O Faraó Mubarak deixa os militares encalhados

Sem resignar explicitamente o cargo, o presidente egípcio e familiares deixaram o Cairo  para se refugiarem no palácio do clã, na estância balnear de Sharm el-Sheikh. Mubarak reinterpretou, na história contemporânea, o papel do Faraó do Antigo Egipto: um rei absolutista a que o povo da antiguidade obedecia com veneração. De facto, como chefe político supremo, o Faraó, reza a História, estava impregnado de poderes divinos; de tamanha transcendência que lhe era reconhecido o poder milagroso de fazer repetir as cíclicas cheias do Nilo e da consequente renovação anual da fertilidade nas margens que orlam o extenso rio.

Absurdo para época em que vivemos, mas verdadeiro. A teimosia de Mubarak, a que me referi noutro texto no ‘Aventar’, se tem algum sentido, é ajustar-se ao conceito da lógica faraónica na História da Antiguidade. Sucede, porém, que é desnecessário recuar tanto para se perceber a transformação profunda do mundo.  Basta observar as evoluções nas últimas três décadas. Por exemplo, os efeitos das tecnologias de comunicação entretanto geradas, em particular a dinâmica mais recente das redes sociais.

Os políticos, os homens do poder, nunca devem menosprezar que, do outro lado, existe uma mole humana imensa que, acicatada por causas e insatisfação, se mobiliza rápida e activamente  em processos de intensa contestação. Mubarak não o percebeu, tal como Aznar não o tinha entendido; a este último, a inabilidade da mentira custou a derrota eleitoral do PP, numa simples noite.

Os custos da teimosia e da desvalorização da ‘ira das ruas’ é o legado de Mubarak aos militares. Transcorridos demasiados dias da revolta popular, os militares ficaram, agora, encalhados entre um Egipto economicamente paralisado e os objectivos de regeneração da vida política por via da democracia e da justiça social. A distância entre o ponto de partida e os objectivos será  um inevitável percurso acidentado e longo. Mas, sublinhe-se, o processo não pode ficar, apenas, às ordens das forças armadas. A sociedade civil, sem privilégios de ordem teocrática, deverá participar, como defende o ‘Nobel da Paz’ Mohamed El-Baradei. 

Ao Ocidente cumpre manipular com pinças este complicado “dossier”. O imbróglio é complexo, devido à localização geoestratégica do país, ao conflito entre Israel e a Palestina, à ajuda necessária no combate à pobreza que atinge a maioria da população egípcia. Ou, então, o Ocidente deixará escapar o Egipto da sua esfera de influência.

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