A propósito do romance de Lúcio e Rosalina

Nos últimos dias, a imprensa notícia e comenta amiudadas vezes o assassínio em Dezembro de 2009 de Rosalina Ribeiro, nas proximidades do Rio de Janeiro. Tinha sido amante do empresário e milionário Lúcio Tomé Feteira, falecido em 2000. O jornal i na edição de hoje revela alguns detalhes das vidas e da ligação amorosa das duas figuras.

Lúcio Tomé Feteira foi meu patrão, na antiga Covina. Há alguns méritos na história do industrial. Contestou a política de condicionamento industrial salazarista e pagou a ousadia com um exílio no Brasil.

Ao saber aproveitar o financiamento do sogro, teve meritória acção na iniciativa e liderança do processo de introdução da indústria mecânica de chapa de vidro em Portugal. Sucedeu Justamente em 1936, através da fundação da Covina – Companhia Vidreira Nacional. Após o 25 de Abril, uma fatia de 80% do capital da vidreira, proporção pertencente a empresários portugueses, foi nacionalizada. Os restantes 20% mantiveram-se em poder da companhia francesa Saint-Gobain; mais tarde, em processo de privatização, a referida multinacional adquiriu ao IPE os 80% de capital que lhe faltavam e ficou proprietária absoluta da empresa. O nome Covina viria, pois, a volatilizar-se.

Vale a pena analisar os efeitos da privatização citada. No tempo dos accionistas portugueses e mesmo com a empresa maioritariamente nacionalizada, a Covina empregava cerca de 1.200 trabalhadores, em Santa Iria de Azóia. Hoje e desde há mais de dois anos, a produção  está paralisada e aquilo que foi uma fábrica de muita gente laboriosa não passa de um armazém com cerca de 30 trabalhadores ou “para-trabalhadores”.

A Saint-Gobain, via Madrid, comanda o negócio em Portugal, em favor dos espanhóis. É por influência dessa gestão que o vidro base, a transformar em vidro temperado para a Auto-Europa, é de origem espanhola. Não é despiciendo lembrar que, na determinação dos incentivos fiscais concedidos à produtora de automóveis, foi considerada a soma do ‘valor acrescentado nacional’ a incorporar; agora a parcela de vidro português está reduzida, quando muito, ao ‘valor acrescentado’ da transformação.

Por outro lado, em jeito de balanço final, regista-se que a vida Lúcio Tomé Feteira ficou marcada por dois aspectos essenciais: o dinamismo empresarial e as amantes. Teve várias. Rosalina Ribeiro foi a última e o curriculum da dita demonstra a têmpera de mulher de que se tratava. Cerca de 30 anos mais nova do que o empresário, sempre lutou pela herança de uma grande fortuna contra os herdeiros naturais.

Rosalina foi assassinada em noite de encontro com o seu advogado, o conhecido Duarte Lima. Os documentos de que era portadora desapareceram. As jóias ficaram intactas, coladas ao cadáver. Como e por que razão se chegou a este desenlace, só agora divulgado? Aguardemos os resultados das investigações. Talvez venham a ser esclarecedores ou não. Por enquanto, contentemo-nos com o mistério.

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.