Pisa em números, o universo e a amostra

Finalmente o ministério da Educação libertou alguns números sobre os testes Pisa 2009. Ainda não publicou a lista das escolas seleccionadas porque diz que não a tem, dado o hábito da mentira fazer parte compulsiva deste governo, como o Reitor demonstra.

A análise rigorosa da amostra não é possível, dado que o Pisa tem por alvo uma faixa etária (15 anos) para a qual não temos informação em detalhe. Mesmo assim, seguem-se os números publicados:

basico

Secundário

Esses são os dados oficiais para alunos matriculados em 2008/09, ou seja o universo onde se encontrava a faixa etária a avaliar.

pisa-anos

pisa-ciclo

Esta foi a amostra escolhida. Muito bem escolhida. É que nem é preciso o detalhe, nem fazer as contas: salta à vista.

Repito o que já escrevi: a minha surpresa com os resultados dos testes Pisa nem diz respeito a 2009: sempre achei que nos anos anteriores havia uma clara sub-avaliação no que toca a Portugal. Em 2009 a Ministra das Estatísticas meteu mãos à obra e fez o que fazem os outros países, mais nada. Politicamente nojento é tentar medalhar a sua política quando até o meu amigo António Fernando Nabais, um gajo de letras como eu, se meteu a fazer contas desta forma:

Sempre com o mesmo brilhantismo, descobri que, nos primeiros cinco anos de escolaridade dos meninos que participaram nos referidos testes, Portugal teve outros três primeiros-ministros e quatro ministros da Educação. Poderemos, então, depreender das palavras de Sócrates que, na escolaridade de um jovem, só interessa verdadeiramente o período que vai dos 12 aos 15 anos, sendo que todo o percurso anterior não inclui aprendizagens fundamentais e que, portanto, todo o trabalho dos governos anteriores não terá contribuído para os resultados do PISA?

O mito da má qualidade do nosso sistema de ensino é tão pateta como o hábito de todas as gerações acusarem a geração que agora é jovem de mil defeitos, incluindo o de serem maus alunos (coisa que abunda nas salas de professores, repetindo o que já ali se dizia quando os actuais professores eram alunos).

Nos anos 70 o ensino massificou-se (com muito atraso), teve uma natural crise de crescimento depois ultrapassada, e isso nem se  mede com testes Pisa: vê-se no facto de hoje termos cientistas em qualidade e quantidade nunca vistas, e só não se vê na produtividade porque vivemos num país de patrões analfabetos.

Acresce que nem é preciso ser especialista em educação* para saber que as reformas no ensino funcionam em pleno por geração. Hoje temos nas escolas os filhos dos que já apanharam a escolaridade obrigatória e/ou real de 9 anos. É isso que faz toda a diferença.

    * os assessores governamentais tentam desvalorizar as críticas à manobra de propaganda Pisa por todas as formas (boa tarde Pedro T.).  É para isso que lhes pagam. A mais hilariante que li ultimamente consistiu num ataque ao Paulo Guinote que cito:

    Pérolas de humor

    O Lomba escreveu um artigo no Público em que trata o Guinote por “especialista em Educação”.

    O Paulo é doutorado em História da Educação, e professor. Especialista em educação para um cretino deve ser um sociólogo, na área da sociologia das profissões, como o é Maria de Lurdes Rodrigues, em tempos remotos professora do 1º ciclo. Ou então a História não dá direito a especializações, só a generalizações. Ou então um professor no activo nunca é um especialista em educação. Ou então, e esta é a mais provável, um filhodaputa só sabe escrever filhadaputices. O que estes tipos fazem para defender o seu emprego.


Comments

  1. Bulimundo says:
  2. Bulimundo says:
  3. Bulimundo says:
  4. Albano Coelho says:

    “O mito da má qualidade do nosso sistema de ensino é tão pateta como o hábito de todas as gerações acusarem a geração que agora é jovem de mil defeitos, incluindo o de serem maus alunos (coisa que abunda nas salas de professores, repetindo o que já ali se dizia quando os actuais professores eram alunos).”

    Muito bem dito! O mesmo temos referido incessantemente Michael Males (EUA), eu (Estado Espanhol) e muitos outros sociólogos por esse mundo fora. É sempre mais fácil fazer dos jovens bodes expiatórios. El@s não têm direito de voto.

Trackbacks


  1. […] estatisticamente irrelevante para influenciarem um estudo deste género. Quanto à amostra viciada já me ocupei com o assunto ontem e chover no molhado não vale a […]

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