Assalto por encomenda


Estamos em crise e o senhor Cavaco Silva foi uma vez mais atrás de D. Manuel II. Tal como o rei, viajou até ao Buçaco, para quase incógnito, comemorar discretamente a vitória sobre a “querida França do regime”. Bem ao contrário do Desventurado, não foi recebido em delírio pelas populações e muito menos ainda, pelo exército. Sabe-se que o rei terá exclamado após tanto entusiasmo, ….”hoje conquistei o exército!” Pensava ele nos promissores fastos dessa conquista, sem sequer imaginar que uns dias depois, aquelas espadas lustrosas permaneceriam oportunistamente nas bainhas. Pelo contrário, seriam os cutelos do talho no qual Portugal se transformaria por muitas décadas.

São assim, os defensores da pátria e das instituições. Estamos habituados. Isto dizemos, para que o senhor Cavaco Silva saiba do país em que se vive. Hoje inaugura festas e para a semana poderá ter de partir à pressa. Nunca se sabe, nem nada está garantido. É a única certeza.

Chegou a Portugal, um senhor que fala em nome da OCDE, mas em claro teatro de ventríloquo do governo. Presume-se que a visita se deva a um convite do executivo português, dado ter discursado ao lado do actual ministro das Finanças, o senhor Teixeira dos Santos. Pelo que as suas palavras deixam transparecer, a informação de que a OCDE dispõe, encontra-se desfasada no tempo, propondo cortes que ainda muito recentemente foram feitos pelo executivo, com o claro patrocínio do residente de Belém. Tudo isto consiste num claro truque de propaganda, pretendendo mostrar que a responsabilidade do “odioso”, deverá ser imputada aos que de fora chegam para impor a ordem. A meta parece ser o orçamento para o próximo ano e estranha-se apenas, a ausência do anúncio de qualquer plano a médio prazo, esquecendo-se o que se passará nos anos subsequentes. Servirão estes cortes para 2012, 2013 e seguintes, ou daqui a doze meses estaremos a falar em novas medidas e taxas a pagar pelos contribuintes? Nada fica claro e é nítida esta vontade de fazer esquecer bem depressa as medidas que o governo implementou há escassas semanas. Querem ainda mais, sem que sejam eles próprios, quer dizer, os detentores do poder, a proceder aos cortes que se impõem: nem uma palavra quanto à reforma do aparelho do Estado, onde medram centenas de autarquias oitocentistas, os institutos públicos e as fundações, gabinetes de estudos, contratos adjudicatórios de obras supérfluas – por exemplo, agora está a surgir mais uma auto-estrada na Sobreda de Caparica! -, parcerias sempre lesivas do contribuinte, despesas infalivelmente sumptuárias como obras faraónicas, viaturas à saudita e respectivos condutores, telefones que custam milhares de euros por mês, ajudas de custo, assessores, cartões de crédito e tantas, tantas outras despesas de exaustiva enumeração.

Não nos podem cortar mais nada. Saibam os portugueses que quando tomarem um café por 50 cêntimos, passarão a pagar 23% de IVA, correspondentes a cerca de 23$00 Escudos antigos. Para onde vai essa torrente de dinheiro? Quem virá investir em Portugal, existindo taxas e processos burocráticos tamanhos? Bem pelo contrário, esta medida impulsionará uma correria à fraude fiscal e não haverá português que não tente fazê-lo e diga-se em abono da verdade, em total justiça. Por outro lado, a população continua logicamente sem direito a descontar no IRS os alimentos, vestuário, medicamentos, os livros, as rendas de casa e uma infinidade de bens de primeira necessidade, enquanto os nossos tutores comem e se aboletam a expensas do pagador comum. É injusto e até poderíamos dizer, um autêntico assalto. Fica tudo “por conta”.

Vindo a Portugal por encomenda do establishment, diz o senhor Gurria, que …“estamos confiantes na vontade política do Governo e na sua consciência do problema”. Devia acrescentar a sua confiança ao Partido da oposição que ambiciona substituir o actual executivo, pois trata-se exactamente de uma situação análoga, sem qualquer diferença de maior. O que se torna indecente, é a tentativa de querer fazer passar a mensagem da necessidade do aumento da receita, sem existir um forte corte na despesa – hoje em dia, toda e qualquer que esteja a mais, é sumptuária – que ainda será possível fazer. É também indecente, a alegação de serem essas despesas correntes, “migalhas” que não pesam no orçamento. Pesam, todas somadas pesam e somam uma quantia milionária, absurda e cruelmente atentatória da paciência deste povo que mais tarde ou mais cedo, chegará ao limite.

O regime PS/PSD, tentou fazer passar as medidas de uma forma que não alarmasse o eleitorado, apresentando-as faseadamente e transmitindo assim, um péssimo sinal enviado aos tais mercados sempre tão atentos às oportunidades especulativas. Desta forma, perdeu a credibilidade junto da população que prefere os sinais mais evidentes e drásticos e pior ainda, continua a insistir em obras que ninguém quer, porque sabemos não as poder pagar.

Fala o senhor Gurria, em atacar o património. Mas que património? Os portugueses têm uma despesa crescente com as prestações dos modestos apartamentos que em má hora, adquiriram às construtoras e bancos que os esbulham. Sendo geralmente propriedades sem uma correspondência real com o valor estipulado pela especulação imobiliária que o sistema patrocina, terão ainda de pagar mais impostos? Dentro de pouco tempo, irá o Estado entrar-nos porta adentro e contabilizar as cadeiras, mesas, candeeiros e jarras …”que vieram um dia da casa da avó”? Ousarão perguntar-nos acerca da disparidade dos rendimentos declarados, em relação com aquelas …”coisas luxuosas e de ricos” que estão na salinha? Pois é disso mesmo que se trata. O Estado já é o primeiro herdeiro, sem que na verdade e em boa justiça, à herança tenha qualquer direito. Se o senhor Gurria se refere a passar a pente fino os proprietários de viaturas de grande cilindrada, como os tractores de cidade que são conhecidos por jeeps, os barcos de recreio, empresas fantasma, terceiras e quartas casas e outras inúteis peneirices mais, estamos de acordo. Mas que se fique por aí.

Eles querem mais e fingem quase nada ainda terem feito para ir aos bolsos rotos dos portugueses. Já fizeram e tiraram bastante mais do que deviam tirar. Chegou a vez deles próprios. Dizemos “eles”, porque todas as instituições acima mencionadas, são afinal, “eles”. O senhor Gurria, ou um Reischsprotektor chegado de Berlim, que venham a Portugal sempre que quiserem, mas digam o que queremos escutar: cortem os senhores as vossas despesas! Agora!

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