porque Allende teve que correr tanto

a honestidade de Salvador Allende reflecte-se no seu rosto

…resposta ao comentário de Luís Moreira….

Estes dias foram de debate em muitos sítios e páginas pessoais da internet. Foi um fim-de-semana de muitas lembranças e comemorações públicas e pessoais. Como é natural, as pessoais são de quem tem essas memórias íntimas. As públicas, para contestar, debater ou responder. Sinto-me no meio das duas. Não há memórias pessoais não vinculadas às memórias públicas. Se assim não fosse, não seríamos seres sociais, que, queiramos ou não, orientamos a vida pelas pautas da cultura, sendo cultura hábitos, costumes, idioma, comportamento adequado às circunstâncias, boa educação, simpatia, solidariedade, entre ajuda e outros hábitos que fazem de nós, pessoas. Habituamo-nos a uma forma de ser, comportamento que orienta as nossas vidas de uma forma quase inalterável, quer individualmente quer em grupo.

Quando muda o hábito, o grupo social fica desnorteado, não sabe qual forma de agir deva adoptar. No caso de Allende, houve uma mudança sem transição, passagem de um lugar, assunto, tom ou estado para outro. Isto foi o que aconteceu com o Governo de Salvador Allende.

Como se sabe, o Chile é um país com uma larga percentagem de classe média, essa classe que tem aprendizagem, habilitada para assuntos profissionais ou de ofícios que rendem dinheiro, ofícios e profissões que permitem um certo lucro, que, poupado, pode ser investido em bens que incrementam o capital de uma pessoa. Classe média que

estava habituada aos seus trabalhos, a educar os seus filhos, a organizar pequenas indústrias ou comércio em parceria com membros do seu grupo doméstico ou da família alargada, ou empregados pagos com ordenados adequados ao seu trabalho. Atrever-me-ia a dizer que o Chile era um país de costumes e hábitos que raramente mudavam. Filho de Advogado, estudava Direito, filho de médico, a Faculdade de medicina era o seu destino.

Dentro dessa classe média, havia um largo grupo que dependia da Função Pública, nomeadamente em trabalhos de secretariar membros do Governo, os quais normalmente são bem remunerados e herdados pelos descendente, porque funcionam com base nas bem conhecidas cunhas ou favores pedidos a pessoas influentes que admitem no seu secretariado filhos de parentes ou amigos. Era hábito no Chile esse mudar de Governo, que levava ao poder pessoas de diferentes ideologias. Normalmente, a Administração Pública era sempre duplicada entre os apoiantes de governos anteriores com outra ideologia e os novos de ideologia ou de partidos, entretanto admitidos. Escândalo que todos toleravam, mas que Allende em todas as suas candidaturas à Presidência da República, quatro ao todo, tinha advertido que ele iria respeitar os funcionários de carreira, mas governaria com os seus próprios. A tramóia contra a sua ideologia socialista marxista estava montada. Especialmente quando anunciou a confiscação das grandes empresas, como as fábricas de tecidos de Tomé e Chiguayante, no centro sul do Chile, as minas de carvão e cobre e as grandes herdades de terra para serem entregues aos trabalhadores. O fim de Allende estava selado com estes princípios e ele sabia.

Foi assim que teve que correr. Mas a sua corrida não foi à margem da lei, pelo contrário, usou os resquícios não cumpridos da lei, como a da Reforma Agrária, lei que o seu antecessor, Eduardo Frei Montalva, tinha feito aprovar, para entregar as terras que não rendiam, por serem terras secas, sem água, que os inquilinos sabiam trabalhar com gado e pastorícia. Mas, terras que rendiam dinheiro apenas para eles e não para exportar e acrescentar o PIB do país. Era necessário confiscar as grandes haciendas, especialmente as produtoras de bom vinho para exportar e lucrar com os impostos sobre a exportação, tal como as de frutas. Outra lei que Allende usou, foi a votada por unanimidade nas duas câmaras do Congresso, a Chilenisación do cobre, uma triste lei que mandava pagar impostos unicamente pela extracção e exportação do mineral, a riqueza do Chile. Allende confiscou-as e demandou às empresas norte-americanas que as possuíam, o pagamento de uma indemnização pelo lucro obtido de bens que não lhes pertenciam por serem da Nação.

Não houve transição, não havia tempo. O Presidente era um homem honesto, falou abertamente das suas ideias socialistas, da redistribuição da riqueza: a cada um conforme as suas necessidades, de cada um conforme as suas possibilidades.

Como homem honesto, as nacionalizações pagas tiveram por base o acordo da avaliação efectuada pelos respectivos proprietários. Para fuga aos impostos, os capitalistas tinham avaliado as suas indústrias pelo valor mais baixo possível. Foi este, pois, o preço pago pelo Estado Chileno aos proprietários expropriados.

A impreparação e inexperiência dos trabalhadores na gestão dos bens, mesmo com a participação de alguns técnicos, aumentaram o caos vivido naqueles anos: repartiam a produção entre eles e vendiam-na como se fosse da sua propriedade. Allende teve que parar esse caos e muitos de nós correr às Haciendas, minas, e indústrias para formar consciência que os bens não eram deles, eram do Estado e era impossível criar um mercado negro de produtos que não lhes pertenciam.

Allende correu quer para nacionalizar, quer para pagar, quer para formar consciência proletária no povo, o que no seu terceiro ano de mandato começava a aparecer. Nós corríamos com ele, Cristão para o Socialismo, movimento religioso formado por freiras sacerdote e laicos, colaborou intensamente nessa campanha. Devo confessar que fui um desses, apesar de não ser homem de fé. Não mentia, defendia.

A corrida de Allende em tantas direcções, não o esgotaram. A sua popularidade continuava a subir, como aconteceu nas eleições municipais de 1972, em que a sua votação cresceu para 52% em todo o país.

Foi assim que pensou fazer um plebiscito, como a lei permitia, para perguntar ao povo se queria ou não que ele continuasse como Presidente. Estávamos certos que ganharia com uma percentagem de mais de 50% dos votos. Pensou apresentar a ideia ao povo, com consciência proletária em transição acelerada, a 12 de Setembro e confiou esse segredo, que poucos de nós sabíamos, ao General em Chefe das Forças Armadas.

No terror desse possível sucesso, o general advertiu de imediato as Forças Armadas, o General Leigh a CIA, e o golpe de Estado teve de ser  antecipado e improvisado, sendo realizado na data que sabemos, um dia antes de anunciar a ideia de plebiscito ao povo do Chile.

Allende correu a alta velocidade, mas não atingiu o fim: foi assassinado a 11 de Setembro pelas forças que temiam o Chile como país socialista marxista…A transição tinha começado…mas foi brutalmente interrompida aquando do assassinato do Presidente…e a sua honestidade.

Comments

  1. Nuno Castelo-Branco says:

    Uma questão que sempre coloquei, foi a de saber como os chilenos, como o Raúl é, pensam acerca do que teria sido o Chile sem o golpe de Pinochet. Que tipo de caminho teria seguido, onde hoje se encontraria, etc.

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