Política à nossa moda – Do Emplastro de Boliqueime ao Araújo de Barcelos

Muita coisa se tem dito e escrito sobre Cavaco Silva. Que para ser Salazar só lhe faltavam as botas, creio que terá sido um chiste atribuído à elegância linguística de Mário Soares. Que os seus governos, com Oliveira e Costa e Dias Loureiro, não passavam de uma espécie de gruta de Ali Babá e os 40 ladrões, não será mais que uma alegoria com pouco sentido. Que Cavaco pouco percebe de finanças e tirou o curso de Economia “numa embalagem de farinha Amparo” é apenas um paradoxo do Inimigo Público. E quando, parafraseando Kennedy, Cavaco poderia dizer “não perguntem como seria eu sem o país, perguntem como seria o país sem eu”, pensar-se-ia que, sem o conservadorismo paroquial da personagem, Boliqueime poderia muito bem ter, por exemplo, o maior bordel da Europa e deixar de ser conhecida como a terra do Aníbal, o filho do Teodoro da bomba. Mas o nosso homem é rigidamente casto. Venera a mulher, se ela é económica e virtuosa. Chama-se Maria, “a sua senhora”. Maria! E nada mais sugestivo que o tom levemente lânguido com que Aníbal pronunciaria um conhecido slogan adaptado ao quotidiano da vivenda Mariani: “Maria, lembra-te disto, quero em casa Bom Petisco”. E a Maria, presa a uma miserável reforma de 800 euros mensais, economicamente dependente do marido excelso, que remédio tinha senão colocar a proletária conserva ao dispor da frugalidade puritana do seu amado Aníbal. Oh! quanta ternura neste quadro familiar! Uns pormenorezitos apenas destoavam
nesta fi gura hierática e solene, que o aproximavam do comum dos mortais – mastigava de boca aberta e, em público, exibia um esgar de dentes ostensivamente à mostra, garantindo que “branco mais branco não há”. A fazer lembrar o Emplastro, depois que
apareceu na TV com uma dentadura nova. E daí que os maledicentes do costume o designassem metaforicamente e com desdém como “o Emplastro de Boliqueime”.

Ora, o nosso “herói” acaba de ganhar as eleições presidenciais com uma maioria absoluta de 23% de eleitores! E logo choveram hossanas analíticas das luminárias do costume perante tão espantosa vitória. Do PSD de Barcelos de imediato, em comunicado assinado por Domingos Araújo, “la crème de la crème” da política concelhia. Assim e para começar: “No dia de hoje, o povo de Barcelos (…) deu uma lição de civismo democrático”. Ora, até aqui, dizia-se que nunca este politólogo da paróquia se dignara conceder aos “indígenas” a esmola de uma ideia que fosse. Mas há sempre uma primeira vez. E esta imagem, fecunda e sólida, do povo de Barcelos a “dar uma lição de civismo democrático”, ter-lhe-á saído espontaneamente, assim a modos de um ataque de tosse, quiçá de um arroto. Com a naturalidade das coisas simples. Ou, se preferirem, com a simplicidade das coisas naturais. Mas sempre possuído da sublime ambição de “só produzir verdades absolutamente definitivas, por meio de formas absolutamente belas.” Como foi o caso. Que bonito! Mesmo assim, ainda há quem diga, que o cérebro de Domingos Araújo estava admiravelmente construído e mobilado. Só lhe faltava uma ideia, uma ideia apenas que o alugasse para viver e governar lá dentro. Ora, se faltava, já não falta. Porque a ideia jorrou, torrencial e incontrolável, galgando as margens do cérebro e espraiando-se numa escrita jucunda. Leia-se e reflicta-se. A votação concelhia de Cavaco permite notar, diz ele, “um claro desencanto com a acção da actual Câmara PS e do seu Presidente (…). Isto porque nas Autárquicas, foi possível passar a mentira da redução do preço da água em 50%, mas agora não foi possível passar as muitas mentiras que se criaram sobre o candidato presidencial apoiado pelo PSD”. Só agora e ao reflectir sobre isto, me dei conta que este homem tem sido ignobilmente vítima da incompreensão dos génios. E agora, que se abriu a todos nós na plenitude das funções da sua inteligência superior, atrever-me-ia mesmo a dizer que, até aqui, nunca homem algum traduzira um pensamento tão original com o mais calmo e soberbo desassombro. Lembro-me vagamente de, quando adolescente, ter visto um filme chamado “Camões” onde, às tantas, o épico apanha uma flechada num olho e continua a matar mouros como se nada fosse enquanto, alegre e contente, gritava: “Não faz mal, é por Portugal”. E pareceu-me ouvir, vindo do fundo da alma como do fundo de uma treva, o grito irreprimível: “Só é cego quem não vê. É pelo PSD”. Com a intensidade e o brilho de que só os génios são capazes. E nem todos.

Luís Manuel Cunha. Publicado originalmente no Jornal de Barcelos de 2 de Fevereiro de 2011.

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