque, embora não sendo rico, tenho dinheiro para comprar os remédios, em segundo lugar porque até não me sinto mal com eles e vou continuar.

 Infelizmente situações destas são o que mais se vê. Médicos amorosos há muitos, a par de outros que tratam os doentes como animais. São estes médicos, amorosos ou não,  aqueles que tantas vezes dão uma palmadinha nas costas do doente quando ele se queixa de uma dor no peito, e o mandam embora dizendo que se trata de uma nevrite, quando, na realidade, se trata de um enfarte agudo que o vai matar, provavelmente, durante a noite. No entanto, pedem todos os exames e mais algum, receitam tudo e mais alguma coisa, com todas as consequências nefastas, em todos os sentidos, que essa incompetente atitude pode acarretar. Tal qual o caçador que não vê nenhum coelho, mas manda uns tiros para um monte de ervas porque pode lá estar um coelho. Fazer clínica…o que é isso?

 Fala-se muito de assistência médica e tem-se a tendência de quase reduzir essa assistência à presença de um médico. Nada mais errado. Muitos médicos, sem qualquer preparação nem competência para fazer clínica, não passam de uma espécie de PBX, requisitando exames em cima de exames às clínicas privadas que pululam por todos os lados, de cima abaixo deste pobre país, incompetentes para o exercício de uma verdadeira clínica, meras fábricas de exames, tantas vezes de muito duvidosa credibilidade, cuja única finalidade é facturar. Exames que puxam exames, exames que descrevem”anomalias” que obrigam a mais exames, com relatórios estereotipados e dúbios, desinseridos de um contexto clínico, não permitindo qualquer possibilidade de distinção entre o essencial e o secundário. Para além disso, tais “agentes de saúde” nada mais fazem do que perpetuar uma irracional cadeia de exames, profundamente nefasta para o doente e para a economia do país, bem como uma absurda prescrição sintomática, sem qualquer critério, sem qualquer conhecimento do mal que podem estar a fazer ao doente, e sem fazerem a mínima ideia do complexo quadro clínico em que as queixas do doente podem estar inseridas. E o pobre do doente ainda lhes chama amorosos!

 No meio de tudo isto, desta pouca vergonha em que caiu a medicina, anda para aí uma Senhora, armada em ministra de qualquer coisa, que nada percebe da doença da nossa saúde, que nem sabe para onde vão as centenas de milhões de euros que se gastam a adoecer cada vez mais, que não vê os profundos buracos por onde o orçamento se escoa nos bolsos dos espertos sem vergonha, na voraz e temível medicina privada, na indústria farmacêutica e nas farmácias, uma senhora simpática que não faz a mínima ideia do que é e do que deveria ser um SNS. Uma Senhora que muito afavelmente está a levar o país à completa rotura de toda a assistência médica mais ou menos decente que ainda tínhamos, há uns anos atrás, quando os seus antecessores resolveram iniciar a aniquilação do SNS, e espezinhar tudo o que António Arnault pretendeu erguer.

 Aceitou fazer parte deste desavergonhado governo, coitada, sabe-se lá porquê! Não teve bom gosto nem bom-senso ao optar pela participação numa governação tão empenhada em levar um país à bancarrota, ao desprestígio total, ao descalabro económico, moral, social e político, à miséria da mente e do pão, só para enfiar o dinheiro de todos nós nos próprios bolsos e nos bolsos dos amigos, os senhores do poder económico que os lá colocou e que, ao fim e ao cabo, são quem manda nesta merda toda.

 Senhora ministra lá do que quer que seja, vá tratar crianças, a melhor coisa do mundo. Talvez possa ter aí alguma utilidade. Fuja desta corja, até porque não parece má pessoa. Se parar para pensar, há-de ver que não tem qualquer arcaboiço para fazer uma barrela a toda esta estrumeira.

Comments

  1. Luis Moreira says:

    E já teve uma muita má experiência enquanto presidente da ARS de Lisboa, tendo em curso uma acção movida pelo estado.Deixou de ser uma competente pediatra para ser uma coisa que ninguem sabe o que é. Não faz ideia nenhuma do que quer para o país, se calhar é mesmo acabar com o SNS!


  2. Bom, sempre ouvi dizer, entre médicos e cozinheiros devemos preferir estes últimos. Matam-nos na mesma, mas de uma forma muito mais agradável!

    Intriga-me o que se passará nas faculdades de medicina que produzem tanta incompetência… Também não compreendo – por exemplo – o número elevado de médicos que dizem “acreditar” nas chamadas medicinas alternativas (que apenas o são porque nunca passaram no crivo da ciência – e dificilmente alguma vez passarão). Esperava que saíssem com uma formação cientifica mais cuidada. Julgo que está tudo ligado. Temo também que as coisas ainda se passem nas nossas escolas como n’ O Conde d’Abranhos:

    Não menos maravilhoso parecia ao Conde o sistema das relações entre o estudante e o lente. O hábito de depender absolutamente do lente, de se curvar servilmente diante da sua austera figura, de obter por meio de empenhos que a sua severidade se abrande, forma os espíritos no salutar respeito da autoridade. O sentimento excessivo da dignidade pessoal leva ao amor exagerado da independência civil. Cada um se torna por este modo o seu próprio dono, o seu chefe, o seu Rei, o seu Deus. E a anarquia! Assim educado, durante cinco anos, a curvar-se, a solicitar, a sorrir, a obedecer, a lisonjear, a suplicar, a depender, o bacharel entra na vida pública disciplinado, e, em lugar de ser o homem que quer tomar na vida o lugar que lhe convém (o que seria a desorganização das posições sociais) vai humildemente colocar-se, com um sorriso, no lugar, na fila, no cantinho que lhe marcam os que governam. Assim se forma uma imperecível harmonia social.

    Quanto aos gananciosos que se aproveitam de tudo isto, sempre houverem em demasia neste país…

  3. júlia says:

    Caro Amigo:

    Saúde, o que é isso?
    Isso de saúde, é não estar doente…
    Há duas atitudes para “visitar” o médico:
    prevenir a doença ou tratar da doença, se esta, já está instalalada…A minha médica de família é competente, próxima e interessada pelos seus utentes.Eu estou numa ULS piloto, onde não tenho reclamações a fazer.Acho justo dizer o nome da extenção:Unidade Horizonte-Matosinhos.Mas hoje já não sou uma utente no seu todo,quando saio da proximidade da minha médica de medicina interna.Sou um fígado, um coração, uma visícula…Concorda?
    “Que cirurgias há para hoje? 2 fígados, 3pulmões!…Onde está o ser humano, na sua totalidade:corpo e alma?
    O médico também é essa totalidade:corpo e alma.
    Concluindo: os valores têm a idade da humanidade. No entanto há quem não os saiba traduzir.Eu não estou a contrapor, o meu caro Amigo, mas sim acrescentar o meu sentir.
    Até amanhã! Até sempre!
    Júlia Príncipe

  4. António Soares says:

    É uma boa receita,que passa à ministra,vamos ver se ela a toma…o resto do diagnostico,está corretíssimo.


  5. Cara Júlia, sente-se que falas com o coração. E quando se fala com o coração, nada há a contrapor. Obrigado pela tua ajuda.

  6. graça dias says:

    sr drr um conselho: 1º deve ir trata se – 2 º depois trate os outro


  7. Também eu a ela

  8. graça dias says:

    e eu por ele, mas as minhas amigas do guincho ainda mais.

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